domingo, 9 de abril de 2023

9.4.2023 - One Day minus 252 - Domingo de Páscoa - Gratidão

 



Meu adorado Filho,

Não lhe venho escrever com grande propósito, no sentido que não tenho nada de transcendental para lhe contar, que não lhe tenha já sussurra neste Domingo Pascal, em que aqui na Quinta, escondi ovos para o Mano e os amigos, como se tivessem doze anos. E que bom que foi vê-los à procura deles com a sofreguidão curiosa da inocência de crianças - que felizmente - ainda não perderam! O Mano e eu falámos de si, e foi bom. Quem é recordado, nunca morre! E você é recordado em todos os cantos e recantos, em memórias e vivências, por muitas, muitas pessoas. É Domingo de Páscoa, e lembro-me de um célebre Domingo Pascal, em plena Quarentena, em que fomos a casa do Tio Nando. Estava um dia como o de hoje, com um céu de um azul de cortar a respiração. Nesse dia, entre o cabrito do Tio Nando, o meu Cozido à Portuguesa, e a voz reprovadora do Pai, que, com toda a razão, dizia ao telefone que nós dois éramos doidos - mais eu, porque era sua Mãe e permitia tanta inconsciência - naquele terraço com vista para o Tejo, falámos de relógios, de política, de amizade e da morte. Aflorámos a morte, porque depressa percebi que não era um tema. Aqui falamos da sua morte com naturalidade. Com uma saudade infinita, imensa e sem fim, mas falamos. Custa muito a acreditar, por vezes, ainda dou por mim a achar que está a viajar e que depressa voltará para os meus braços sequiosos de Mãe, para depois, com desgosto sem fim, pensar que essa viagem foi a última. Cai a noite em frente da janela do meu atelier e sinto-o. Sei que cá está comigo. Ontem, quando finalmente, e por apenas alguns minutos me deitei no "hammock", uma águia lá em cima no céu, tão longe que era quase um pontinho minúsculo, pairou sobre mim. E foi a olhar esse Céu na sua imensidão de azul, que mergulhei na gratidão de ser Mãe de dois seres especiais. Um, felizmente que posso abraçar, estreitar contra o meu peito e dar inúmeras bênçãos na testa, o outro, o outro afago com o sal das minhas lágrimas, e a gratidão do meu ser por ter sido a sua Mãe, e ter tido o privilégio de o trazer ao Mundo, e de o acompanhar durante (breves) vinte e seis anos. Meu Filho...a Páscoa trouxe-me um caroco, que o Mano baptizou de "Amarelinho", e vários patinhos, minúsculos, ainda não sabemos quantos, porque a Pata não nos deixa chegar muito ao pé.

A Páscoa trouxe-me, uma vez mais, a trágica, e conquanto, tão abençoada realidade de Maria: de perder um Filho pela Humanidade. Não sou santa, nem você é Jesus, mas ofereço o meu sacrifício por um Mundo melhor. Onde haja alguma Paz, e sobretudo, onde cada pessoa encontre a valorização dos nossos. Porque a Vida é tão efémera, tão curta, tão curta, que se as pessoas soubessem o que é a verdadeira SAUDADE, aproveitavam cada segundo como se fosse o último, na sofreguidão de vida de quem, na Quarentena, partilha cabrito e cozido e fala de relógios.

Meu Martim, minha Vida, meu Amor...

GRATIDÃO! Por si e pelo Mano, pela bênção constante de ser...

...Mãe!

Mil beijos meu Amor,

da Mami


P.S. Ficou um ovo escondido, que resvalou para fundo do tronco de uma das Oliveiras, e eles não quiseram por a mão com medo das abelhas. É só um, mas acho que você vai adorar andar à procura. Boa caça de ovos meu querido Filho!

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