Meu adorado Filho,
Tenho andado ausente daqui, embora presente noutros lugares, onde lhe continuo a descrever a minha Saudade, escrever sobre as minhas vivências e a transcrever tudo o que representa para mim a sua ausência física, num retrato mal desenhado da minha Alma.
Mil e noventa e sete dias separam estas datas, três anos de uma Dor Maior, e também de uma aprendizagem: de aprender a (sobre)viver, a (re)viver, de alguma forma, pelos que cá estão, pelo que já partiu, por tudo o que partilhámos.
Lembro-me de TODOS, mas mesmo de todos os momentos, em flashes de memórias fotográficas, como que "snapshots" de uma vida que foi minha, e que já não é, neste Caminho tão íngreme, tão espinhoso e tão duro que tenho percorrido. Recordo a primeira vez em que, acabado de nascer, o puseram deitado, aninhado no meu peito, e de eu o abraçar e de enviar uma prece aos Céus pela benção que me tinha sido concedida! Lembro-me quando você mordeu o seu irmão, e de ter levado com pimenta na língua. Lembro-me das noites sem dormir, onde o Pai o embalava porque eu estava derreada, lembro-me de Praga, consigo minúsculo, lembro-me do seu desespero quando vendeu a "Anica" e reparou que lá tinha deixado o terço, aquele que neste dia fatídico estava entre as mãos do seu Pai, quando cheguei ao hospital, num hiato de tempo em que a minha Vida parou. Lembro-me de Barça e do que nos rimos, numa cumplicidade que nos fez perdoar um ao outro. Lembro-me do seu quarto pequenino, virado para o Saguão, mas tão querido e bem decorado, lembro-me da pandemia: de irmos de máscaras de snorkling à mercearia, e dos lautos almoços regados com Planalto, e ainda dos serões a ver a Guerra dos Tronos. Fomos tão cúmplices meu Filho adorado, que durante os primeiros longos e intermináveis meses depois da sua morte, você ficou comigo. Tantas demonstrações suas no milagre do Amor, aquele que me possibilitou sobreviver a um terror sem precedentes. Ainda hoje contei ao Bé partes dessa quase-morte, e lhe disse simplesmente isto:
- "Ainda bem que já tenho quase sessenta anos, porque se tivesse de viver mais quarenta, as sequelas psicológicas com que fiquei iriam impossibilitar-me de ter uma vida "normal"!
Nem mil anos de psicoterapia, de mão dada com a psiquiatria me conseguiriam ajudar. Aquilo que eu passei não tem precedentes. E o que é uma vida normal?
Não lhe consigo explicar. Uma vida normal, é uma vida em que os que nos estão próximos nos ajudam a caminhar, porque nos dão Amor. Uma vida normal, é aquela em que já não nos desmanchamos a chorar a cada cinco minutos, mas conseguimos que as lágrimas caiam escondidas cá bem dentro do nosso coração, sempre semi-despedaçado.
Uma Vida (com maiúscula) normal, é ver o seu irmão feliz e a continuar com a Vida dele. Ver o Futuro finalmente reflectido na esperança espelhada do seu olhar. E no amor, gratidão e orgulho que sinto por ele, ele, a minha outra Metade, que eu amo incondicionalmente, como o amo a si. Tenho tanta, mas tanta gratidão por tudo o que o seu irmão me dá! E é também o poder falar de si ao jantar sem vergonha das minhas lágrimas, com quem me compreende e respeita, e que, com esse amor, põe uma espécie de bálsamo na minha chaga diária!
Só quem passa por isto consegue entender a brutalidade desta dimensão imensurável de desgosto, de saudade rasgada no âmago da nossa Alma. Somos "Aliens": seres roubados de tudo o que nos mantinha vivos, zombies disfarçados de humanos, com a tristeza tatuada pelo corpo todo, pelo nosso interior, pelo mais recôndito do nosso ser.
E, contudo...
...agradecemos!
A benção concedida, a vida que gerámos, o Anjo que oferecemos ao Céu.
Três anos depois, recordo este dia - que nem de fatídico pode ser denominado, porque foi muito mais do que isso - em cada detalhe, em cada segundo em que fui obrigada a morrer. Mas até nesse dia que nunca pensei sequer que fosse castigada a ter que viver, tive a felicidade de ainda o ver com uma réstia de vida, um sopro insuflado, mas presente, que esperou por mim, para que, no e com o meu Amor de Mãe, se pudesse libertar.
Sou outra pessoa, outro Ser Humano, outra Entidade, neste hoje, neste dia dois de Agosto deste ano de Dois Mil e Vinte e Cinco. Morri...morri mil e noventa e sete vezes, morro todos os dias, para ressuscitar na manhã seguinte.
É neste Campo que encontro alguma forma de Paz. É neste Campo que amo, que voltei a ser capaz de amar, de agradecer, e, de certa forma (im)perfeita,
de voltar a viver.
Meu Filho, minha Vida, meu Amor, a SAUDADE não limites, mas agradeço. Por tudo o que me foi dado, e também, por tudo o que me tem sido dado.
Mil beijos da sua Mãe que o ama,
Mami