Meu Filho tão querido,
Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia.
Valeu a pena, vale sempre a pena quando lutamos pelos nossos ideais e pelos nossos valores, carregando o estandarte dos nossos sonhos para o campo de batalha, fieis às nossa crenças e às nossas visões (ou vizuializações, sempre positivas), e sabemos, porque sentimos em cada poro que estávamos certos. Quem sabe e sente que tem a pureza do seu lado, não teme, e prefere o Nada, para conseguir o Tudo.
Lembro-me daquele dia tórrido de Verão, e daquele final de tarde que tudo, mas mesmo tudo, tudo mudou na minha Vida. Vejo o seu rosto pálido, esquálido e já semi gelado, mas com os olhos a piscar, enquanto as máquinas apitavam dezenas de vezes. Lembro-me da manta térmica, dourada, que o cobria. Revejo o seu corpo, o seu rosto, imaculado - à excepção de uma pequena marca na testa - lindo como sempre foi. Afaguei os seus cabelos, aquele remoinho rebelde que sempre lhe nasceu na testa, senti o perfume daquele loiro escuro, e a suavidade do veludo desses fios por onde passei as mãos com o maior cuidado possível, porque todo o seu corpo era uma fragilidade de uma porcelana francesa mal colada, tudo preso por um fio.
Senti a sua luta interna, externa, extra-terrena naquela batalha que, naquele momento, o senti lutar. Senti-o todo à minha volta, enroscado como só um ponto de interrogação se enrola à volta de uma pergunta, para a qual ninguém tem resposta. Ou talvez tenha:
O CÉU PRECISA DE ANJOS!
E agora diga-me lá, conhece alguém que alguma vez tenha visto um Anjo feio? Sempre li, ouvi e aprendi que os Anjos são de uma beleza física inigualável.
Só me arrependo de duas enormes coisa na Vida: de não ter tido a coragem de lhe afagar as mãos, que estavam debaixo da manta térmica - mas eu tinha tanto, mas tanto medo de o magoar ainda mais - e de não lhe ter dito as vezes suficientes que o amava, embora tenham sido as últimas palavras que trocámos, ambos ainda neste Mundo.
- "Adoro-te Filho lindo", disse-lhe eu, enquanto lhe dava a benção pela última vez, e me afogava no amor infinito dos seus braços, encostada ao conforto suave do seu peito, e ao seu cheirinho, carne da minha carne, Vida da minha Vida, Perfeição da minha Imperfeição.
...Martim...acho que nem sequer vale a pena transcrever estas nossas conversas, porque ambos sabíamos que 2026 seria um ano especial. Um ano de recomeços, de fechar de ciclos. Fomos com tudo, Você e eu, uma vez mais. Entrámos com os cavalos todos, de fogo e de cinzas, e pusemos o Mundo em chamas.
Vencemos.
Conseguimos.
Fechamos um ciclo, talvez o maior de todos.
Eu fecho um ciclo que me matou, porque criou a esquizofrenia de um hiato de tempo que é, pelo menos, milenar, que é algo que nós humanos não conseguimos explicar. Eu não tenho, como a maioria das pessoas normais, uma linha de vida que continua no tempo. Não, eu tenho uma linha de Vida que me matou, e que me obrigou a ressuscitar depois de mais de mil anos, numa vida de um sofrimento tal, que não sei como consegui (sobre)viver. Penso que o que vivi, psicológica e emocionalmente, se assemelha a um "Dachau" ou "Treblinka". Só que em vez de "Arbeit macht frei", lê-se "Trauern macht frei". É a mesma coisa que atirarem uma bóia a um náufrago, para logo depois, quando ele ainda está a recuperar o fôlego e perceber que está vivo, a furarem com uma seta.
NINGUÉM, mas mesmo ninguém consegue sequer imaginar a dor que significa perder um Filho na flor da Vida, um Ser Humano LINDO, por fora e por dentro, as pessoas nem sequer sonham o que acontece aos que lhe deram a Vida, nem aos seus irmãos.
MARTIM, você queria que a sua Vida tivesse um significado maior, e teve. Escreveu-se uma forma de Jurisprudência.
Está aqui a sua Eternidade.
Nunca pensei que voltasse a sorrir, muito menos a rir. E ainda menos a conseguir continuar a sonhar. Mas faço-o. Todos os dias!
Inspirada em SI!
Mil beijos meu Amor, meu Filho, minha Vida,
da sua Mãe que o adora
Mami
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