Meu adorado Filho,
Há demasiado tempo que não lhe escrevo - demasiado - esquecido, procrastinado, adiado, em mil e uma coisas. Passaram os seus anos, e eu muda fiquei, passou o dia da máxima Expiação, e eu não tive coragem para lhe escrever a descrever o Calvário martirizante que vivemos. Que vivi. Foram semanas de insónias constantes, de pesadelos, de vigílias, de "wishful thinking", de vida de morcego, e com um volume de trabalho indescritível. Não sei como sobrevivi, acho que era para viver o dia de hoje. Vivi, de novo, o INFERNO. Sou prima de Dante.
E aqui, não posso deixar de sentir amor, carinho e uma enorme gratidão por quem me abraça, adormece, me carrega e me atura, porque amar uma mãe, uma filha, e uma mulher que perdeu um filho não é tarefa fácil. E não é para todos. Mas é para os que aqui estão, e que me carregam.
Ontem faria anos a Tia, a Estrela que está mais longe no meu Universo celestial, e que muito, muito raramente, fala comigo, sobretudo de uma forma tão próxima como ontem. Foi linda a nossa conversa. Amanhã faria anos o Avó Gão. Mais uma vez está uma data tão importante no meio.
Ouvi a sua voz, tão próxima como há tanto tempo não a sentia, e decidi ir com tudo, como só você faria.
Hoje é um dia com um sabor diferente, Um dia que marca um precedente. Envelhecemos mil anos nesse hiato de tempo. Sobrevivemos. Sonhamos. Sofremos. VENCEMOS! e somos!
Mil beijos das sua mãe que o adora,
Mami
