segunda-feira, 21 de abril de 2025

21.4.2025 - One day plus 982 - Iluminados!

 



Meu adorado Martim,


Cada vez menos acredito em coincidências. Penso que o Universo tem todo ele um significado, mas um significado que nos transcende, devido à sua dimensão imensurável. Quantos beijos "infinitos" mandámos em crianças? E o que é o Infinito? O que é esta Dimensão, paralela a uma Existência, que apenas alguns vislumbram, enquanto outros têm o privilégio de entrar? 

Escrevo-lhe precisamente um mês depois da nossa ªúltimaª conversa. Última por aqui, porque todos os dias tenho conversas consigo dentro do meu coração. Quis escrever-lhe ontem, para lhe contar o que foi mais uma Páscoa, mais uma sem si, mas com a mesma ternura de sempre. Talvez tenha sido a alegria do seu irmão perante os ovos encontrados, disputados neste espaço exíguo com o António, ou talvez a visita deste último, mostrando que até a pior das tragédias trouxe consigo um iniciar de uma doce tradição, ou mesmo a gratidão pelo anjo terreno que me enviou, ou ainda pelo facto da sua avó estar viva, embora esta Páscoa não connosco, e ainda mais pelo incrível almoço de cumplicidade que tive com o seu irmão, emersos da dor e das preocupações, imersos no Amor que nos une, submersos na conversa em que eu tentei entender conceitos que me ultrapassam! Sei que por tudo isto ontem acabei por não lhe transcrever esta nossa carta.

Acordei para mais um dia de trabalho, e também para um dia muito triste. Morreu o Papa Francisco. 

Morreu hoje um grande Ser Humano. 

Não tenho os conhecimentos necessários de Teologias para julgar se foi ou não um bom Papa. Nem preciso. Tenho os conhecimentos necessários enquanto pessoa, para saber que hoje morreu um Ser muito especial. Um homem que era fiel à célebre parangona do “walk your talk”, tão fiel que não usava Louboutins. Não precisava, caminhava descalço, de coração nas mãos, levado apenas pelo Amor, na sua humanidade e no seu humanismo. 

Foi o Papa que aterrou em Lisboa precisamente um ano depois do dia em que ovocê, meu Filho celestial, morreu, quase à mesma hora. Desde aí, sempre achei que era um Papa especial para mim. 

Trouxe-me de novo à Fé, de coração totalmente entregue, aquele dom de acreditar e, com isso, de caminhar. Ontem quando o vi a desejar Boa Páscoa comovi-me, tão frágil, e contudo, tão forte, na força (de vontade) que permitiu que - ofegante - desse a Benção ao Mundo, numa das datas mais importantes do calendário cristão. Uma última vez. Como se de (mais) uma premonição se tratasse. Ontem também os Cristãos Ortodoxos celebraram o domingo de Páscoa. Não acontecia há mais de mil anos uma coincidência de datas, destas “religiões”. Foi como que uma “União” de Credos. Viveu a Páscoa, e morreu um dia depois de celebrarmos a Ressurreição de Cristo. 

Só isto reflecte a imensidão deste Ser, tão humano, como espiritual. Há pessoas que contêm em si a centelha do Divino. São as que morrem com um significado, e com um propósito: o Céu precisa de Anjos (e de Santos), independentemente da sua idade! 🙏💫⭐️

Tenho a certeza de que os seus braços o acolheram, e que agora é que vai ser, aí no Céu. Você faz milagres, até rejuvenescer um Papa. Acredito que todos Vocês são Seres de Luz. Talvez sejam uma Fusão de Seres de Luz, num Arco-Íris perfeito, todos vocês por quem choramos. Não sei. 

Mas uma coisa aprendi com a sua morte, com a sua Subida, com a sua Passagem: é possível, nem que seja que por meros instantes, largar as amarras do terreno, algemas agrilhoadas na imutação, que nos remetem para o fundo e nos impedem de voar, numas asas aladas, esvoaçadas num paralelo riscado e rabiscado a azul, no horizonte do Céu. 

Esquecer as questiúnculas, as vaidades, a soberba, a inveja, o ciúme, e VOAR. Porque não é "aqui" que reside a verdadeira Vida. É no AQUI. Neste momento em que somos unos com o Cosmos.

Cada vez o sinto mais longe, e nessa distância que não tem forma de ser medida, sinto-o cada vez mais perto. Sinto-o ao lado do Divino, e na Vossa Complacência, olharem para nós, humanos, e sorrirem.

Francisco saiu do hospital e contra tudo e contra todos, escolheu o Domingo de Páscoa para abençoar a Humanidade. Umas horas depois, morria. Ou vivia. Para a Eternidade, porque, enquanto houver memória, irá entrar para a História como o Franciscano, ou o Papa que se recusou a usar Louboutins.

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami


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