sábado, 25 de abril de 2026

25.4.2026 - Sobre rosas e fiéis jardineiros, sobre a Saudade e sobre dias (já sem conta) “Au breakfast club de Paris)…

 



Meu adorado Filho,

De facto a vida engole-nos, mas jamais digere a saudade; essa refluxa de novo, todos os dias, a todos os instantes, sempre no âmago do meu ser. Mas o que é facto, é que já não manuseio a máquina de costura como gostaria. E isso é um sinal que me preocupa, ou melhor, que me faz reflectir. Tanta coisa aconteceu nestes últimos três anos e meio depois da sua morte, ou da sua passagem, porque é e disso que se trata, que não há palavras para o descrever.

Resolvi investir uns trocos num iPad, simplesmente porque é prático, e nele navego, e escrevo, e relembro e recordo e revivo! A saudade não se atenua, simplesmente caminha ao nosso lado, como a nossa sombra. Mas quando fecho os olhos, e estendo os braços, aqui estamos, você e eu, sempre, sempre e para sempre unidos. Esta semana vi uma reportagem sobre um casal que perdeu um filho. Envelheceram mil anos, tal como eu, mas vivem na amargura, enquanto eu decidi viver na gratidão. Sei que está furioso comigo, e com razão, porque lhe devo o meu projecto, mas o trabalho tem-me sugado o tutano dos ossos. À noite estou tão cansada, que me anestesio em frente à televisão, eu, que sempre detestei aquele ecrã azulado, porque nada, ou muito pouco, me acrescenta. A minha cabeça é um labirinto do Minotauro. Não sossega e não encontra a saída, mas caminha, sempre em busca de algo, que não é tangível, mas que é “essencial aos olhos”! Você é a minha raposa, o meu campo de trigo loiro como os seus cabelos, com aquele remoinho tão querido à frente, o de passei as minhas mãos nos seus últimos minutos.

É difícil. Todos os dias são difíceis, mas há dias, como o de hoje, em que dou Graças. Ou melhor, dou Graças todos os dias. O Mano aprendeu sozinho a tocar piano, através de pautas. Não de ouvido, mas mesmo a ler as pautas. Fiquei fascinada. O miúdo é incrível, ele próprio, a sua circunstância. Sua, dele, não sua, embora a sua (omni)presença seja constante. “I’m hungry for you my love, so come on and rescue me, love is just not enough, out of this World of needs”, e hoje o Bé fez Minestrone para o almoço. Nem me apercebi, presa aqui em cima, na minha torre não de marfim, mas de ferro (lembra-se da Iron Tower e das nossas noites de pandemia a ver a Guerra dos Tronos)? com o stress do trabalho como pano de fundo? Lembro-me de cada momento, de cada instante, de cada gargalhada e de cada sorriso, por entre este mar de lágrimas que me assola. 

Cada vez mais estou convencida de que a vida poderia ser muito mais simples, se fôssemos todos mais hedonistas. Se parássemos para sentir o perfume das flores, a simplicidade das coisas, numa atitude singela, mas não. Queremos sempre mais, numa inconstância faminta de “happenings” que teimam em não acontecer, porque o que acontece, é derivado das nossas necessidades e do nosso querer. 

Mil anos. Mil e um. Uma Eternidade. Tudo o resto assume a importância que lhe queremos dar. O Tempo, ele próprio com o seu tempo, num tempo intemporal, porque tudo é vivido em simultâneo. 

Tanta saudade Martim. Numa esquizofrenia, como que se de uma realidade paralela se tratasse. O tempo mitiga aquilo que não é atenuável, talvez numa defesa do cérebro, não sei. Não é passível de descrição. É apenas passível de vivência. Todos os dias me reinvento, todas as manhãs ressuscito, todas as noites morro, uma vez mais. 

Martim…o Céu precisa de Anjos e levou também o meu. Tenho sorte, deixou-me o outro, o terreno, e trouxe-me outro Arcanjo,  e tem-me trazido tanta vida à morte em vida, que nem sei como agradecer. E, contudo, você continua a ser o meu último pensamento à noite e o primeiro ao acordar. Aprendi tanto consigo, antes e depois da sua morte.

Meu Filho tão querido, há muito que lhe devia mais uma missiva, destas nossas que atiramos, não ao mar, mas ao Universo.

Continuo a ser e a sentir-me ponte, caminho, ligação entre os Planos. Há dias em que estou mais neste, outros muito mais nesse, mas sempre à procura do meio termo. Existe uma ligação directa entre a Vida, a Morte e o Tempo. Não a sei definir.

Talvez você me ajude através do Espaço, dos Planos, do Universo!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami


quinta-feira, 5 de março de 2026

05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!



Meu Filho tão querido,

Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. 

Valeu a pena, vale sempre a pena quando lutamos pelos nossos ideais e pelos nossos valores, carregando o estandarte dos nossos sonhos para o campo de batalha, fieis às nossa crenças e às nossas visões (ou vizuializações, sempre positivas), e sabemos, porque sentimos em cada poro que estávamos certos. Quem sabe e sente que tem a pureza do seu lado, não teme, e prefere o Nada, para conseguir o Tudo. 

Lembro-me daquele dia tórrido de Verão, e daquele final de tarde que tudo, mas mesmo tudo, tudo mudou na minha Vida. Vejo o seu rosto pálido, esquálido e já semi gelado, mas com os olhos a piscar, enquanto as máquinas apitavam dezenas de vezes. Lembro-me da manta térmica, dourada, que o cobria. Revejo o seu corpo, o seu rosto, imaculado - à excepção de uma pequena marca na testa - lindo como sempre foi. Afaguei os seus cabelos, aquele remoinho rebelde que sempre lhe nasceu na testa, senti o perfume daquele loiro escuro, e a suavidade do veludo desses fios por onde passei as mãos com o maior cuidado possível, porque todo o seu corpo era uma fragilidade de uma porcelana francesa mal colada, tudo preso por um fio. 

Senti a sua luta interna, externa, extra-terrena naquela batalha que, naquele momento, o senti lutar. Senti-o todo à minha volta, enroscado como só um ponto de interrogação se enrola à volta de uma pergunta, para a qual ninguém tem resposta. Ou talvez tenha:

O CÉU PRECISA DE ANJOS!

E agora diga-me lá, conhece alguém que alguma vez tenha visto um Anjo feio? Sempre li, ouvi e aprendi que os Anjos são de uma beleza física inigualável. 

Só me arrependo de duas enormes coisa na Vida: de não ter tido a coragem de lhe afagar as mãos, que estavam debaixo da manta térmica - mas eu tinha tanto, mas tanto medo de o magoar ainda mais - e de não lhe ter dito as vezes suficientes que o amava, embora tenham sido as últimas palavras que trocámos, ambos ainda neste Mundo.

- "Adoro-te Filho lindo", disse-lhe eu, enquanto lhe dava a benção pela última vez, e me afogava no amor infinito dos seus braços, encostada ao conforto suave do seu peito, e ao seu cheirinho, carne da minha carne, Vida da minha Vida, Perfeição da minha Imperfeição.

...Martim...acho que nem sequer vale a pena transcrever estas nossas conversas, porque ambos sabíamos que 2026 seria um ano especial. Um ano de recomeços, de fechar de ciclos. Fomos com tudo, Você e eu, uma vez mais. Entrámos com os cavalos todos, de fogo e de cinzas, e pusemos o Mundo em chamas.

Vencemos. 

Conseguimos. 

Fechamos um ciclo, talvez o maior de todos. 

Eu fecho um ciclo que me matou, porque criou a esquizofrenia de um hiato de tempo que é, pelo menos, milenar, que é algo que nós humanos não conseguimos explicar. Eu não tenho, como a maioria das pessoas normais, uma linha de vida que continua no tempo. Não, eu tenho uma linha de Vida que me matou, e que me obrigou a ressuscitar depois de mais de mil anos, numa vida de um sofrimento tal, que não sei como consegui (sobre)viver. Penso que o que vivi, psicológica e emocionalmente, se assemelha a um "Dachau" ou "Treblinka". Só que em vez de "Arbeit macht frei", lê-se "Trauern macht frei". É a mesma coisa que atirarem uma bóia a um náufrago, para logo depois, quando ele ainda está a recuperar o fôlego e perceber que está vivo, a furarem com uma seta.

NINGUÉM, mas mesmo ninguém consegue sequer imaginar a dor que significa perder um Filho na flor da Vida, um Ser Humano LINDO, por fora e por dentro, as pessoas nem sequer sonham o que acontece aos que lhe deram a Vida, nem aos seus irmãos.

MARTIM, você queria que a sua Vida tivesse um significado maior, e teve. Escreveu-se uma forma de Jurisprudência. 

Está aqui a sua Eternidade.

Nunca pensei que voltasse a sorrir, muito menos a rir. E ainda menos a conseguir continuar a sonhar. Mas faço-o. Todos os dias!

Inspirada em SI!

Mil beijos meu Amor, meu Filho, minha Vida,

da sua Mãe que o adora

Mami




25.4.2026 - Sobre rosas e fiéis jardineiros, sobre a Saudade e sobre dias (já sem conta) “Au breakfast club de Paris)…

  Meu adorado Filho, De facto a vida engole-nos, mas jamais digere a saudade; essa refluxa de novo, todos os dias, a todos os instantes, sem...