domingo, 31 de agosto de 2025

(Almost 1.9.2025) - Sweet September...One Day plus three (too) long Summers

 



Meu adorado Filho,


Amanhã será Setembro, e a Oma fará oitenta anos um dia depois, o Alex M. morreu, a Vida é feita de mentiras e o Luto é a única verdade.

Há muito que não lhe "falo" aqui, nas nossas conversas, tão pessoais quanto sinceras. A si posso contar tudo, tudo aquilo que se passa aqui nesta Terra, e tudo aquilo que eu gostaria que acontecesse no Céu. Ou vice-versa. Ou que do Céu talvez você faça acontecer, uma vez mais, aquilo que fez no Penhascoso. 

Nunca mais me esquecerei do Mocho bebé, daquela visita inusitada numa noite de mais um Verão, que por pouco não era atropelada, não fosse o meu olhar atento, como que em (mais) uma premonição. Já percebi. Sei que no murmúrio daquele sussurro quase mudo e silencioso do Universo, um grito se ouviu no meu âmago, aquele esconderijo recôndito onde, cada vez mais, só você eu temos lugar , e me disse o que eu queria saber, e pelo qual eu ansiava há tantas luas (cheias), como um colo de mãe! Aquele lugar secreto, que de vez em quando se torna minguante pela Saudade, para depois crescer, de novo, no seu Amor.

Você e eu...

...muito, muito, muito se poderia escrever sobre a transmutação, ou sobre o processo alquímico em que nos tornamos UNOS com o Universo. Sobre aquele momento suspenso na Eternidade do Tempo (in)temporal, em que tudo acontece, no vórtice de um TUDO, no pleno de um TODO, todo ele cheio, grávido , prenho (de acontecimentos), mas mesmo assim com uma lacuna perpétua, que se vislumbra numa chaga diariamente reaberta no sangue sentido na falta de quem foi nosso. Sem vírgulas, porque a frase, ou o desabafo, se querem lidos num só fôlego, para os que ainda o têm.

As recordações sucedem-se, em catadupas de imagens sucessivas, que, no seu ritmo frenético, se cristalizam no que chamo da minha vida. Ou passado, que foi um presente, vivido no presente de um "presente" do indicativo, porque tudo é uma dádiva, até os espinhos que nos rasgam os pés, nesta Caminhada tão dura quanto íngreme!

Espero que você indique o Caminho ao "Sorriso mais bonito de Lisboa", depois do seu. Tenho a certeza de que hoje estão a beber copos no Céu!

Mil beijos meu Filho, da sua Mãe que o adora,


Mami

domingo, 3 de agosto de 2025

3.8.2025 - One Day plus 1098 - Falling in Love

 


Meu adorado Martim,

Comecemos pelo início, nesse pleonasmo mais-que-perfeito, traduzido em vontade de acção, num Tempo (in)temporal:

Perdi a Cobra da minha Havaiana branca, do pé esquerdo. Perdi-a em Bicas, Bocas, Bioucas roucas, rouxinóis padecendo de insónias em noite estivais, ou de Ocasos que acontecem, não por acaso, mas porque simplesmente são previsivelmente propositados! E dei por isso quando entrei no nosso "tanque", porque até a cor faz um "match" perfeito, tal como acontece no Loft. Perdi a Cobra. Que já não se vende online!

E como não podia deixar de ser, pedi-lhe um Sinal, enquanto rezava o responso ao meu Santo devoto, e prometia uma esmola a um pobre, e uma fortuna ao Universo, porque seria um sinal seu. Sei que ainda por cá esvoaça, de quando em vez, naquela nossa cumplicidade transcendental, e em ocasiões muito mais do que especiais, você aparece, dando-me um ar da sua Graça Divina! 

E, de facto, como que se de uma das nossas conversas se tratasse -  em que você era super crítico, e eu ficava furiosa, e me tentava defender, numa falácia de uma retórica gaga - encontrei...

...infelizmente não a bendita da Cobra, mas a parte de trás do meu travessão comprado no Colombo, caríssimo, mas com ar de "Made in China", que até me fez guardar o talão de compra, eu, eu que detesto papeis, e aí percebi que nem sempre os Sinais são os que queremos. Mas que me continuam a serem enviados.

Hoje quis tecer uma comparação entre o Verão da sua morte, ou Transformação, e o dia de hoje, calor tórrido que me convida à indolência, e procurei uma mensagem, com uma fotografia do IPMA, que lhe enviei no dia 28 de Julho de 2022.

...Curiosamente, não encontro essas nossas últimas conversas.

Mas encontrei todas as outras, as que eu considerava irremediavelmente perdidas, porque só deveriam ser recordadas no âmago da memória do meu coração. Muito mais no passado, num tempo em que nos desafiámos, nos defrontámos, e questionámos muita coisa, para nos (re)encontrarmos no Amor das nossas Almas, que eram tão, mas tão parecidas, a sua muito mais perfeita do que a minha!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,


Mami!

sábado, 2 de agosto de 2025

2.8.2025 - One Day plus 1097 - "The part of me that's You will never die..."

 


Meu adorado Filho,

Tenho andado ausente daqui, embora presente noutros lugares, onde lhe continuo a descrever a minha Saudade, escrever sobre as minhas vivências e a transcrever tudo o que representa para mim a sua ausência física, num retrato mal desenhado da minha Alma. 

Mil e noventa e sete dias separam estas datas, três anos de uma Dor Maior, e também de uma aprendizagem: de aprender a (sobre)viver, a (re)viver, de alguma forma, pelos que cá estão, pelo que já partiu, por tudo o que partilhámos.

Lembro-me de TODOS, mas mesmo de todos os momentos, em flashes de memórias fotográficas, como que "snapshots" de uma vida que foi minha, e que já não é, neste Caminho tão íngreme, tão espinhoso e tão duro que tenho percorrido. Recordo a primeira vez em que, acabado de nascer, o puseram deitado, aninhado no meu peito, e de eu o abraçar e de enviar uma prece aos Céus pela benção que me tinha sido concedida! Lembro-me quando você mordeu o seu irmão, e de ter levado com pimenta na língua. Lembro-me das noites sem dormir, onde o Pai o embalava porque eu estava derreada, lembro-me de Praga, consigo minúsculo, lembro-me do seu desespero quando vendeu a "Anica" e reparou que lá tinha deixado o terço, aquele que neste dia fatídico estava entre as mãos do seu Pai, quando cheguei ao hospital, num hiato de tempo em que a minha Vida parou. Lembro-me de Barça e do que nos rimos, numa cumplicidade que nos fez perdoar um ao outro. Lembro-me do seu quarto pequenino, virado para o Saguão, mas tão querido e bem decorado, lembro-me da pandemia: de irmos de máscaras de snorkling à mercearia, e dos lautos almoços regados com Planalto, e ainda dos serões a ver a Guerra dos Tronos. Fomos tão cúmplices meu Filho adorado, que durante os primeiros longos e intermináveis meses depois da sua morte, você ficou comigo. Tantas demonstrações suas no milagre do Amor, aquele que me possibilitou sobreviver a um terror sem precedentes. Ainda hoje contei ao Bé partes dessa quase-morte, e lhe disse simplesmente isto: 

- "Ainda bem que já tenho quase sessenta anos, porque se tivesse de viver mais quarenta, as sequelas psicológicas com que fiquei iriam impossibilitar-me de ter uma vida "normal"!

Nem mil anos de psicoterapia, de mão dada com a psiquiatria me conseguiriam ajudar. Aquilo que eu passei não tem precedentes. E o que é uma vida normal?

Não lhe consigo explicar. Uma vida normal, é uma vida em que os que nos estão próximos nos ajudam a caminhar, porque nos dão Amor. Uma vida normal, é aquela em que já não nos desmanchamos a chorar a cada cinco minutos, mas conseguimos que as lágrimas caiam escondidas cá bem dentro do nosso coração, sempre semi-despedaçado. 

Uma Vida (com maiúscula) normal, é ver o seu irmão feliz e a continuar com a Vida dele. Ver o Futuro finalmente reflectido na esperança espelhada do seu olhar. E no amor, gratidão e orgulho que sinto por ele, ele, a minha outra Metade, que eu amo incondicionalmente, como o amo a si. Tenho tanta, mas tanta gratidão por tudo o que o seu irmão me dá! E é também o poder falar de si ao jantar sem vergonha das minhas lágrimas, com quem me compreende e respeita, e que, com esse amor, põe uma espécie de bálsamo na minha chaga diária!

Só quem passa por isto consegue entender a brutalidade desta dimensão imensurável de desgosto, de saudade rasgada no âmago da nossa Alma. Somos "Aliens": seres roubados de tudo o que nos mantinha vivos, zombies disfarçados de humanos, com a tristeza tatuada pelo corpo todo, pelo nosso interior, pelo mais recôndito do nosso ser.

E, contudo...

...agradecemos! 

A benção concedida, a vida que gerámos, o Anjo que oferecemos ao Céu. 

Três anos depois, recordo este dia - que nem de fatídico pode ser denominado, porque foi muito mais do que isso - em cada detalhe, em cada segundo em que fui obrigada a morrer. Mas até nesse dia que nunca pensei sequer que fosse castigada a ter que viver, tive a felicidade de ainda o ver com uma réstia de vida, um sopro insuflado, mas presente, que esperou por mim, para que, no e com o meu Amor de Mãe, se pudesse libertar.

Sou outra pessoa, outro Ser Humano, outra Entidade, neste hoje, neste dia dois de Agosto deste ano de Dois Mil e Vinte e Cinco. Morri...morri mil e noventa e sete vezes, morro todos os dias, para ressuscitar na manhã seguinte.

É neste Campo que encontro alguma forma de Paz. É neste Campo que amo, que voltei a ser capaz de amar, de agradecer, e, de certa forma (im)perfeita,

de voltar a viver. 

Meu Filho, minha Vida, meu Amor, a SAUDADE não limites, mas agradeço. Por tudo o que me foi dado, e também, por tudo o que me tem sido dado.

Mil beijos da sua Mãe que o ama,

Mami

05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...