Meu adorado Filho,
Espero que se encontre bem nesse lugar mágico que é o Céu!
Tenho imensas coisas para lhe contar e não sei por onde começar. Mas vou tentar coordenar esta minha cabeça nómada, a que deambula entre estes dois Mundos, numa tentativa de lhe resumir os últimos dias.
Esta semana é particularmente difícil. Você sabe porquê. Pensei em ir ao cemitério a Lisboa, mas não tenho coragem. Sou uma cobarde na minha dor. Optei por só ir com a Oma na véspera da minha consulta, porque aqui, ao menos, as memórias não doem tanto. Vamos almoçar as duas dia 24 ao Àlvaro e falar de si. Acho que nos fará bem.
Está um frio de rachar e descobrimos que para acender a lareira da cozinha com o vento Norte, só tendo um bombeiro como primo, ou irmão, que nos empreste máscaras para nos defendermos da fumarada que entra. Percebemos agora porque existia a salamandra, e tenho pena que o vendedor não tenha tido a hombridade de nos explicar isso, porque não a teríamos tirado da cozinha. O resultado foi um frio glaciar, que nos obrigava a consumir lenha como se não houvesse amanhã, e nada aquecia, porque as lareiras fazem corrente de ar entre elas. Bom, resumindo, falámos ao Senhor Armando e mandámos fazer uma porta, para isolar as salas e o resto da casa. Entretanto, o Miguel, naquele espírito alternativo que o caracteriza, improvisou um tapa-chaminés na cozinha. Com muito nervosismo, berros e "set-backs", lá tapou a chaminé. O resultado é uma casa cigana, só falta uma tenda a proteger, mas o que é facto, é que não rapamos tanto frio. Para a semana já vem a porta, depois temos de encontrar solução para a lareira da cozinha. Mas melhoramos o problema.
Estou sentada na sala, em frente ao seu altar, e olho para si. Ontem estive a ver aquela série meio fajuta do "Em Contacto" até de madrugada, e percebi que aquele cheirinho seu, que senti há umas semanas, foi a sua derradeira despedida, um último afago, uma final recordação, de uma doçura inexplicável, antes de você subir para além do alcance das minhas preces. Mas sei que subiu contente, por finalmente nos saber instalados, eu na Quinta, e o seu Altar no lugar de eleição desta casa. Sei que está bem, e sinto isso em todos os meus poros.
A Oma está cá e é tão bom. Hoje levei-a ao cabeleireiro, parece a Maria Antonieta versão século vinte e um, mas está radiante, por estar de cabeça lavada. E está bonita. Anda numa busca incessante por poltronas/senhorinhas/assentos para a salinha e encontrou um no "boda", como diz o Mano. Claro que a teremos de ir buscar, porque eu saio a ela: movemos a Terra e o Céu quando queremos alguma coisa, embora eu não me atreva a remexer no Céu, porque o que eu queria ter aqui, ninguém mo dará de novo, só o meu coração de Mãe, naquela Eternidade que nos une.
Entretanto, e a propósito de aventura, o Bicas vai para a Austrália. Sei que se você estivesse vivo, ou melhor, neste mundo físico, me estaria agora dizer que iria com ele, nessa liberdade única, e eu estaria a morrer de preocupação, mas iria partilhar da sua adrenalina, da coragem, do amor pela descoberta. Não posso negar que fico com saudades do Bicas, ele é outro Filho meu, mas entendo perfeitamente o que o move. Se eu pudesse, ou se eu tivesse a coragem, iria também.
Olho para o seu Altar, que é a minha verdadeira "casa" e vejo as suas fotografias. Vejo-o a espalhar magia. E quando fecho os olhos, cansados das lágrimas, vejo luz branca com pontinhos de luz azul, como se fossem estrelas. Sei que está bem, conquanto longe, mas bem, e isso consola-me. Dá-me alguma Paz. E conforto, e sei que você quereria que fosse assim.
Nestes últimos dias não chorei tanto, porque encontrei algum consolo nos dias intermináveis, algum propósito no carregar da lenha, dar tangerinas às ovelhas e às cabras, no amanhar da terra fértil, na preparação do Inverno que chegará em breve, nos dias curtos e chuvosos.
Já acabei o escritório. Pus lá a cama, a parte de cima do beliche, a sua, e fica gira com almofadas, parece um sofá. Montei a casinha de bonecas até às cinco da manhã, e não me pergunte porquê, talvez num sonho futuro dos netos, que ainda espero vir a ter, nesta missão que o Universo decidiu escolher para mim. Vou-lhes falar em alemão, acho uma mais-valia, e só pode trazer vantagens. Se os tiver, um dia, seria um milagre, se não os tiver, depois disto tudo, decidi que irei ajudar crianças, como, ainda não sei. Enquanto a montava, lembrei-me de si e dos seus comentários, quando a pus no vosso quarto da casa de Campo de Ourique. Como isso me parece longínquo agora, perdido num tempo do qual só me restam memórias.
Caramba Tim...
"Let the river in, burst the dams and start again..."
Mas no meio desta tristeza sem fim, no meio deste NADA, sinto que há uma semente plantada, uma coisa minúscula, uma Esperança, algo que me conduz entre o Céu e a Terra e teima em me querer mostrar que a vida ainda pode ter significado. Sinto que a minha missão não terminou, mesmo presa neste casulo de tristeza sem fim, sinto que você me conduz. Sinto que está muito perto de mim, a dar-me força, a querer mostrar-me algo. Não sei se será a ESPERANÇA, mas mantém-me viva e tira-me do estado vegetativo em que por vezes me encontro.
Sinto-o Filho lindo.
Sinto que me quer cá, e só o tempo do Tempo me mostrará qual a razão de ser disso. Mas isso ajuda-me. Meu Anjo da Guarda, meu Menino, minha Vida, sei que fiquei cá por algum propósito. E prometo que vou cumprir.
Amo-te meu Amor!

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