Meu adorado Filho,
Há demasiado tempo que não vinha aqui ao nosso espaço sideral para conversar consigo. Tanta coisa acontece em vinte dias!
A Poppie veio, e dá imenso trabalho educar um cão como deve de ser. Ocupa-me os dias, mas isso é bom. No entanto, e como eu ando constantemente a levar pancada do Universo - que acha que ainda não levei o suficiente e tenho arcaboiço para ainda mais - a Poppie veio com um fungo. Ao princípio não reparei, era uma macha minúscula no meio da testa, e achei que era de nascença. Infelizmente não. Começou a espalhar-se pelo corpo, e as manchas a aumentar de dia para dia, e não estou a exagerar. Houve quem me dissesse para a devolver, pois as despesas e as preocupações são algumas, soi disant, mas fiquei chocada. Não se devolvem seres, muito menos aqueles pelos quais nos responsabilizámos. É um azar do caraças, mas é o que é. Em resumo: tenho uma cadela de quatro meses, que fui resgatar ao abrigo, e que está meio careca e ainda mais feia do que já era. Mas é inteligentíssima e adoptou-me mal entrou nos meus braços, num abraço imenso de gratidão, nuns olhos meigos e sonhadores. E como o essencial é invisível aos olhos, ou neste caso particular, o que entre pelos olhos adentro não é o que vai naquela alma de cão, vamos a mais um desafio.
Ontem fomos a Coimbra. Levei-o comigo, no meu coração, meu Paraíso do Amor, meu querido Filho. Sei que está desiludido comigo - aliás a coruja deve ter voado do nosso jardim, pois nunca mais a ouvi - mas eu faço o que posso. A morte da Foxie agravou o meu cérebro de um modo assustador. Aliás, quero falar com a Doutora Ana Carolina sobre isso. Não me consigo concentrar de forma nenhuma. As Dianas já não nascem das minhas mãos com a alegria e a espontaneidade com que as criava, olho para elas como algo que não saiu de mim, e para acertar numa, descarto três. As horas e horas em que passava à máquina de costura, são agora apenas pequenos pedaços de minutos roubados ao dever de cumprir. Não sei o que se passa comigo: há dias em que consigo sorrir, em que o Mundo me embrenha num entorpecer da minha dor, mascarado pelo dever, numa teia tecida por aranha sonolenta. Mas depois voltam os dias como o de hoje, em que toda eu estou no Céu, toda eu sou Saudade, toda eu sou...Mãe roubada de um tesouro, de si própria, cansada de lutar, mendiga do Amor.
À medida que os dias passam, e caminhamos para os dez meses, a perplexidade perante a sua morte aumenta e às vezes duvido da minha vida anterior. Filho, sei que isto é horrível de dizer, mas é verdade, é o que sinto. As pessoas e os lugares são os mesmos, mas é como se me pedissem para olhar para a vida de outra pessoa, é como se estivesse a ler um livro onde me identificasse com a personagem principal, mas cuja vida nada tem a ver com a (sobre)vivência da minha vida de hoje.
Perdi a magia na e da minha vida, e percebi isso ontem, em Coimbra. E nesse concerto repleto de sofisticação e de tecnologia, o meu coração levou-me para a simplicidade de um Rock in Rio em Lisboa, naquele em que Amy Whinehouse passou a vergonha da sua vida, acabando por cair no palco, e em que Lenny Kravitz salvou aquele relvado, consigo e com o seu irmão sentados nos rebordos de um contentor do lixo, e o Pai, em pé, à nossa frente, com um frio de rachar em finais de Maio, assisti ao MELHOR concerto da minha vida, nessa altura ainda Vida. Fomos envolvidos pelas músicas, pelo som de algo familiar, pela simplicidade. Foi...
...ÉPICO!...
Tim, em dez meses acontece tanta coisa...mas tanta, tanta coisa, e contudo, o Mundo, ou o meu Mundo está parado há duzentos e noventa e cinco dias - ou será há mil anos?, e isso é que é esquizofrénico - e tudo parece irreal, surreal e absurdo. É Albert Camus no seu expoente máximo!
Tim...não se consegue descrever este limiar entre a loucura e a sanidade.
Não sei explicar o que se passa, acho que o Tempo adquiriu um novo tempo, num decorrer do que mais parece um escorrer, por margens escorregadias em cima de rochas, onde rasgamos a pele e nos agarramos a um NADA sem significado, só porque temos o dever de ter uma vida. E contudo, nesse tempo, nesse hiato de Tempo, plantaram-se árvores de fruto, venderam-se duas cabras e quatro ovelhas, das quais vimos nascer quatro cabeças, enterrámos uma companheira de um quinto de vida, e colhemos courgettes da horta. E sorrimos.
Tim...
...nesta teia frágil e efémera, o meu amor por si é INFINITO, pois é Amor de Mãe, aquele que é o Amor mais puro, mais eterno, mais genuíno, mais repleto de saudade e de tanta gratidão!
Mil beijos da sua Mãe que o ADORA!
Mami

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