quarta-feira, 9 de agosto de 2023

9.8.2023 - One Day plus 7 - A espalhar Magia...


 

Meu adorado Filho,


Deixei passar propositadamente uns dias, depois do dia em que a minha Vida implodiu. E nestes dias, lembrei-me muitas vezes da conversa que o Padre João teve comigo na missa do primeiro mês após a sua morte. Ecoam-me no cérebro e no coração, as palavras que me disse: 

- "O primeiro ano vai ser o pior!"

E tal como ele previu, foi a agonia de (sobre) viver sem si, a datas tão importantes como Retornos Solares, ou o Natal, ou a Páscoa. Foi o desespêro de nunca sabermos se o amanhã fazia sentido, ou se o ontem não era mais do que a sucessão infinita de ainda mais um dia de profundo desgosto. Foram o espanto aterrorizado, nos braços da incredulidade, a dançarem no meu âmago, foi o turbilhão da saudade, foi uma luta titânica para me aguentar à tona, uma náufraga atordoada e mutilada. Sou - inegavelmente - uma outra pessoa. Tudo em mim mudou, e tenho de aprender diariamente a (con)viver com um cérebro que está doente. Tenho a certeza de que, por mais que me esforce, a minha memória não volta. É como se fosse um elástico, que foi esticado de tal forma, que rebentou. Dei-lhe um nó, mas já não estica como antigamente. É a mesma coisa que ter perdido uma perna, falta-me um bocado, mas o problema é que é um bocado CENTRAL da minha pessoa. Eu posso andar sem perna, ou pelo menos locomover-me, mas é muito difícil viver com um cérebro diferente. Há como que uma esquizofrenia latente, não queremos esta pessoa que agora habita em nós, mas esta pessoa somos nós. E isto leva uma pessoa à beira da loucura!

É uma pena não haver mais estudos científicos sobre isto, sobre mães e pais que perdem filhos, e como isso impactou a sua actividade cerebral e intelectual, se é que se podem destrinçar uma da outra. Penso que poderia ser um estudo muito interessante.

Mas como lhe dizia, estes 365 dias foram, cada um deles, um inferno na Terra, mas também foram tempos de aprendizagem. Aprender a chamar a Saudade pelo nome, é duro. Muito duro! O significado da palavra saudade é totalmente diferente quando falamos de um Filho que nos foi arrancado da Vida. Literalmente arrancado. Agarramo-nos a tudo, tudo, tudo, mas temos de nos confrontar com o significado da palavra "LARGAR". E largar é quase impossível! É dilacerante. E nós revoltamo-nos, rebelamo-nos contra a dor que esse maldito verbo nos causa. E queremos sentir essa raiva. E revolta. E é tão fácil ir por esse caminho, porque somos humanos. Ou éramos. 

E é aí que eu considero, que só "se safa" quem consegue reprimir esses sentimentos, e consegue sentir  AMOR. Só amor. E aceitação. E não começar o bailado dos "SES", porque então estamos tramados e entramos numa espiral que nos põe ainda mais doidos. E repito aqui, aquilo que li no dia da missa da sua morte: não vale a pena pensar:

- "e se ele tivesse saído um minuto mais tarde ou mais cedo? E se ele não tivesse ido rumo ao Sul?" E se e se e se, e todos esses "ses" acabam por provocar um "big bang". Claro que também tive e tenho momentos desses, mas tento canalizar esses pensamentos para a Luz. 

Quero também agradecer-lhe. O seu Amor por mim, ao ficar tantos meses entre estes dois Mundos, é algo de inesquecível, de inigualável pela sua imensidão, de arrebatador pelo seu significado. Sem si ao meu lado, jamais teria conseguido fazer Dianas, refazer uma casa, ver nascer os frutos da nossa horta e aos poucos aprender que a vida acaba, mas que o sorriso perdura. Ao princípio muito, muito raramente, mas devagar, deixa der ser apenas um esgar, para se tornar num espelho de uma alegria momentânea. 

Ter uma coruja no jardim, que falou comigo nas noites mais escuras de insónia, foi algo que me levou ao colo nos braços do desgosto, e permitiu que eu não me desfizesse em átomos. Foi como que um penso rápido no joelho sangrento de uma criança. A ferida continua a doer, mas o penso rápido mitiga a dor. E por isso mesmo, sofri tanto aquando da sua subida. Senti-o perfeitamente a subir. E depois desses meses todos consigo em mim, ou comigo em si, senti-me incrivelmente só. Mesmo mesmo mesmo só. E passei os piores momentos de toda a minha vida. Porque não só o perdi fisicamente, como nesse momento, senti que o perdia durante o resto desta minha existência física, até que nos encontrássemos outra vez quando morresse. E foi indescritível o que passei. Passei, passo e passarei, porque a morte de um Filho é a pior coisa que nos pode acontecer. Mas esse momento foi o pior. 

Olhando hoje para trás, entendo perfeitamente porque tinha de experienciar isto tudo, para  poder - finalmente - conseguir sentir alguma forma de aceitação. Todos os dias ofereço o meu sacrifício por um Mundo melhor. Tento abrir ainda mais o meu coração aos outros, numa empatia que não custa nada, e que nos faz tanto bem. A energia que recebemos ao dar amor e carinho, é um retorno de um valor imensurável.

E a cada dia em que afastamos, com sucesso, a mágoa, a raiva e o negrume, é um dia ganho. Porque é um dia de Paz. É um dia em que conseguimos calar o turbilhão que nos rasga as entranhas, e somos embalados numa espécie de torpor apaziguado, um torpor que nos permite relaxar a Alma e o corpo, porque estamos na quietude. 

E quando passaram trezentos e sessenta e cinco dias de tortura sem limites, é como se essa volta ao Sol nos permitisse finalmente atingir aquele tal patamar que eu buscava desde o dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois. É um degrau numa escada infinita, periclitante, do qual facilmente voltamos a cair, mas pelo menos, sabemos que é possível lá ter um pé em cima. Aceitar e largar, é aprender a sobreviver à saudade a cada instante do dia, recordar mil e um episódios felizes, contar histórias sobre si e sorrir, ter também a noção de quem você era, porque não era obviamente um santo: tinha as suas idiossincrasias como qualquer pessoa, e conseguir falar abertamente sobre elas; e perceber que, se estivermos atentos, o Universo comunica connosco através de sinais. São ténues, em nada comparáveis aos meses em que continuou cá, mas são sinais. São as nuvens que formam, num céu azul intenso de Verão, as recordações que estamos a reviver nesse instante, como se você desenhasse ao segundo, em perfeita sincronia, os meus pensamentos; são os aromas que por breves instantes, nos afagam o olfacto: são pequenos milagres que nos mostram que continuamos unidos, através do tempo e do espaço, num abraço imenso porque de mãe e de filho, um cordão umbilical perpétuo, porque o Amor que sinto por si é universal.

E isso embala-me, porque me faz una, a si, para sempre, na quietude do nosso Amor!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami



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