Meu querido, meu adorado Martim,
Nove meses...o tempo que demora carregar um Filho, a dar Vida, a ser Vida. Eu carrego um fardo mais do que pesado, são toneladas de desgosto, de saudade, de sentir a sua falta a cada inspiração. Em nove meses acontecem muitas coisas: morre o Opa, o seu querido avô que o adorava, e morreu a Foxie. No dia em que ela morreu, achei que enlouquecia, e estive a instantes de pedir ao Miguel para me levar a Tomar, para me porem a dormir, e me aliviarem da dor incessante que me dilacerava as entranhas. Foram nove meses de perda, de tristeza, de ver sofrer os que amo, mas ao mesmo tempo, foram nove meses de outras coisas. No meio da insanidade da saudade, plantou-se uma horta, arrancaram-se - às minhas mãos - os urtigões, plantaram-se duas cerejeiras, dois pessegueiros, uma árvore de mirtilos, e todas estão a dar ou frutos, ou flores.
Também foi o mês em que se matou o Trinta e Um. Nunca pensei que o conseguisse comer, mas depois de perdermos tanto, comer um cabrito que nos nasceu literalmente nas mãos, acaba por ser uma homenagem gustativa ao próprio do animal.
E com isto quero dizer, que, lentamente, com muito mais revezes do que progressos, vamos aprendendo a (con)viver com a dor. Percebemos que nada é eterno, excepto os Anjos como você, meu Filho adorado. Quando pensamos que atingimos o pico do sofrimento, vem mais uma ferroada do Universo e volta tudo ao mesmo, mas sobrevivemos. Com a ajuda da Doutora Ana Carolina tenho percebido que é bom exorcizar a dor, porque o importante é a sobrevivência, nem que seja pelos que cá estão connosco, e nos merecem no nosso melhor.
Aprendi portanto, que o nosso coração aguenta muito mais do que pensa, e que a nossa mente é o que tentamos fazer dela, dentro das limitações físicas e psicológicas que se nos deparam. Dito isto, e depois de dez dias em que pensei que estava a enlouquecer mesmo, mas MESMO, em que o sofrimento me levou à beira da insanidade, numa epifania, ou talvez num último instinto de sobrevivência, fui a uma Abrigo buscar uma cadela. Estava tão nervosa na viagem, que só me apetecia vomitar. Questionei-me sobre muitas coisas. E no Caminho - propositadamente com maiúscula - pedi-lhe, baixinho e com todo o meu Amor, numa oração desesperada, que me desse um Animal que fosse inteligente. Não pedi mais nada, apenas isso, e, claro, que gostasse de mim. Apaixonámo-nos uma pela outra ao primeiro olhar. Nos primeiros dias, andei dividida entre a minha saudade pela Foxie o carinho pela Poppie. Sentia-me uma traidora, e, ao mesmo tempo, uma Sobrevivente.
A Poppie tem-me feito bem. Registei-a com "ie" de propósito, tal como a nossa Foxie. Quis manter a tradição. Tenho uma rafeira preta que nem breu, com patas brancas, e que veio para mim quando o campo se encontra semeado de papoilas, num salpicado intenso de encarnado vivo como a vida.
E assim passo os dias meu Amor. Com muito menos força física, com muito mais fragilidade, mas com uma réstia de determinação.
O Mano está a ajudar-me, ou melhor, a fazer-me um "coaching" à distância, de como educar um cão, e tem resultado. Dá muito trabalho, e tenho de ouvir e repetir tudo o que ele me diz para fazer, para lhe mostrar que não me esqueço, ou que a minha frágil cabeça não me trai e não me leva a esquecer o que ele me acabou de dizer. É muito bom tê-lo muito mais próximo. Estar na nossa cumplicidade maternal-filial é maravilhoso. Adoro o Mano como o adorava a si e admiro-o cada vez mais. Ele faz-se Tim, e vai-se fazer um Homem com "H", como canta Matogrosso. Cada dia tenho mais orgulho nele. O seu fardo é tão pesado quanto o meu, e todos os dias me lembro disso, e ao lembrar-me disso, continuo. Por ele, por si, por mim, por todos.
Aprendi também que o que me aconteceu subsequentemente à sua morte, não é uma vergonha. Nem uma desgraça, e que deve, e tem de ser respeitado. Você morreu naquele desastre fatídico, e a minha cabeça ficou lesionada. Aparentemente está tudo bem, mas muitas pessoas ao mesmo tempo, cansam-me, e a memória, bom, dessa já nem lhe preciso de falar. Reparei que depois da morte do avô ela piorou, e agora, depois da Foxie se ter ido, faltam-me palavras quando quero comunicar. Tenho aprendido a não valorizar, a não me sentir inferior, mas não é fácil. Não sei como vou fazer, mas a Doutora Ana Carolina diz-me para nem sequer pensar um segundo nisso, o que é bom, porque me causa uma angústia imensa. Não me preocupo, ou não me tento preocupar, e procuro todos os dias, ir um pouco mais além. Vamos ver se consigo.
Eu mudei radicalmente com a sua morte, e não foi apenas a minha vida, fui eu enquanto ser. Tenho de aprender a (re)conhecer esta nova pessoa que vive em mim, identificar-me nesta nova existência, e não é fácil. Mas depois, naquelas madrugadas em que morro, uma vez mais de mil vezes ao pensar na sua não presença física, naqueles momentos em que estou no limiar, como nesta madrugada, a que deu entrada a dia 2.5., a Coruja e o Mocho brindaram-me com piar carinhoso, e percebi que era mais um sinal seu. Acredito no Cosmos, acredito que nos iremos reencontrar um dia, cair nos braços um do outro e falar, falar, falar, falar. Acredito que isso vai acontecer um dia. Um dia!
Até lá meu Amor, até lá minha Vida,
Mil beijos da sua Mãe que o adora,
Mami

Envio toda a força e luz que precisas✨❤️
ResponderEliminarObrigada! :-)
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