Meu adorado Filho,
De facto a vida engole-nos, mas jamais digere a saudade; essa refluxa de novo, todos os dias, a todos os instantes, sempre no âmago do meu ser. Mas o que é facto, é que já não manuseio a máquina de costura como gostaria. E isso é um sinal que me preocupa, ou melhor, que me faz reflectir. Tanta coisa aconteceu nestes últimos três anos e meio depois da sua morte, ou da sua passagem, porque é e disso que se trata, que não há palavras para o descrever.
Resolvi investir uns trocos num iPad, simplesmente porque é prático, e nele navego, e escrevo, e relembro e recordo e revivo! A saudade não se atenua, simplesmente caminha ao nosso lado, como a nossa sombra. Mas quando fecho os olhos, e estendo os braços, aqui estamos, você e eu, sempre, sempre e para sempre unidos. Esta semana vi uma reportagem sobre um casal que perdeu um filho. Envelheceram mil anos, tal como eu, mas vivem na amargura, enquanto eu decidi viver na gratidão. Sei que está furioso comigo, e com razão, porque lhe devo o meu projecto, mas o trabalho tem-me sugado o tutano dos ossos. À noite estou tão cansada, que me anestesio em frente à televisão, eu, que sempre detestei aquele ecrã azulado, porque nada, ou muito pouco, me acrescenta. A minha cabeça é um labirinto do Minotauro. Não sossega e não encontra a saída, mas caminha, sempre em busca de algo, que não é tangível, mas que é “essencial aos olhos”! Você é a minha raposa, o meu campo de trigo loiro como os seus cabelos, com aquele remoinho tão querido à frente, o de passei as minhas mãos nos seus últimos minutos.
É difícil. Todos os dias são difíceis, mas há dias, como o de hoje, em que dou Graças. Ou melhor, dou Graças todos os dias. O Mano aprendeu sozinho a tocar piano, através de pautas. Não de ouvido, mas mesmo a ler as pautas. Fiquei fascinada. O miúdo é incrível, ele próprio, a sua circunstância. Sua, dele, não sua, embora a sua (omni)presença seja constante. “I’m hungry for you my love, so come on and rescue me, love is just not enough, out of this World of needs”, e hoje o Bé fez Minestrone para o almoço. Nem me apercebi, presa aqui em cima, na minha torre não de marfim, mas de ferro (lembra-se da Iron Tower e das nossas noites de pandemia a ver a Guerra dos Tronos)? com o stress do trabalho como pano de fundo? Lembro-me de cada momento, de cada instante, de cada gargalhada e de cada sorriso, por entre este mar de lágrimas que me assola.
Cada vez mais estou convencida de que a vida poderia ser muito mais simples, se fôssemos todos mais hedonistas. Se parássemos para sentir o perfume das flores, a simplicidade das coisas, numa atitude singela, mas não. Queremos sempre mais, numa inconstância faminta de “happenings” que teimam em não acontecer, porque o que acontece, é derivado das nossas necessidades e do nosso querer.
Mil anos. Mil e um. Uma Eternidade. Tudo o resto assume a importância que lhe queremos dar. O Tempo, ele próprio com o seu tempo, num tempo intemporal, porque tudo é vivido em simultâneo.
Tanta saudade Martim. Numa esquizofrenia, como que se de uma realidade paralela se tratasse. O tempo mitiga aquilo que não é atenuável, talvez numa defesa do cérebro, não sei. Não é passível de descrição. É apenas passível de vivência. Todos os dias me reinvento, todas as manhãs ressuscito, todas as noites morro, uma vez mais.
Martim…o Céu precisa de Anjos e levou também o meu. Tenho sorte, deixou-me o outro, o terreno, e trouxe-me outro Arcanjo, e tem-me trazido tanta vida à morte em vida, que nem sei como agradecer. E, contudo, você continua a ser o meu último pensamento à noite e o primeiro ao acordar. Aprendi tanto consigo, antes e depois da sua morte.
Meu Filho tão querido, há muito que lhe devia mais uma missiva, destas nossas que atiramos, não ao mar, mas ao Universo.
Continuo a ser e a sentir-me ponte, caminho, ligação entre os Planos. Há dias em que estou mais neste, outros muito mais nesse, mas sempre à procura do meio termo. Existe uma ligação directa entre a Vida, a Morte e o Tempo. Não a sei definir.
Talvez você me ajude através do Espaço, dos Planos, do Universo!
Mil beijos da sua Mãe que o adora,
Mami

