segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

27.2.2023 - One Day minus 208 - "Diana, Princesa das Mouriscas"

 





Meu Amor adorado,

Há alguns dias que não lhe escrevia, mas tem uma razão de ser: decidi dar vida a alguma coisa. 

Vida, "soit disant", porque vida é uma palavra que hoje em dia tem um significado totalmente diferente no meu léxico. A costura, como lhe disse, traz-me alguma paz, porque é meditativa, e consequentemente acaba por se tornar numa espécie de terapia. Num dia especialmente difícil da semana passada, em que a saudade pungente me envolveu de novo no caldeirão das emoções, no meio das lágrimas da Saudade, tive uma epifania, uma visão, que decidi concretizar: criei a nossa "Diana". 

Sua e minha, porque ambos sabemos que seria o nome de uma filha sua, neta minha, a que não terei, e no entanto, cada Diana que sai das minhas mãos com a ajuda da máquina de costura, e com todo o meu Amor, é uma espécie de momento de paz que me invade. A Diana, Princesa das Mouriscas, é uma menina divertida, curiosa e alegre, ou não fosse ela quem é. Adora visitar a Oma Ana, que vive no campo, e dar laranjas às ovelhas e às cabras. Enquanto costuro e escolho o padrão dos vestidos e a cor dos sapatinhos, sonho. Sonho e imagino o que seria se fosse realidade. Conto-lhe histórias de encantar, e tenho inúmeras conversas com ela. Sou transposta para o Mundo da fantasia, da alegria e do amor, ainda que momentaneamente e apenas por alguns minutos. Mas ajuda! 

Passei os últimos dias a costurar, com carinho redobrado nos pormenores, e o resultado está à vista: tive algumas encomendas. Não me admira, a Diana é feita de AMOR! O Mano disse-me logo para abrir um negócio, e dei uma gargalhada. Eu? Eu que não me consigo lembrar do que me disseram há duas horas, abrir um negócio??? Surreal! Mas o que é facto, é que de apenas de boca a orelha, já tenho várias Dianas para criar. São horas à máquina, horas a imaginar uma criança de vestido às florzinhas a correr aqui pela Quinta, e a vir ter comigo, a sua mãozinha na minha, para lhe mostrar as maravilhas da natureza, contar histórias de fadas e duendes e fazer precisamente o contrário do que se faz hoje: fugir dos telemóveis, tablets, televisões e afins, e descobrir que cada pássaro tem um chilrear diferente, que cada planta nasce a uma certa altura do ano, que as ovelhas dão pelo nome e nos vêm comer laranjas à mão, porque reconhecem a nossa voz. 

E trazer a Diana à Vida ou à vida - talvez eu prefira, neste caso, a maiúscula - é celebrar o Amor que nos une, que transcende o tempo e o espaço, e que continua para além da morte. 

Hoje fui à Doutora Ana Carolina, e por isso, foi um dia bom. A Doutora Ana Carolina é novíssima, ou pelo menos parece, porque só lhe vejo os olhos, o resto está escondido atrás da máscara, mas é sábia. A a sua expressão transmite empatia, carinho e compaixão. Ela ouve-me, tem tempo para aturar os deltas das minhas conversas, quando se perdem na miríade de pensamentos que me invadem, e não me julga. Sobretudo não me diz o que tenho ou não que fazer. O que por si só é fantástico. Perguntou-me hoje de que cor era o meu Luto. Que poderia responder? Ele é preto breu, riscado no cinza plúmbeo que marca o desenrolar dos meus dias, que só ganham cor enquanto faço nascer Dianas de vestidinhos floridos e lacinhos cor-de-rosa.

Mas continuo a ter momentos de Paz, e isso não tem preço. Conquanto as noites sejam sempre muito mais duras, os dias, que à medida que se sucedem vão crescendo, estão mais salpicados de momentos de calmaria. Aquela sensação que hoje em dia parece um milagre, pelo bem-estar que me invade: instantes de descanso na luta incessante contra o cinza da tristeza. E cada instante de descanso, ajuda-me a ter a força necessária para enfrentar o vulcão da saudade, quando este ameaça irromper.

Também já temos a cerca da horta pronta. Vai ficar um espaço enorme, e vai ser este ano que posso ter vários carreiros de cebola roxa. Agora ando a negociar com o Miguel o que vamos plantar. Ele sempre com a mania das beringelas e das curgetes, e eu a defender os alhos franceses e os pepinos. Se não fosse o campo, não sei o que seria de mim...mas a vida aqui tem outra simplicidade, que acaba por acalmar o desassossego da Alma.

Meu adorado Filho, tanta falta que me faz! O que daria eu para discutir tudo isto consigo, ouvir a sua opinião, e um dia, sentir a mãozinha da Diana na minha...

...até lá, ponho AMOR nas Dianas que, espero, façam as delícias das pessoas para quem as criei!

Mil beijos meu Amor, da sua Mãe que o adora,

Mami


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