Meu adorado Filho,
Escrevo-lhe esta carta, há muito devida, mas tudo na vida tem um propósito. Um presente do indicativo, uma promessa de dádiva do amanhã, mas sobretudo um despojo de ontem, um ontem de uma outra vida, uma vida de há milénios!
Filho, com a Lua em Balança, lá nos mudámos, no domingo, vinte e três de Outubro, de um ano que encerra em si a intemporalidade do tempo. Foi uma aventura, uma harmonia no caos. A primeira coisa que instalei cá em casa foi o seu altar, mas a sala não fluía, e o seu altar também não, e eu comecei a ficar apreensiva. Mas antes de lhe contar isso, queria agradecer-lhe. No domingo o Miguel começou a cismar que queria ir buscar a Piri-Piri, e eu estava com pena do Zapa, porque ficaria sozinho no canil do Falcão. A meio da tarde sugeri ao Miguel que tentássemos meter o Zapa no carro, e como é habitual, lá começaram as (in)certezas que o raio do cão jamais iria entrar no carro. Já estava o veterinário de prevenção para segunda-feira, mas totalmente descontraídos, lá decidimos tentar. Enquanto o Miguel foi tentar trazer o Zapa, eu pedi-lhe que desse uma mãozinha de Anjo aí do Céu. E não é que aquela bisarma, nem dois minutos depois, estava dentro da carrinha?!!! Filho querido, agradecemos-lhe ambos do coração! O Miguel exultava. Jantámos em frente à lareira, não antes da Piri se escapulir, e de ficarmos tristíssimos, para aparecer, de rabo a abanar, dez minutos depois! Reina a harmonia aqui, os patos misturados com os cães, que vão, para sempre voltarem, nuns latidos saudosos e famintos!
Pouco depois tocou o telefone: era a Tia Isabel que cá veio jantar e estreou o quarto verde. E sabendo o quão ligados vocês estavam, a eu pedi à Tia Isabel para me soltar a energia da sala. Então hoje, depois de um trilho de três quilómetros até à Ribeira e de vários mergulhos na água gelada que espelhava o dourado outonal, a Tia, de taça de arroz integral, banana e abacate, polvilhados a pimenta de Caiena na mão, enquanto na outra, movimenta os pauzinhos como uma Maestrina, apontou e disse: vamos tirar os sofás, e a partir daí, começamos a construir.
E então Tim, a magia aconteceu! Entrou uma lufada de ar fresco, soltaram-se as amarras contidas, grilhões de uma primeira Vida, deixou-se tudo para trás, e na simetria harmónica (ou será assimetria da harmonia?), a Tia Isabel fez magia, e os móveis bailaram, num rodopio frenético e incessante, até se espojarem, exauridos, num lugar a eles sempre destinado. Rodou tudo na sala, excepto o seu Altar, que a Tia considerou no local perfeito. Ancorado, repousante e tranquilo, imóvel e sereno, a peça chave desta sala, a peça chave de uma casa, a peça chave de uma Vida.
A Casa fluiu: o seu Altar eram infinitas gotas de água transformadas, lágrimas de Mãe que regam nova terras, e a Tia partiu. E eu sentei-me na sala, em frente ao seu Altar, nesta sala maravilhosamente paradoxal e LEVE e sorri!
Você está AQUI mais do que alguma vez esteve noutra casa, e isso surpreende-me. Mas está. Está finalmente:
@ HOME!

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