Meu querido Filho,
Passados dois meses e uns dias após a sua partida, os "Outros" que ficam são poucos, o que não me admira! Com a guerra da Ucrânia, o aumento galopante da inflação, o regresso às aulas e todas as outras preocupações que afligem o Mundo, é normal o Mundo esquecer-se de si.
Para mim você está cada vez mais presente, ao mesmo tempo que a saudade aumenta. O nosso Mundo cresce, aquele onde me refugio a passos largos, aquele lugar paralelo onde sou feliz por estar consigo, aquele que é o meu santuário. Nunca pensei que me pudesse tornar numa espécie de ser bipolar, mas é isso que sou. Tenho uma sobrevivência, que funciona plenamente aos olhos da sociedade: para os "Outros", ou para alguns deles, é como se não tivesse perdido um Filho. Para mim, é uma constante, mas aprendi a "saltar", tal qual David Copperfield, entre os dois. Vivo no nosso, venho a este de vez em quando, ou melhor: a minha parte cerebral está "neste", a minha Alma vive no Céu, nesse lugar "perfeito" que existe, soit disant, no "imaginário".
Acredito que para os "Outros" seja o mais confortável: é como se não o tivesse dado à Luz, literalmente falando, no dia vinte e quatro de Novembro de mil novecentos e noventa e cinco e no dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois. Mas nesse hiato de Felicidade, nesses vinte e seis anos e alguns meses de Alegria pura, você existiu e foi Humano, foi e É meu Filho, o meu Tim e, pedindo desculpa aos "Outros", pelo incómodo que lhes causo, quando, sem querer, deixo transparecer a minha dor, a minha solidão e o meu desgosto, não posso deixar de reiterar isso. O Martim existiu, viveu e morreu, sem qualquer culpa, muito, muito, demasiadamente antes do seu tempo, num Tempo que me e que nos foi roubado, mas que deveria ser nosso, e sobretudo dele. Futuro aniquilado, mas Eternidade oferecida, porque o Paraíso existe, e leva para lá apenas os melhores.
Tim...no auge da minha (in)sanidade, só me apetece rir às gargalhadas acerca do quão ridícula é esta vivência, filha desta existência sem perguntas nem respostas, com as suas preocupações mesquinhas e as suas dúvidas ridículas! E neste riso, sou transportada para a nossa ombreira. É nela que tenho uma epifania: eu sou Ponte, Travessia, Caminho, sou Ligação entre as Margens. Eu estou em ambas.
Mas, confesso, cá para nós, tenho um pé mais "desse" Lado! ;-)
Mil beijos...
... (cansados, mas a obra está a andar... (há que manter o outro pé deste!)
da sua Mami!
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