quinta-feira, 6 de outubro de 2022

6.10.2022 - One Day minus 65 (Surreal: Caminhos, "Liquid Spirit" e o Opa está cá!)


 

Meu querido Tim,

Há quatro dias que não lhe escrevo, e se você não me roubar mais este texto, isto hoje promete. Mais uma vez faço minhas as palavras da Inês: 

- "Faz o que te apetecer, és tu quem importa agora!"

Nem sei por onde começar. O cansaço invade-me o corpo, mas é um cansaço consolador. Hoje trabalhei tanto, que o meu espírito descansou, numas tréguas temporárias que fiz com o Universo. Prometi-lhe que se tivesse a Quinta pronta para o dia 12 de Novembro, "Ele" me dava a Paz necessária, para que eu pudesse cumprir o meu propósito. Acho que hoje foi o primeiro dia. Acabámos a cozinha e a sala. Limpei o tecto: trinta e cinco metros quadrados de aranhas, aranhiços e outros seres de várias patas, que caíram sobre o lenço que tinha na cabeça, numa despedida final, percebendo que a partir de agora a Casa vai estar habitada, e que a Rainha sou eu, de vassoura, mira telescópica e insecticida nas mãos, pronta para o ataque! Depois dei uso à escova, esfreguei o chão, e a tijoleira ficou a brilhar. Por último, enquanto a Isabel se fazia aos quilos de pó no sótão, e a Célia declarava guerra aberta às gorduras acumuladas nas juntas dos azulejos da cozinha, depois de encontrarmos uma ratazana de quarenta centímetros morta no sótão, acabámos uma parte significante. 

Tim...

Descobri que os Tios, ou pelo menos a Tia Paula, está a fazer os Caminhos de Santiago e que o Diego ganhou um prémio importante em Barcelona enquanto Liquid Spirit;  que é possível a Vida (ou a vida?) continuar(em), mesmo depois "disto". Descobri ainda que nada é nosso, que somos apenas convidados (in)desejados no palco das vivências, ou no das memórias, nas quais todos tropeçamos, enquanto caçamos a felicidade passada em presentes memórias fugazes, de tão repletas de Felicidade foram. Que um dia pode ter vinte e quatro horas, mas também encerra no seu ocaso, vinte e seis anos, quase vinte e sete!

Descobri, acima de tudo, e uma vez mais, que há dois Mundos paralelos, aquele onde só nós dois vivemos, e o outro, onde agora habito, em passos leves e efémeros, quase nunca tocando o chão, num voo inaugural de sofrimento, de tristeza e de saudade, de uma complexidade emocional que me atordoa e me corta a respiração!

O Opa chegou, ao fim de três anos! Está tão perto em quilómetros, e, conquanto, tão longe nas barreiras que teimam erguer entre nós! Quão hipórita, malvado e perverso o Universo, e algumas pessoas podem ser?

Sinto-te em Paz Tim Galinha: longe, repousando nas Estrelas, mas perto, enquanto colado ao coração. O Tempo tem uma nova dimensão e, aos poucos, ou talvez vertiginosamente, entro nela. Passaram dois meses Tim, e a mim, por vezes, parece-me uma Eternidade enquanto noutras, apenas um segundo!

Em que ficamos Filho?

Estou "numa" varanda em Barça. Está uma noite estrelada, quente, acolhedora. Ouço a sua voz ao fundo:

- "Épico, não é Mãe?"

E eu...enfim...

Eu não sei o que responder, porque só me apetece gritar a minha saudade, enquanto me lembro dos aperitivos em sua casa, dos jantares, do tempo em que a Vida era plena (de Mercadona), de Alegria, de Petiscos, de Tapas, de "savoir vivre" na Bocqueria, tão cheia de Grac(i)a, tão maravilhosa, consigo nela, nessa Via Lactana, onde tudo acontecia a todas as horas do dia!

Tim...foi há dois meses ou há duzentos anos? Foi hoje? Ontem? Ou será o Amanhã apenas o reviver de uma agonia sem fim?

Não! É todos os dias, todos os dias em que me arrancam a Alma, num torniquete de tortura inigualável, que me relembram que sou "De(s)filhada, desprovida de metade de mim, coxa, inadaptada a uma nova existência, futuro roubado, santuário de maternidade profanado, num cordeiro imolado pelo Amor por um Mundo melhor!

Tim...

"It's buried in my soul..."

Amo-te Filho Lindo!

Mil beijos,

da sua Mami,

Ana





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