Meu adorado Filho,
Tenho andado longe das nossas cartas, mas sempre, sempre ao seu lado, e consigo omnipresente: no meu espírito, no meu coração e na minha Alma. Mas infelizmente, a Oma partiu uma vértebra, e tenho-lhe dedicado todo o tempo livre, todo o amor (que me sobra deste desgosto), toda a minha atenção e todo o meu carinho.
Chego à conclusão que devo ter sido uma megera noutra vida, um ser muito mau, muito injusto e muito violento, para estar a expiar tanto pecado nesta existência. Mas pronto. É o que é, e é dose sobrecarregada de preocupação.
Disseram-me que daqui a cinco dias é Natal. A sério? Não o sinto.
- "Não é possível Mãe! A Mãe, que sempre vibrou com as tradições do Natal? Enlouqueceu!"
Pois não é meu Amor. No outro dia encontrei o cartão que lhe escrevi no dia vinte e quatro de Dezembro de dois mil e vinte, em que lhe ofereci a agulha com que a sua trisavó Zeza cozia o papo do perú, depois de o ter recheado com as castanhas, e injectado a aguardente nas coxas durante dois dias! Lembro-me de si a tirá-lo do forno, várias vezes, sob as ordens, em stress traduzido - como sempre - nos berros da Oma, que, uma vez mais conforme a tradição, dizia que ia ficar um perú seco e péssimo, e que foi o melhor que comi em todos os anos da minha Vida, nessa altura ainda com maiúscula. Foi um Natal debaixo de Covid, com testes e mais testes, e cuidados redobrados, mas que foi tão, mas tão feliz. Foi um Natal com a Carmo, e com o Miguel, e com tanto, tanto Amor! Fomos os dois à Missa do Galo e trocámos os presentes depois, como quando você e o Mano eram pequeninos. Foi um dos momentos felizes, mesmo genuinamente, verdadeiramente e plenamente felizes que vivemos, com as Rabanadas do pai da Carmo, e com tanta, mas tanta iguaria, temperada com Alegria!
Daqui a cinco dias, repete-se o mesmo dia, mas em que circunstâncias, meu Deus! Observo, do lado de cá do vidro, a mesma Alegria nos Outros, que se espelha nas mensagens, nas publicações, nas compras desenfreadas, no caos natalício do consumismo, nos jantares de confraternização. É duro equilibrar isso com a preocupação com a saúde da Oma, teimosa que nem um burro, e, sobretudo, com o desgosto da sua ausência.
Este ano vou à Missa sozinha. A Dona Fernanda ligou-me hoje a confirmar que será às onze da noite, e que este ano,
- "Como não há Covid, já poderemos beijar o Menino no fim da Missa, veja a Felicidade!"
e ao telefone, consigo vislumbrar o sorriso triunfante dela, num rosto magro e enrugado, marcado pelos vincos das memórias, emoldurado por cabelos brancos, já tão ralos, mas sempre imaculados, e num sorriso rasgado, pleno, recheado de uma dentadura alva, que teima em descair um bocadinho, quando ela diz os "S" e os "J".
Lá estarei, de olhos rasos de lágrimas e de coração cheio de recordações. Mas não o terei fisicamente ao meu lado, lindo, cheiroso, vestido a rigor para o Natal, e sobretudo, irei morrer de saudades de sentir a sua mão quente em cima da minha, quando as leituras nos comoviam e pensávamos em tantas, mais tantas, e outras tantas palavras partilhadas enquanto sussurradas, aos gritos, no silêncio secreto da nossa cumplicidade! Nesses momentos muito, muito intensos, a minha mão procurava a sua, e a sua a minha, e agarrávamos os dedos um do outro com muita força, oferecendo o alento do amor e o calor do carinho.
Ahhhhhhhhhhh, Tim, caramba! CARAMBA! A saudade de si, a sua saudade, a minha, a saudade de nós é pungente, escara que me corrói a carne e dilacera o coração. Mas...e não sei se é da preocupação por me sentir uma Miss Nightingale versão pós sobrevivência e recear não estar à altura, ou simplesmente se da sua Luz que me inunda a cada instante: é também uma dor que se vai apaziguando, não na intensidade da sua tristeza, mas na aceitação da brutalidade da injustiça que me foi infligida, a mim, que tenho de o chorar a todos os nanossegundos do dia, ou a si, VIDA ceifada tão prematuramente.
O Céu precisa de Anjos, eu sei. Já sacrifiquei o meu, espero que por um Mundo melhor.
Um Mundo de...
...Natal...
que deveria ser não só todos os dias, mas sobretudo, PLENO de AMOR, como o meu, por si!
Amo-te meu Amor, minha Luz, minha Vida, meu Filho!
Mami

Minha querida como me dói a sua dor e da mãe. Não comparável e tia sabe mas também sincera e profunda. Nada a dizer. As palavras não fazem sentido querida Ana. Apelas um beijo a si, querida menina / mulher, à mãe e Duda de muito carinho e de coração . Ao Tim , olhando o céu e acreditando que sendo é agora um menino anjo o meu recado para que não deixe de ir à missa consigo e aperte bem forte a sua mão. Beijinhos da tia
ResponderEliminarTia do meu coração!
EliminarLindo
ResponderEliminarObrigada!
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