Meu adorado Tim,
Hoje é talvez o dia, dos últimos três meses, em que me sinto mais em paz. E você sabe porquê, mas vale a pena contar-lhe aqueles pormenores que não verbalizei, ou que não lhe confessei. A sua ligação com a Oma sempre foi especial, todos sabemos isso, não fosse ela a Mãe das Mães, a Avó de Todos, num quântico incontável, porque ronda a perfeição. É incrível a força desta grande, grande Senhora, desta Mulher com a maior maiúscula que o Universo alguma vez conheceu, deste coração transbordante de Amor, desta Fonte de onde nós todos bebemos, e, com isso, saciamos a nossa sede. Acordei com as galinhas e estava nuns nervos tais de manhã, que me fartei de vomitar. Mas acalmei, porque, tal como ela me ensinou, vou buscar a Força ao Universo, e lá fui, debaixo de chuva torrencial. Foi bom sentir de novo o volante debaixo das mãos, e enfrentar os terrores do trânsito lisboeta. Confesso que atirei com os sacos todos para dentro do carro e lá viemos, com lençóis de água a acompanhar-nos, mas chegámos!
Ao Campo!
Ter a sua Avó, minha grande Senhora Mãe aqui é uma bênção, como que um unguento para a minha Alma dilacerada pela dor, porque me traz o colo, o Amor, a compaixão, e sobretudo, é a única pessoa no Mundo que entende grande parte da minha dor. Foi um dia intenso e cansativo, e depois do jantar, sentadas à mesa da cozinha, acompanhadas pelo crepitar da lareira, estivemos a fazer as listas de compras para o seu casamento com o Céu. Sei que você está contente meu Filho adorado, por ver que estamos a planear tudo ao mais ínfimo pormenor. E eu sinto-me amparada, acompanhada, acarinhada nesta jornada tão dura e tão, mas tão árdua, que o Universo me colocou aos pés, descalços, porque me quer ver a caminhar sobre espinhos, uma jornada que ninguém merece!
A casa, a Quinta ganhou uma nova Vida, agora sim com maiúscula, porque me senti um pouco como se fosse Natal. Não só porque ela trouxe tudo e mais alguma coisa, desde as pratas, à Companhia das Índias, em inúmeros sacos azuis da IKEA, como o calor do amor infinito que nutre por nós. Por Todos nós! E é tão bom Tim, tão bom sentir a Vida a entrar nesta casa, nos preparativos para o seu almoço, nos por maiores pormenores que fazem a diferença!
O seu quarto está agora completo, e nele respira-se Paz: sei que você está cá connosco, numa presença grata e gratificante, no orgulho pelas Mulheres da sua Família, numa Alegria que se respira nesse patamar onde nem todos chegam, porque para isso, é preciso atingir alguma espiritualidade.
Sinto-me AMPARADA Tim, sinto-me menos só, nesta caminhada solitária e difícil, neste deserto emocional que foi rasgado nas minhas entranhas com a sua partida.
Meu Filho, minha Vida, meu Amor, meu Primogénito, minha Beleza, minha Candura de Alma...e eu consegui vir a guiar de Lisboa. Pelo caminho, achei que ia morrer, que não conseguiria, mas com "ela" ao lado, tudo é possível.
Meu Amor Infinito, no próximo sábado, caso-o com o Céu. É aquilo a que me comprometi, aquilo que lhe prometi, o meu propósito, o meu derradeiro e primordial objectivo. A partir daí, pois não sei o que se irá seguir, mas também não é importante, porque, quando nos morre um Filho, tudo muda, numa morte antecipada, num futuro roubado, numa mágoa que não tem nem fronteiras, nem limites, muito menos explicação. Tem expiação, essa sim, total e completa, e questionamos porque é que o Universo nos achou aptos para tamanha provação.
Não importa porque não tem resposta. Tem apenas presente e passado, um aglomerado de recordações perdidas num tempo sem razão e numa razão sem Tempo, porque NADA faz sentido, nem propósito, nem lógica. É a vivência do absurdo numa pergunta sem resposta, porque nada existe para além do AMOR!
Nada, e Tudo. Aquilo que eu sou, você foi, é, e continuará a ser. O meu propósito, o meu Significado, o meu Ontem, o meu hoje e o meu amanhã. Um Universo pleno, recheado de tudo, de onde sobram apenas as cinzas cinzentas, a poeira que se agarra aos pés, doridos, feridos, nesta Caminhada sem sentido, porque não há nem Norte, nem Sul. Há o poente, ocaso por acaso de uma Vida que uma vez existiu, há milénios.
Filho...
Filho meu, minha Vida, meu Amor, meu Menino, meu Anjo guarda-me, resguarda-me e embala-me num sono sem sonhos, neste pesadelo que é agora a minha realidade, e traz ao meu coração dilacerado apenas...
...(alguma) PAZ!
Amo-te meu Amor, meu adorado Filho!
Mil beijos da sua Mami!
Querida Ana, palavras tão (duramente) sentidas, mergulho num antagonismo de sensações, pois, se por um lado é bom ler-te, impossível ficar indiferente a essa dor, essa angústia, e ao mesmo tempo encontrar alguma paz num espírito que ficará sempre inquieto. Espero que o tempo ajude de certa forma a dissipar esse sentimento, e a trazer alguma tranquilidade para que avances olhando para os teus no céu e na terra. Beijinhos, Bernardo Ferreira Mendes
ResponderEliminarObrigada querido Bernardo! Beijinho no teu coração de pai!
EliminarBeijinho querida Ana , amorosas palavras....
ResponderEliminarMuito obrigada e um grande beijinho!
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