terça-feira, 8 de novembro de 2022

7.11.2022. - One Day minus 97 (Home is where our heart is)

 

Meu adorado Filho,

Tenho andado calada, apenas falando consigo no silêncio do meu coração: os últimos dias foram um pesadelo de saudade, de tristeza, de vontade de não fazer nada, de morrer, porque estar viva é uma dor demasiadamente forte perante a sua perda física. Mas tal como diz o seu irmão, eu sou uma Guerreira, e jurei a mim própria que iria fazer o almoço em sua homenagem, nem que seja a última coisa que faço na Terra. É como se o casasse no Céu, e, confesso, cinquenta e seis pessoas em casa, é de alguma responsabilidade, mas como você me conhece, faz-se com uma pernada às costas.

O Miguel e eu estivemos a limpar o terreno da Quinta, tanto quanto as nossas forças de meia-idade nos permitem. Nunca trabalhei tanto, de ancinhos, pás, carrinhos de mão e afins, num nunca acabar, porque o espaço é enorme, e só nos mudámos há duas semanas! Mas acho, ou melhor, achamos, que está mil vezes melhor que o esperado. Temos lenha até vir a mulher da fava-rica, e no sábado vamos acender as duas lareiras, com tarolos enormes, para dar calor e Luz. O que não está perfeito, não vai ficar. Mas as ovelhas, as cabras, os patos e as carocas, irão animar um bocadinho também a imperfeição do Amor e colmatar o que não ficou a cem por cento.

Tim...vou casá-lo com o Céu, e todos os que importam, vão cá estar. Todos os seus amigos queridos, os Épicos, aqueles que partilham da dor da sua ausência, e a Alegria da dádiva do Amor. 

...Tim, não sei bem como lhe dizer isto: Eu fiz uma promessa no dia dois de Agosto, quando disse ao médico, naquela solidão apenas interrompida pelo barulho das máquinas, naquela morte em vida, naquele hiato de tempo roubado, que as podia desligar; que iria celebrar a sua Vida e o seu legado de Amor, até o Universo me levar para ao pé de si. 

Três meses depois, aqui estamos. Vazios, desolados, tristes, mas plenos de Amor, de Partilha, de Comunhão. E, portanto, CHEIOS. De memórias: as suas, doces e inocentes, suaves e queridas, quase santas, como a sua Alma, branca de pureza. Convidei os dois Padres João. Gostaria que viessem, mas deixo ao seu critério, porque estamos longe de Lisboa. Mas era lindo que viessem!

Filho, tenho também, algo para lhe contar. Recebi uma mensagem da Teresa, que me fez brotar mil lágrimas pela sensibilidade, pelo carinho e pela ternura. Ela acha que você foi um Santo. Acredito que sim, o Santo do Amor. Aqueceram-me o coração, porque o que ela me escreveu, e que também partilhei com o Pai, porque também foram apara ele, é lindo!

E é nesse Amor infinito, nesta saudade sem fim, que nos vamos reunir. São muitas pessoas, e em plena mudança de casa, pensei em pratos descartáveis e talheres de madeira, mas já sei que iria ficar furioso comigo e dizer: 

- "Mãe, adoro-a, mas uma homenagem a mim com loiça descartável, é à pobre, não quero, não gosto, a Mãe nunca fez isso!"

Portanto, e sem os faqueiros de prata de família, porque isso sim, seria impossível neste momento, vamos fazer o que conseguimos com a prata da casa, lembrando que estamos numa quinta. Mesmo assim. tenho a certeza de que vai gostar. Sei que vai, por nos ver a todos aqui, num sonho partilhado, sofrido e suado até à exaustão. Por si e pelo seu irmão faço tudo!

Não me vou esquecer de nada, vou imitar a perfeição, inspirada nesse seu coração único!

E ontem, bom, ontem, que foi quando comecei esta carta, mas que me doíam tanto os braços e as pernas, que não consegui continuar, tive a minha "recompensa". Passei pelo seu Altar para lhe acender a vela diária. Estava morta de cansaço, e a transbordar de saudade e de tristeza. Acendi a sua velinha dentro do Anjo branco que a Avó Bé me deu num Natal de uma outra Vida, e de repente, muito suavemente, quase impercetivelmente, o seu perfume, o seu cheirinho, envolveram-me. Pensei que estava com alucinações e peguei no All Star cinzento, pensando que ainda era isso que emanava o seu perfume. Cheirava a borracha. Foi então que percebi que me tinha visitado, num instante efémero, suspenso no tempo, num afago só nosso, num abraço eterno, numa semi-presença, milagre da Fé e do Amor que me movem. Sei que era você meu Filho adorado, como se num consolo, para os milhões de lágrimas que verti nos últimos dias. Esse seu afago, tão breve, tão (im)perceptível na sua suavidade da saudade, provou-me que comtinuo a estar sã de cabeça quando sei - porque SINTO - que está vivo, no meu coração, nas minhas entranhas, e na minha Alma de Mãe!

Caramba Tim, quantas Vidas terei que viver mais? Ontem valeu por mil dias. Por mil Vidas, por tudo. E ontem, foi que me fez continuar hoje. 

E de hoje a sábado faltam poucos dias, e eu prometo que você vai gostar, e aí do Céu vai-me piscar o olho, não sem antes encontrar algum defeito, mas a isso já eu estou habituada. Filho...ainda continuo a achar que estou num pesadelo. Numa realidade demasiadamente cruel para conseguir prosseguir esta jornada semeada de espinhos, e, conquanto, polvilhada de rosas estofadas de algodão, num "patchwork" de afectos, nestes momentos extenuantes, mas esperançosos, por uma celebração da sua Vida! 

Amanhã vou-me fazer à auto-estrada, pela primeira vez, desde o dia da sua morte. Até me dá vómitos só de pensar, mas levo comigo a nossa Rocha, Gibraltar único, a nossa Oma. Iremos debaixo de chuva torrencial, mas cheias de planos, de listas de compras e de memórias. E de antecipação. E de Felicidade, pela bênção de o saber ter sido "nosso", mesmo por tão puco tempo, numa posse altruísta, porque nada nos pertence, excepto as memórias, e mesmo essas, são partilhadas! Tantos corações tocados, tantas pessoas iluminadas, tanto amor dado!

Tim...

meu Filho inesquecível, meu sangue, minha carne, meu Amor, meu Futuro roubado, meu legado de...

...AMOR

(Mais, por favor!)!

Mil beijos da sua Mami



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