terça-feira, 13 de junho de 2023

13.6.2023 - One Day minus 317 (Santo António)

 



Meu adorado Filho,

Há muitos dias que não lhe escrevo. Muitos dias em que andei a saltitar deste, e do outro lado da linha, porque ela é ténue. Houve dias em que achei que endoidecia. Outros menos. Sei que a minha sanidade é proporcional ao meu desgosto, e a muitas outras coisas. Como você sabe, na minha vida nada vem de forma fácil, é tudo arrancado a ferros, e os problemas inerentes à sua morte, bem como outros tantos, têm-me posto à prova. 

Nestas agruras que teimam em me afogar, as minhas conversas consigo assemelham-se mais a súplicas, apelos transformados em murmúrios, preces que lhe invoco, neste nosso diálogo constante. Não vale a pena descrever-lhe o que tenho passado, porque seria tudo uma repetição de uma lamentação contínua, mas vou-lhe resumir ao máximo as vivências mais importantes das duas últimas semanas. Revisitei - em espaço demasiado curto, mas é o que é -  os areais onde nos divertimos tanto enquanto você e o Mano eram crianças. Fechei os olhos e ouvi a sua voz no Xico a pedir para andar de gaivota, molhei os pés numa das praias onde vivemos um dos dias mais giros da nossa vida, pisei os mesmos grãos que pisámos juntos, quando ainda éramos felizes. O meu espírito voou, e foi esse voo tão introspectivo, que me possibilitou continuar, onde penso que (já) não pertenço. Muita coisa aconteceu, e cheguei à conclusão de que é na nossa concha, fechados sobre nós mesmos, que estamos seguros. A minha vida, uma vez mais, mas de forma tão diferente, é experienciada dentro do meu âmago, ali onde só chega quem eu deixo. Foram várias as lágrimas, não por saudade essa é constante, mas por falta de compreensão, de amor, de compaixão. E isso é tramado. Mas é o que é.

O seu bisavô faria anos hoje. Foram tantos os anos em que fomos para os Santos, nessa Lisboa da qual tenho saudades, nesse tempo imaculado, intacto, pleno de inocência polvilhada a aroma de Jacarandás. 

Está mais longe meu Filho, sinto-o, e isso custa-me, mas também sei que, enquanto no meu coração não voltar a reinar a paz, assim irá continuar. Mas sei que está. Sei que agora, quando finalmente encontrei coragem para lhe escrever, me está a espreitar sobre o ombro e a sorrir. Sinto. Tão bom meu Amor. Tão, mas tão bom!

Não estou em paz, longe disso, no meu coração governa a mágoa por muitas coisas que aconteceram, por actos que não se desfazem, por injustiças que tenho que engolir, mas para lá caminho. Tenho um objectivo, e quando regressar de Lisboa, vou colocá-lo em prática. O meu espírito germânico, ou o que resta dele, fruto dessa aculturação que tanto me custou enquanto eu era criança, mas que tanto me ajuda na idade adulta, vem sempre ao de cima, e a camada de gelo que produz, é absolutamente vital, tanto quanto genial! Vou por em prática uma série de coisas, porque se não o fizer, continuam a destruir-me sem dó nem piedade e eu assisto, incapaz de reacção, e isso não sou eu. Mas demorei duas penosas, pungentes e muito sofridas semanas a chegar a este desiderato.

Estou cá meu Amor. Estou cá e relembro tanta coisa, tantos momentos, tanta partilha! Tanta dádiva. 

Hoje é também o dia de um Anjo que sei que está consigo. Um Anjo que deixou cá uma Mãe que, como eu, sofre. Sofre desmesuradamente, injustamente, neste Mundo cruel e mau! E sei que nesta madrugada me pediu para eu vos deixar as luzes do seu altar acesas. E deixei, porque percebi que era um sinal seu. E hoje ardem de novo duas velas, a sua e a dele, e vocês sorriem aí no Céu. Filho, peço-lhe perdão por ter deixado a mágoa entrar no meu coração, mas sou apenas humana, e o que sofri dos meus congéneres nas últimas semanas, foi demais!

Filho...acho que consegui saltar do lado de lá para o lado de cá, com a sua ajuda, mas as feridas que me fizeram, ficam cá. Ficam comigo, enterradas no meu âmago, naquele núcleo que só pede amor, mas que apenas encontra crítica e indiferença e mil problemas burocráticos.

Filho...não sei se o avô Freddy já aí chegou, ainda não tive coragem de me debruçar sobre isso. De despejar a tristeza, a mágoa, a revolta. Acho que sim. Não lhe consigo chegar, acho que está de tal forma preocupado comigo, que como sempre, faz por ignorar, porque sempre lhe foi mais fácil. Mas espero que sim, que ele o tenha abraçado de encontro ao coração e que tenham falado muito. Também a Foxie, esse cão como não haverá nunca mais outro no Mundo já aí chegou de certeza. Pelo amor de Deus não a chateie Filho. 

Martim, devolva a pureza do Amor ao meu coração, é só o que lhe peço. Retire-lhe a mágoa que me causaram e ajude-me a alcançar a Paz da saudade. Aquela que eu sentia há umas semanas, pungente, claro, mas que me trazia para perto de si...

Filho...do lado de cá da linha, ajude-me a ficar aqui, a não passar para o outro, porque só há apenas uma coisa que me assusta, e que já esteve mais longe: a insanidade mental.

Só isso!

Amo-te Filho...amo-te e prometo, juro, que não me voltarão a fazer mal.

Mil beijos da sua Mãe que o ama...

...Mami!




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