Meu adorado Filho, meu Filho tão querido,
Que falta que me faz! Parece uma eternidade, e, contudo, foi há tão pouco tempo, que me recordo de cada segundo desse malfadado dia. Lembro-me de mim a desejá-lo, e uns meses mais tarde, grávida de si. Lembro-me da emoção de ver a barriga a crescer, e da comoção de o sentir pela primeira vez. Da visualização perfeita de si, bênção dos Céus, bebé amoroso, criança adorável, rapaz único, e Homem com H, lindo de cair para a banda, não só por fora, mas sobretudo por dentro.
Tim...você iria AMAR este ar meio "Mamma Mia Hostel", meio nossa Casa, num paradoxo fantástico, que transforma uma Quinta num santuário (embora algo alternativo!), giro em todos os cantos, mesmo naqueles onde a decoração não gera sempre consenso, mas conduz a saudáveis compromissos. E é nessas cedências, que interiorizo que existem pessoas que são obrigadas? a levar duas vidas numa só existência. E só quem passa por isto consegue entender, na primeira pessoa, o que esta anormalidade significa. Somos nós uma boa meia Vida e depois, depois, bom, depois, morremos: em cada poro, em cada átomo, em cada inspiração, para percebermos, demasiadamente rápido, numa verdadeira EXpiação, que nascemos outro ser. Uma sombra do que fomos, embora reconheçamos os resquícios de algumas memórias empoeiradas e perdidas na Eternidade imensa do abismo, de quem perdeu um Filho, sente. Se eu penso, que há quatro meses trabalhava, com imenso stress e responsabilidade, que a minha Vida era "normal" e agora sou uma camponesa, que restaura móveis, e que se esquece de tudo se não apontar, fico doida, porque não sou a mesma pessoa. Não é possível numa só vida, encerrar duas vidas, mas o que é facto é que é isso que sinto. Não sei como irei algum dia "retomar" parte da minha outra Vida, aquela que acabou no dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois, a que me foi roubada, assaltada, arrombada, injustamente e antecipadamente retirada, numa impiedade que não mereci!
Ahhhh Tim, o Mano chegou hoje, na baratinha preta, da qual eu senti tanto a falta. Claro que ganhou, em três penadas, um jogo de Catan, enquanto me dizia que sentia o mesmo. Que parece que foi ontem, e ao mesmo tempo, há trezentos anos! Como é isto possível? Estaremos todos doidos?
Começo a achar que sim!
Já lhe disse que temos sapos grandes, à noite, à porta da cozinha?
Filho, você iria amar deixar aqui os seus filhos, e eu iria amar ter aqui os meus netos, ensiná-los a crescer sem medo das aranhas, dos grilos, das corujas, a admirar cada nascer do sol, e cada ocaso, a saborear o leite delicioso da Branquinha. Você iria re(encontrar-se) neste Paraíso, e talvez seja por isso, que o sinto tão presente, tão vivo em mim, e, simultaneamente, uma doce recordação, tão longínqua, quanto eterna, pelo menos, enquanto eu respirar?
Filho, tanta falta que me faz!
Mil beijos da sua,
Mami!

Sem comentários:
Enviar um comentário