terça-feira, 28 de março de 2023

27.3.2023 - One Day minus 238 mais um pelo Opa Freddy - Da morte e da saudade

 



Meu adorado Filho,

Você ouviu-me e por isso lhe agradeço. 

O Avô morreu ontem por volta das dez da noite, mas eu só soube hoje eram duas da tarde. O timing não importa, são os pecados dos humanos que por cá deambulam, e não merecem nem sequer um pensamento! Sei que estão juntos, e isso é que importa. Sei que tem saudades aqui dos Humanos, e com o avô, finalmente chamado por si, estou certa  de que o Céu agora está em festa. Já pediram um Planalto fresquinho? Meu Filho, conquanto seja mais uma enorme dor que me assola, sei que agora sim, não está só. Estão bem entregues um ao outro. Mandem essa energia cá para baixo, porque é precisa!

Agora tem o Opa ao seu lado e juntos vão revolucionar o Mundo do Turismo, com os vossos sonhos e quimeras, com a vossa vontade e o vosso Amor, aí no Céu! Acendam-se os charutos, viva-se! 

A mim...a mim só me resta a consolação de que tudo tem um propósito e de que nós aqui continuamos. Eu aqui continuo, não sei bem como, mas cá estou. 

Tim...hoje não me vou alongar. Sei que tem que fazer. E saber que estão juntos atenua-me mais este sofrimento! 

Mil beijos, e saúde aí para cima!

Mami

sábado, 25 de março de 2023

25.3.2023 - One Day minus 236 - Das estações do ano - ou de "Hideout" de Parcels

 




Meu adorado Filho,

Já sabe do que lhe venho falar. Mais uma tarefa para si, mas esta, eu sei que vai adorar. Receba o Opa Freddy de braços abertos, e chame-o rapidamente. Sei que anseiam por se sentarem a uma mesa aí no Céu, e beberricando um copo de Planalto fresquinho, consigo a advogar com o avô para provar o Moscatel de Uva Roxa do tio Domingos, e o avô a dizer que nada substitui um tinto Alentejano, enquanto bebe Planalto aos tragos gulosos, discutem o que por aqui se passa.

Aqui passa-se muito. A Primavera chegou e trouxe-me mais paz. A minha cabeça continua una desgraça no que diz respeito à memória, cada dia estou pior, mas a médica diz para não pensar nisso, mas preocupa-me. É como se parte do meu cérebro estivesse amputado; contudo, as Dianas dão-me vida. A sua querida Filha, e minha adorada neta, distribui Amor por várias pessoas. Se cada pessoa soubesse o que significa para mim fazer uma Diana, acho que faria Dianas para o resto da vida. 

Mas ontem a notícia do avô estar tão perto de si abalou-me ainda mais e veio ameaçar esta frágil e quebradiça superfície de tranquilidade! Foi um dia terrível. Deus lhe facilite a Caminhada, e que juntos em breve celebrem a Eternidade e me ajudem a secar as minhas lágrimas!

Combato a tristeza que teima em me invadir, com luta furiosa aos urtigões cá da Quinta. Embora a enxada seja feita para as mãos do Miguel, e o cabo do sacho seja mais alto do que eu, são excelentes utensílios para a mágoa, até porque as lágrimas saem em forma de suor. E ainda não lhe disse, a Cerejeira que plantámos, está a dar flor. Mas então declarei luta aos urtigões e vou limpar ainda o canteiro em frente ao tanque. Não sei o que seria de mim sem o campo, sem esta tranquilidade, com as luzes da cidade que abafam as estrelas, sem a minha Coruja, aka, Tim, que vem falar comigo sentada (ou sentado?) nos ramos dos medronheiros do jardim. A Coruja fala comigo nesta hora tardia, ouço-a daqui da janela do Atelier. Já sei o que me vem dizer, mas é tão bom ouvir as suas palavras através dela...a Foxie ressona ao meu lado aqui no atelier, está tão velhinha, mas ainda morde o cabo do aspirador em protesto canino contra os decibéis do mesmo!

Meu Filho, estou amputada, mas caminho. Caminho com Fé, caminho com Esperança no Universo, tento afastar os medos e as minhas lágrimas. Caminho consigo, sempre a falar comigo atrás do meu ombro direito. Será por sermos canhotos? Não sei.

Mas sinto-O. Caminho com esta nova tristeza pelo seu avô. Mas (CON/M)SIGO! 

Filho, adoro-te!

Mil beijos da Mami


domingo, 19 de março de 2023

19.3.2023 - One Day minus 228 - AMOR, GRATIDÃO (imensa) e um SORRISO (que vem das entranhas)!

 



Meu adorado Martim,


Cheguei ontem de Lisboa, onde levei a Diana a um périplo pela capital. Escusado será dizer, que fez um sucesso tremendo, ou não fosse ela sua filha, linda de cair para o lado. Mas eu sou avó - logo - suspeita! Posso-lhe dizer que a coisa que ela mais gosto foi de (rever) o Tio Duda, que ia para o concerto do Roger Waters e estava num "xitex", mas que no dia seguinte nos compensou com tecnologia de última geração, onde nos rimos que nem perdidas! Seguiu-se, não por ordem cronológica do tempo, mas das emoções, um  jantar com alguns dos Épicos, que ela adorou conhecer, e acho que eles também gostaram de uma menina que não faz birras, e que é alegre por natureza, como o seu pai. Os Épicos são isso mesmo, são épicos, porque encerram neles uma fonte inesgotável de amor e de energia, uma fonte que me alimenta de sorrisos e de gargalhadas, que duram meses a fio! Tão, mas tão, tão grata a esses "Miúdos" fantasticos, a esses jovens adultos que me inundam de carinho.

Fomos também ao cemitério, deixar o Anjo da Guarda em agradecimento pela sua Presença constante (nesta minha nova vida), e mostrei-lhe como a morada das suas cinzas ficou bonita. Visitámos ainda  a Tia Ana, não sem antes gastarmos uma FORTUNA em tecidos para novos vestidos da Dianinha - que vaidosa como é, tem a quem sair - não descansou enquanto não me fez gastar uma fortuna;  e fizemos mais mil coisas juntas! Ela é uma companheira digna do seu pai: cúmplice, animada, irreverente e sempre bem disposta, num constante "on the move", que põe a Oma de cabelos em pé porque já não aguenta tanto rebuliço. Foi bom estar em casa da Tia Ana, rever a Princesa, sua prima sempre tão querida, que parece uma bonequinha de porcelana, e sobretudo, sentir seu Amor! Abracei a Tia Ana como ela merece, e apetecia-me ficar ali uma eternidade, naquela casa, que pouco mudou após tantos anos, que continua de porta aberta para quem busca um abraço genuíno da Amizade que continua como sempre foi. Também fomos aos médicos - a Dr. Paula nem sequer me quer ouvir falar de voltar tão depressa a trabalhar - não sem antes jantarmos em casa da Tia Inês, onde a Tia Guida, o Tomás, a Madalena e a Natércia ficaram doidos com a sua Filha. O Tio Jorge e a Tia Teresa mimaram-nos com um fondue de reis, e com uma moldura de fotografias minhas em pequenina. Que parecidos que nós somos meu Amor!

Não deu para muito mais, mas foi IMENSO! Sobretudo tratar da Baratinha VW, sentir segurança na estrada e visitar a morada das suas cinzas, trouxe-me uma sensação de completude, de tarefas cumpridas. 

Filho...é com GRATIDÃO imensa que lhe digo que sinto em mim a vida a querer vingar, ainda muito vagarosamente, mas numas tréguas, finalmente perpétuas, e sobretudo sinceras, com a tristeza sempre presente, e sobretudo numa luta incessante que me matou nos últimos sete meses - e lá vem ele, este nosso número mágico -  mas que nesta minha morte de deu a bênção de querer renascer. 

E nesta morte, nasceu Vida. Ou será que foi desta morte que nasceu Vida? Não sei meu amor, meu Filho tão amado, mas sei que a aceitação faz parte deste caminho. E foi na aceitação a sua tão injusta morte, que a DIANA me trouxe AMOR! E com o Amor, me inundou de VIDA!

Ontem voltei ao Campo, e achei que estava com Tinnitus pulsátil. Isto para um citadino é incompreensível. Mas quando se sai da cidade para regressar ao campo e se é envolto pelo absoluto silêncio, o mesmo causa um ruído incessante no ouvido, que só desaparece quando passamos umas horas aqui, no silêncio.

A abundância do campo encheu-me uma cesta de Jarros, que já pus ao lado da sua fotografia, outra de laranjas e de tangerinas, isto para não falar nos ovos que numa semana, se acumulam na cozinha e que pedem uma tortilha muito em breve. 

Tim...orgulho, gratidão - porque somos abençoados - e sobretudo, vida. Que nasce, como na Primavera. Agora o atelier está uma linha de montagem, e quando levanto os olhos, vejo a sua fotografia com o Mano, e a "SUA" fotografia, que mandei fazer em tamanho A4. 

Filho...essa sua maravilhosa fotografia, única na sua expressão, na intensidade da sua emoção, no simbolismo da sua gratidão, nas elevação das suas mãos, no olhar de felicidade para o céu,sou eu hoje. E hoje, pela primeira vez desde dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois e consigo olhar para essa fotografia e sentir-ME. O que significa que estou viva. E é bom constatar isso ao fim de sete meses. Talvez nessa fotografia você soubesse, já nesse momento, que o seu lugar seria no Céu. Talvez. Eu, hoje, olho para esse Céu que o guarda e elevo as minhas mãos e só sei sentir AMOR e GRATIDÃO!

Meu Amor, hoje e sempre, para todo o sempre, todos os dias, mas sobretudo, amanhã, eu ESTOU. E estou a SORRIR. E sei agora que não é um momento, umas tréguas. Sei que o meu sorriso será sempre, sempre, regado com o sal das lágrimas da saudade, mas sei, sobretudo, que é um sorriso que vem de dentro, da minhas Alma, do meu Ser. Um sorriso que demorou, mas que "está". 

Filho meu...GRATIDÃO pela sua Filha. Pela minha Diana, a minha neta de trapos que me está a chamar à vida, que só quer espalhar o Amor que me vai no coração!

Martim...Diana...Mami...

TRIO imbatível, porque só uma coisa vence a morte...

o AMOR!

Mil beijos sorridentes da sua Mãe que o adora,

Mami

sexta-feira, 10 de março de 2023

10.3.2023 - One Day minus 219 - AMOR! É esse o Mistério


 


Meu Filho tão querido,

E Deus disse ao seu Anjo mais irrequieto: 

- "Vais para a Terra. Eles precisam de ti. Vais espalhar o Amor. Muito Amor. Todo o Amor que tens para dar. E quando os tiveres inundado de Amor, regressas. E vais sem rosto, pois assumirás o rosto do Amor que conseguires espalhar!"

E você, meu Anjo, espelhou e espalhou esse Amor ao assumir-me como Mãe. Só não me disse, ou esqueceu-se de me dizer, na sua ânsia de viver, que era por tempo limitado. Que não era meu, que era apenas emprestado, dádiva do Universo, mas breve, tão breve, que me afoga de saudade.

E no entanto meu Filho, esse AMOR infinito, esse oceano de pureza, de suavidade e de carinho inunda-me, e é-me perceptível. Nuns dias mais do que noutros, mas sinto-o aqui ao meu lado, a espreitar-me atrás do ombro e ouço a sua voz, como se aqui estivesse! Como? Não, você está aqui. E eu não estou doida. Ou, pelo menos, acho que não estou doida. E eu sei, com todas as minhas fibras que você esteve hoje aqui comigo durante muitas horas. As minhas mãos apenas obedeceram a instruções divinas. E são quatro da manhã e há muitas Dianas para vestir, pentear e enviar para espalhar Amor, mas as minhas mãos só pararam agora porque eu estive a criar um Anjo.

Eu criei um Anjo do Amor. O Anjo da Guarda, o que me guarda, e este vai para o seu Altar. É seu meu Filho adorado, meu Menino. 

Com todo o meu Amor!

Da sua Mãe com infinita gratidão,

Mami

sexta-feira, 3 de março de 2023

2.3.2022 - One day minus 211...One Day minus too much to...(bonecas descalças...)

 




Meu Filho, meu Amor querido,

Quando acabar de escrever, por entre as lágrimas que me correm livremente e sem vergonha, rasgando mais uns sulcos no meu rosto cansado e envelhecido em mil anos, já terá passado dia 2! Esse maldito número, que me atormenta os dias e me desassossega as noites! Tanta, mas tanta, tanta SAUDADE, tanta perplexidade por esta atrocidade que me desfaz as entranhas! Mal abro os olhos, todos os dias, ofereço o meu sofrimento, e a minha tristeza,  num sacrifício perpétuo, por um Mundo melhor, por mais Amor entre as pessoas, e dou Graças por ser abençoada, porque sou sua Mãe. Mas há (muitos) dias em que essa oferenda não chega para me consolar a Alma...

Não se assuste meu Amor, eu não desisto. Por entre as cinzas do quotidiano da minha existência, há vestidinhos de flores e a Diana a correr pela Quinta fora, totós ao vento, aos gritos pela Branquinha e pela Preta, de esfregona em punho, a afastar os patos do tanque, porque quer dar um mergulho em paz.

E com a Diana, eu mergulho numa certa Paz, e atiro-me, sem medo e com toda a minha Fé, para o azul do tanque - ou será do Céu? -  numa promessa mentirosa de um futuro que não irá acontecer, porque nos foi roubado! Mas enquanto as Dianas estão descalças e (ainda) desmembradas, elas ganham vida no imaginário da minha mente, correndo, saltitando, por entre gritos contentes e sorrisos polvilhados de gargalhadas, trazendo Vida onde a morte quer ganhar terreno. Não vencerá. O Amor, essa magia alquímica e incrivelmente poderosa, irá vencer as trevas do nihil, seja lá por onde der, porque a Diana é a Menina de olhos expressivos e plena de fome de viver. Ela é NOSSA! E é nesse altar de oferendas, nesse sacrifício diário, nesse AMOR que irá vencer, que eu nos recordo, revejo e revivo, em cada átomo de memória, em cada ponto cruzado, encruzilhada de vidas despedaçadas, onde impera o dever de nos reinventarmos pelos outros. Pelos que amamos e que bebem da nossa fonte, que precisam que este caco oco se recolha, se reinvente, e (se) recrie e renasça, porque "Ele(s)" precisa(m) de nós!

Meu Filho, minha Luz...

"It's overnight"...

Meu Martim, minha Vida roubada, meu Menino, meu Filho tão querido, estou, estamos, estaremos cá. Em parceria e em sintonia desafinada com o Céu, lá vamos comunicando. E a propósito...num fado (des)afinado, talvez devido ao frio, "ela" voltou. A minha Coruja. Ontem falou, falou, falou e voltou a falar comigo. Contou-me muitas coisas, e já percebi que isso aí em cima é uma espécie de "Movida" especial. Não a de Barcelona, mas idêntica…

Hei-de voltar ao Myan, a Calle Valencia, e ao El Sur. Irei percorrer essas ruelas e a cada passada arrastada conquanto dançada, recordar. A cada esquina virada, a cada quarteirão revivido, em passo descompassado e ávido, a cada átomo de memória, com os pés em chaga, irei escolher os sapatinhos das minhas...

...Princesas descalças, da(s) minha(s)...

DIANA(s)!

Amo-te meu Amor...

Mami

P.S. O Bruno passa por cá amanhã! Tão, mas tão bom ter por cá um dos ÉPICOS-mor!!!!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

27.2.2023 - One Day minus 208 - "Diana, Princesa das Mouriscas"

 





Meu Amor adorado,

Há alguns dias que não lhe escrevia, mas tem uma razão de ser: decidi dar vida a alguma coisa. 

Vida, "soit disant", porque vida é uma palavra que hoje em dia tem um significado totalmente diferente no meu léxico. A costura, como lhe disse, traz-me alguma paz, porque é meditativa, e consequentemente acaba por se tornar numa espécie de terapia. Num dia especialmente difícil da semana passada, em que a saudade pungente me envolveu de novo no caldeirão das emoções, no meio das lágrimas da Saudade, tive uma epifania, uma visão, que decidi concretizar: criei a nossa "Diana". 

Sua e minha, porque ambos sabemos que seria o nome de uma filha sua, neta minha, a que não terei, e no entanto, cada Diana que sai das minhas mãos com a ajuda da máquina de costura, e com todo o meu Amor, é uma espécie de momento de paz que me invade. A Diana, Princesa das Mouriscas, é uma menina divertida, curiosa e alegre, ou não fosse ela quem é. Adora visitar a Oma Ana, que vive no campo, e dar laranjas às ovelhas e às cabras. Enquanto costuro e escolho o padrão dos vestidos e a cor dos sapatinhos, sonho. Sonho e imagino o que seria se fosse realidade. Conto-lhe histórias de encantar, e tenho inúmeras conversas com ela. Sou transposta para o Mundo da fantasia, da alegria e do amor, ainda que momentaneamente e apenas por alguns minutos. Mas ajuda! 

Passei os últimos dias a costurar, com carinho redobrado nos pormenores, e o resultado está à vista: tive algumas encomendas. Não me admira, a Diana é feita de AMOR! O Mano disse-me logo para abrir um negócio, e dei uma gargalhada. Eu? Eu que não me consigo lembrar do que me disseram há duas horas, abrir um negócio??? Surreal! Mas o que é facto, é que de apenas de boca a orelha, já tenho várias Dianas para criar. São horas à máquina, horas a imaginar uma criança de vestido às florzinhas a correr aqui pela Quinta, e a vir ter comigo, a sua mãozinha na minha, para lhe mostrar as maravilhas da natureza, contar histórias de fadas e duendes e fazer precisamente o contrário do que se faz hoje: fugir dos telemóveis, tablets, televisões e afins, e descobrir que cada pássaro tem um chilrear diferente, que cada planta nasce a uma certa altura do ano, que as ovelhas dão pelo nome e nos vêm comer laranjas à mão, porque reconhecem a nossa voz. 

E trazer a Diana à Vida ou à vida - talvez eu prefira, neste caso, a maiúscula - é celebrar o Amor que nos une, que transcende o tempo e o espaço, e que continua para além da morte. 

Hoje fui à Doutora Ana Carolina, e por isso, foi um dia bom. A Doutora Ana Carolina é novíssima, ou pelo menos parece, porque só lhe vejo os olhos, o resto está escondido atrás da máscara, mas é sábia. A a sua expressão transmite empatia, carinho e compaixão. Ela ouve-me, tem tempo para aturar os deltas das minhas conversas, quando se perdem na miríade de pensamentos que me invadem, e não me julga. Sobretudo não me diz o que tenho ou não que fazer. O que por si só é fantástico. Perguntou-me hoje de que cor era o meu Luto. Que poderia responder? Ele é preto breu, riscado no cinza plúmbeo que marca o desenrolar dos meus dias, que só ganham cor enquanto faço nascer Dianas de vestidinhos floridos e lacinhos cor-de-rosa.

Mas continuo a ter momentos de Paz, e isso não tem preço. Conquanto as noites sejam sempre muito mais duras, os dias, que à medida que se sucedem vão crescendo, estão mais salpicados de momentos de calmaria. Aquela sensação que hoje em dia parece um milagre, pelo bem-estar que me invade: instantes de descanso na luta incessante contra o cinza da tristeza. E cada instante de descanso, ajuda-me a ter a força necessária para enfrentar o vulcão da saudade, quando este ameaça irromper.

Também já temos a cerca da horta pronta. Vai ficar um espaço enorme, e vai ser este ano que posso ter vários carreiros de cebola roxa. Agora ando a negociar com o Miguel o que vamos plantar. Ele sempre com a mania das beringelas e das curgetes, e eu a defender os alhos franceses e os pepinos. Se não fosse o campo, não sei o que seria de mim...mas a vida aqui tem outra simplicidade, que acaba por acalmar o desassossego da Alma.

Meu adorado Filho, tanta falta que me faz! O que daria eu para discutir tudo isto consigo, ouvir a sua opinião, e um dia, sentir a mãozinha da Diana na minha...

...até lá, ponho AMOR nas Dianas que, espero, façam as delícias das pessoas para quem as criei!

Mil beijos meu Amor, da sua Mãe que o adora,

Mami


sábado, 18 de fevereiro de 2023

18.2.2022 - One Day minus 199 - Mudanças

 




Meu adorado Filho,

Escrevo-lhe com e sob uma nova perspectiva, literalmente falando: mudei o escritório todo; detalhes mais à frente, e penso que também mudei a minha perspectiva sobre a costura, e com ela, sobre os pontos como decidimos alinhavar a nossa vida e quais as linhas que escolhemos. 

A costura envolve-nos de uma forma suave, mas muito criativa, e acima de tudo, meditativa, e consequentemente, tranquilizante. Já lhe escrevi detalhadamente sobre isso e não vou enumerar uma vez mais as vantagens desta terapia barra "hobbie" que descobri, pois já sei que me vai responder:

- "A Mãe tá toda queimada, já me contou da costura pelo menos um milhão de vezes!"

Portanto vamos ao espaço físico: mudei o escritório. Começava a ter muito poucos metros quadrados para toda a parafernália que este novo "hobbie" exige, e além disso, começo a ver mal ao perto, precisando, por isso, de mais luz. Não me fazia sentido ter uma janela de cada lado, e ter a secretária virada para a parede. Sobretudo agora no Inverno, em que a luz ainda é pouca. No Verão talvez volte à posição inicial, por causa do calor, mas agora é diferente. Fico portanto, de frente para uma das janelas, da qual vejo o jardim com os Medronheiros, as Oliveiras e vislumbro, ao longe, o pôr-do-sol. Pus uma pequena mesa em T, mas é desmontável, logo não conta para a disposição estética do espaço, mas apenas da funcional. Ao mesmo tempo, a cama que está transformada em sofá, fica numa posição muito mais agradável para os solteiros que cá venham dormir porque encostada a uma parede interna, logo mais quente. Em suma, gosto do espaço. O Miguel diz que vai ficar a divisão da casa para eu mudar à vontade sem ele se passar dos carretos, porque tem o pavor das minhas mudanças constantes, sempre em busca do que mais me apraz esteticamente. 

Mudei também o meu ponto de vista sobre o Luto de Mãe. Ele é inultrapassável, e é intemporal, infinito e constante, mas torna-se, com a Aceitação, um Luto menos pesado e acutilante, suavizando-se muito lentamente. Não deixa de ser curioso, e talvez possa ser explorado filosófica e medicamente, é como quando sentimos o nosso Filho pelas primeiras vezes no nosso ventre. De início é como se de uma borboleta se tratasse, depois são mais borboletas que nos fazem cócegas e nos mostram que aquele milagre de Vida dentro de nós cresce, um pouco mais a cada dia, e o nosso Amor cresce com ele. O (meu) Luto está a ser assim. A Paz que senti de início foi apenas um vislumbre, uma perene sensação de bem estar, porque de calma, de menos peso daquela dor pungente e torturante. E aos poucos, a Paz foi ficando por mais tempo. Segundos, minutos, horas, e agora, já lá vão uns dias. Claro que estou sempre à espera do embate, porque sentir um pouco mais de Paz ao fim de quase sete meses de tortura, sabe-me a um pedaço de Céu e não acredito que perdure, mas ao mesmo tempo, penso que só depende de mim ela perdurar.

Eu tenho a certeza de que a nossa ligação vai muito, mas muito para além da morte, ela vive noutra dimensão, caso contrário, eu não poderia sentir o Amor que sinto dentro de mim. E transformar a Dor em Amor, a cada dia que passa, é a melhor arma contra o Luto. Mas esse Amor, só o Filho dos Filhos, uma Criatura com a sua Luz poderia estar a enviar-me. E por isso eu sinto Gratidão. Porque sou uma privilegiada entre as Mães, porque carreguei, trouxe à Vida, amei e amarei, até depois da minha morte, um Ser de Luz. Sou tão grata por isso meu Filho! Por essa dádiva maravilhosa que o Universo me deu, o de ser sua Mãe e do seu irmão. 

Mudei também o horário das nossas cartas: escrevo-lhe, pela primeira vez, com a luz calma do ocaso que já passou, até ter transcrito a nossa conversa astral.

E agora que lhe esvaziei o meu coração, porque sei que vai ficar alegre e orgulhoso, vou para a costura, que hoje é o Miguel a fazer o jantar, e porque temos que consumir as dezenas de ovos que temos, vai ser "cheese-tomato-onion meets" tortilha, porque temos imensos restos de legumes e batatinhas assadas para aproveitar!

Mil beijos meu Amor adorado,

Mami

05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...