segunda-feira, 26 de junho de 2023

26.6.2023 - One Day minus 330 - Teatro do Absurdo

 



Meu querido, querido Tim,

Nem sei por onde começar...estive a reler as nossas conversas de whats-up e deparei-me com uma troca de mensagens em Junho do ano passado, aquando de uma canícula sem igual. Mas o calor não tem importância, a não ser que seja para dizer que estamos, não no mesmo patamar de temperaturas, mas de torra igualmente insuportável, pelo menos na escala de Fahrenheit.

O meu carro morreu hoje de manhã. Saí - felizmente a mais do que horas - para ir para Tomar, e quando dei à chave, népia! Entrei em pânico, porque perder uma consulta da Doutora Ana Carolina seria uma catástrofe, e fui acordar o Miguel aos gritos, que, meio sonâmbulo, lá me levou, não sem antes dar de comer aos patos e às galinhas. Mas cheguei a horas, e lá deixei, uma vez mais,  todas as minhas mágoas, como é habitual, e ela, naquele carinho e empatia únicos, ouviu-me sem me interromper. Tem uma sensibilidade fora de série, e ir lá é um bálsamo para a minha Alma dorida e doente de saudade.

Tudo tem sido arrancado a ferros, literalmente TUDO! De um passo que damos em frente na infindável burocracia, damos três para trás, é um desgaste DESUMANO diário, e pergunto-me, se as pessoas que lidam com casos como o nosso, conservam em si alguma réstia de humanidade, mas quero crer que não. Há duas semanas deparei-me com letras, preto no branco, no ecrã do meu telefone a dizer: "aguardamos que o juiz liberte o relatório da autópsia". É tão duro ler coisas como essas! Continuamos na luta incessante e estou cansada. 

Hoje faz dois meses que o Opa Freddy morreu, e ainda nem sequer tive o tempo, ou a coragem necessária, para lidar com mais essa perda. Amanhã o Opa faria anos. Lembro-me dele no ano passado, a dizer que ainda ia viver muitos mais, enquanto enumerava as pequenas maleitas que o assolavam. O Opa...que amanhã estará no Céu a beber um Planalto gelado consigo! E eu aqui, cheia de saudades vossas, daquelas que rasgam as entranhas!

Entretanto tive cá as tias todas almoçar, e penso que foi a energia delas, que me deu força para enfrentar isto tudo. Trouxeram-me inúmeros miminhos, mas sobretudo, o seu carinho e amor. Agora estou melhor, mas as duas últimas semanas foram um pesadelo. Em Lisboa não consigo dormir, o barulho põe-me doida, e as recordações que me assolam, enquanto palmilho os passeios, cortam-me a respiração. O campo acalma-me, muito embora neste momento, eu esteja com a cabeça cheia de preocupações. Mas também  de algumas boas notícias:  Calcule que o Manel vai casar! Imagino a sua cara aí no Céu! Fiquei muito, muito contente com a notícia, afinal vocês fazem uma semana exacta de diferença, e ele também é um bocado "meu", como você é dos Tios. 

Em Lisboa fui mudar o fio da pulseira, que estava a esgaçar, e conheci a Sónia, uma pessoa espetacular. Custou-me horrores lá entrar, vi-o sentado na loja, enquanto elas lhe mudavam o fio das suas, de laranja para amarelo, e recordei-me do seu telefonema sobre a sua escolha de cor. Tudo isto foi poucos dias antes da sua morte, tanto, que quase ninguém sabia do amarelo. Elas sabiam. Eu também. E rimos, e chorámos, e abraçámo-nos, enquanto os turistas japoneses entravam e saíam. 

FILHO, sei que subiu. Está muito mais alto, muito mais longe, conquanto sempre tão perto, mas sinto que já não paira aqui, entre os dois Mundos. Sinto isso perfeitamente, sei que esperou por mim, e quando me viu a combater as agruras diárias com a garra incansável de sempre, você finalmente voou para o Infinito do Céu, porque que constatou que a minha centelha continua. Senti a sua subida, e isso custou-me, de novo, horrores. Horrores. A centelha mais parece um pavio fininho, fininho, quase moribundo, mas que quer honrar a sua memória, está cá, ainda arde numa chama pequenina. A tia Ana contou-me da coruja e arrepiei-me toda. Ela, como eu, sabe, sente e vê com os olhos da Alma. A nossa coruja desapareceu do jardim na mesma altura que a dela se foi despedir deles, e foi aí que tive mesmo a certeza de que você subiu. Que bom meu Amor. Agora, na incerteza de que as minhas cartas lhe chegam, continuarei a escrever, escreverei sempre e para sempre meu Amor querido. Mas sei que está longe. Contudo para um coração de Mãe como o meu, o importante é saber que o seu Menino está bem. Mesmo longe, que está bem. E eu sei que está!

Filho do meu coração, quase onze meses depois da sua morte, "I'm stranded". Não só porque sem carro, mas sobretudo porque náufraga, afogada em preocupações e em saudade. Sem farol nesta tempestade que me assola. 

Tim...mande um beijo ao Opa. Diga-lhe o quanta falta me faz, mas como fico contente de que estejam juntos. E cantem os parabéns e apaguem as velas. Aqui arde sempre uma, todas as noites, no seu Altar.

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami



terça-feira, 13 de junho de 2023

13.6.2023 - One Day minus 317 (Santo António)

 



Meu adorado Filho,

Há muitos dias que não lhe escrevo. Muitos dias em que andei a saltitar deste, e do outro lado da linha, porque ela é ténue. Houve dias em que achei que endoidecia. Outros menos. Sei que a minha sanidade é proporcional ao meu desgosto, e a muitas outras coisas. Como você sabe, na minha vida nada vem de forma fácil, é tudo arrancado a ferros, e os problemas inerentes à sua morte, bem como outros tantos, têm-me posto à prova. 

Nestas agruras que teimam em me afogar, as minhas conversas consigo assemelham-se mais a súplicas, apelos transformados em murmúrios, preces que lhe invoco, neste nosso diálogo constante. Não vale a pena descrever-lhe o que tenho passado, porque seria tudo uma repetição de uma lamentação contínua, mas vou-lhe resumir ao máximo as vivências mais importantes das duas últimas semanas. Revisitei - em espaço demasiado curto, mas é o que é -  os areais onde nos divertimos tanto enquanto você e o Mano eram crianças. Fechei os olhos e ouvi a sua voz no Xico a pedir para andar de gaivota, molhei os pés numa das praias onde vivemos um dos dias mais giros da nossa vida, pisei os mesmos grãos que pisámos juntos, quando ainda éramos felizes. O meu espírito voou, e foi esse voo tão introspectivo, que me possibilitou continuar, onde penso que (já) não pertenço. Muita coisa aconteceu, e cheguei à conclusão de que é na nossa concha, fechados sobre nós mesmos, que estamos seguros. A minha vida, uma vez mais, mas de forma tão diferente, é experienciada dentro do meu âmago, ali onde só chega quem eu deixo. Foram várias as lágrimas, não por saudade essa é constante, mas por falta de compreensão, de amor, de compaixão. E isso é tramado. Mas é o que é.

O seu bisavô faria anos hoje. Foram tantos os anos em que fomos para os Santos, nessa Lisboa da qual tenho saudades, nesse tempo imaculado, intacto, pleno de inocência polvilhada a aroma de Jacarandás. 

Está mais longe meu Filho, sinto-o, e isso custa-me, mas também sei que, enquanto no meu coração não voltar a reinar a paz, assim irá continuar. Mas sei que está. Sei que agora, quando finalmente encontrei coragem para lhe escrever, me está a espreitar sobre o ombro e a sorrir. Sinto. Tão bom meu Amor. Tão, mas tão bom!

Não estou em paz, longe disso, no meu coração governa a mágoa por muitas coisas que aconteceram, por actos que não se desfazem, por injustiças que tenho que engolir, mas para lá caminho. Tenho um objectivo, e quando regressar de Lisboa, vou colocá-lo em prática. O meu espírito germânico, ou o que resta dele, fruto dessa aculturação que tanto me custou enquanto eu era criança, mas que tanto me ajuda na idade adulta, vem sempre ao de cima, e a camada de gelo que produz, é absolutamente vital, tanto quanto genial! Vou por em prática uma série de coisas, porque se não o fizer, continuam a destruir-me sem dó nem piedade e eu assisto, incapaz de reacção, e isso não sou eu. Mas demorei duas penosas, pungentes e muito sofridas semanas a chegar a este desiderato.

Estou cá meu Amor. Estou cá e relembro tanta coisa, tantos momentos, tanta partilha! Tanta dádiva. 

Hoje é também o dia de um Anjo que sei que está consigo. Um Anjo que deixou cá uma Mãe que, como eu, sofre. Sofre desmesuradamente, injustamente, neste Mundo cruel e mau! E sei que nesta madrugada me pediu para eu vos deixar as luzes do seu altar acesas. E deixei, porque percebi que era um sinal seu. E hoje ardem de novo duas velas, a sua e a dele, e vocês sorriem aí no Céu. Filho, peço-lhe perdão por ter deixado a mágoa entrar no meu coração, mas sou apenas humana, e o que sofri dos meus congéneres nas últimas semanas, foi demais!

Filho...acho que consegui saltar do lado de lá para o lado de cá, com a sua ajuda, mas as feridas que me fizeram, ficam cá. Ficam comigo, enterradas no meu âmago, naquele núcleo que só pede amor, mas que apenas encontra crítica e indiferença e mil problemas burocráticos.

Filho...não sei se o avô Freddy já aí chegou, ainda não tive coragem de me debruçar sobre isso. De despejar a tristeza, a mágoa, a revolta. Acho que sim. Não lhe consigo chegar, acho que está de tal forma preocupado comigo, que como sempre, faz por ignorar, porque sempre lhe foi mais fácil. Mas espero que sim, que ele o tenha abraçado de encontro ao coração e que tenham falado muito. Também a Foxie, esse cão como não haverá nunca mais outro no Mundo já aí chegou de certeza. Pelo amor de Deus não a chateie Filho. 

Martim, devolva a pureza do Amor ao meu coração, é só o que lhe peço. Retire-lhe a mágoa que me causaram e ajude-me a alcançar a Paz da saudade. Aquela que eu sentia há umas semanas, pungente, claro, mas que me trazia para perto de si...

Filho...do lado de cá da linha, ajude-me a ficar aqui, a não passar para o outro, porque só há apenas uma coisa que me assusta, e que já esteve mais longe: a insanidade mental.

Só isso!

Amo-te Filho...amo-te e prometo, juro, que não me voltarão a fazer mal.

Mil beijos da sua Mãe que o ama...

...Mami!




quarta-feira, 31 de maio de 2023

31.5.2023 - One Day minus 301 - Filho do meu coração...("BLEEDING")





...de quanta saudade se faz um luto? Não é quantificável. 

As últimas duas semanas foram um horror, achei que - verdadeiramente - estava a enlouquecer. A morte do seu avô - que nem sequer ainda assimilei porque simplesmente não consigo - seguida de ter de mandar eutanasiar a Foxie, foram a gota de água. Não consigo criar, não me consigo concentrar, e as agruras das burocracias perseguem-me sem dó nem piedade.

Como nada neste Mundo me vem de forma fácil, a Poppie - não sei se já lhe contei isto, se sim, desculpe meu Amor, é a minha cabeça - veio do abrigo pejada de fungos. Estamos na segunda semana de tratamento e, até agora, não vejo nenhuma melhoria, antes pelo contrário. As peladas aumentam e já me conformei com o facto de vir a ter uma cadela adulta, que mais vai parecer uma girafa, cheia de manchas de peladas. Mas como é espertíssima e na minha vida já nada é normal, que assim seja. Aceitamos aqueles de quem gostamos tal qual como são. Mas acho uma irresponsabilidade deixarem uma pessoa levar um animal de um abrigo, quando sabem que está doente. Houve quem me dissesse para a devolver. Não queria acreditar no que ouvia: um ser vivo não se devolve, como se faz a um artigo defeituoso. 

Ante-ontem fui à Doutora Ana Carolina. Cada vez gosto mais dela. É a única pessoa no Mundo inteiro que me entende, me ouve,  não me julgando, num gerúndio constante como acontece com o resto das pessoas. Saio de lá muito mais fortalecida, sobretudo porque descansada de que não estou a ensandecer. Isso é a única coisa que me preocupa e lá vem a conversa do maldito karma familiar. Achei que o tinha quebrado, ao dar ao Mundo dois latagões numa família onde as Mulheres - sempre com maiúscula, claro - predominam desde há não sei quantas décadas. Mas enganei-me redondamente: a sua Trisavó Zéza perdeu o filho Manuel, piloto, num desastre de aviação nos Açores. E...

...enlouqueceu.

Mas isto não vai acontecer nesta geração, muito menos enquanto a Doutora Ana Carolina me seguir e me garantir que nunca estive tão sã, conquanto tão triste.

Nas últimas semanas achei que saltitava de um lado para o outro dessa linha ténue: cheguei a duvidar que a minha Vida enquanto sua Mãe, não teria sido (ou não foi)  mais do que um sonho, ou que olhava para a vida de outra pessoa, invejando uma Vida que tinha existido como que projectada numa tela, na qual eu estava apenas como espectadora. Assustei-me. Como é que alguma vez poderia duvidar que fui e de que sou sua Mãe? Passei noites sem dormir, ou às voltas, curvas sinuosas serpenteadas no colchão, com a mente macaca a comer bananas e a gozar comigo.

Monkey Mind...que finalmente acalmou de novo. Sossegar a mente para poder ouvir o coração.

Filho...agora sim você subiu definitivamente. A sua estadia entre os dois Mundos terminou. Não sei como lhe agradecer ter ficado tanto tempo aqui - ou aí - e sei que o fez por preocupação por mim. Sei que ficou porque você queria que eu finalmente assimilasse o que nos aconteceu. Que eu integrasse essa saudade no meu quotidiano, que fizesse dela a minha cruel realidade, a minha companheira. Filho obrigada. Conquanto dilacerante, ela é real. 

Falemos de paralelismos. 

 - "Querem saber como me sinto, ou o que me sinto, especialmente quando me dizem que eu tenho de recomeçar onde parei no dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois? Então eu digo-vos. A minha Vida foi interrompida por uma catástrofe, que me mutilou e me colocou numa cadeira de rodas. Dos joelhos para baixo, o meu corpo não existe. Eu nem sequer me consigo levantar, e querem que corra a maratona???? Mas está tudo louco? Primeiro arranjem-me as próteses, depois ajudem-me a levantar, Quando conseguir esse feito, então talvez, um dia, eu consiga colocar um pé à frente do outro. Se conseguir isso, já é um milagre. E se estão tão preocupados que eu corra a maratona, então venham daí, larguem o conforto dos vossos sofás e venham para aqui, para me ampararem nas minhas inúmeras quedas, até eu me conseguir, pelo menos, levantar. E sobretudo, não me julguem, não me incentivem, não me encorajem. Simplesmente...

...ESTEJAM..."

Filho, "I will follow, follow you, (...), um dia. Um dia. Agora tenho de aceitar que você subiu para onde já não me consegue visitar. Mas eu sei que você me abraça, todos os dias, todos os minutos, em cada inspiração da minha existência... "pull me in, pull me closer...(your eyes let me know), like footsteps home, I will follow...

Meu Amor, sempre, sempre, sempre consigo. Obrigada por ter posto a Doutora Ana Carolina no meu caminho!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami



segunda-feira, 22 de maio de 2023

22.5.2023 - One Day minus 295 - E o tempo passa, e saudade? (essa, bom, essa aumenta exponencialmente)

 



Meu adorado Filho,

Há demasiado tempo que não vinha aqui ao nosso espaço sideral para conversar consigo. Tanta coisa acontece em vinte dias! 

A Poppie veio, e dá imenso trabalho educar um cão como deve de ser. Ocupa-me os dias, mas isso é bom. No entanto, e como eu ando constantemente a levar pancada do Universo - que acha que ainda não levei o suficiente e tenho arcaboiço para ainda mais - a Poppie veio com um fungo. Ao princípio não reparei, era uma macha minúscula no meio da testa, e achei que era de nascença. Infelizmente não. Começou a espalhar-se pelo corpo, e as manchas a aumentar de dia para dia, e não estou a exagerar. Houve quem me dissesse para a devolver, pois as despesas e as preocupações são algumas, soi disant,  mas fiquei chocada. Não se devolvem seres, muito menos aqueles pelos quais nos responsabilizámos. É um azar do caraças, mas é o que é. Em resumo: tenho uma cadela de quatro meses, que fui resgatar ao abrigo, e que está meio careca e ainda mais feia do que já era. Mas é inteligentíssima e adoptou-me mal entrou nos meus braços, num abraço imenso de gratidão, nuns olhos meigos e sonhadores. E como o essencial é invisível aos olhos, ou neste caso particular, o que entre pelos olhos adentro não é o que vai naquela alma de cão, vamos a mais um desafio.

Ontem fomos a Coimbra. Levei-o comigo, no meu coração, meu Paraíso do Amor, meu querido Filho. Sei que está desiludido comigo - aliás a coruja deve ter voado do nosso jardim, pois nunca mais a ouvi - mas eu faço o que posso. A morte da Foxie agravou o meu cérebro de um modo assustador. Aliás, quero falar com a Doutora Ana Carolina sobre isso. Não me consigo concentrar de forma nenhuma. As Dianas já não nascem das minhas mãos com a alegria e a espontaneidade com que as criava, olho para elas como algo que não saiu de mim, e para acertar numa, descarto três. As horas e horas em que passava à máquina de costura, são agora apenas pequenos pedaços de minutos roubados ao dever de cumprir. Não sei o que se passa comigo: há dias em que consigo sorrir, em que o Mundo me embrenha num entorpecer da minha dor, mascarado pelo dever, numa teia tecida por aranha sonolenta. Mas depois voltam os dias como o de hoje, em que toda eu estou no Céu, toda eu sou Saudade, toda eu sou...Mãe roubada de um tesouro, de si própria, cansada de lutar, mendiga do Amor. 

À medida que os dias passam, e caminhamos para os dez meses, a perplexidade perante a sua morte aumenta e às vezes duvido da minha vida anterior. Filho, sei que isto é horrível de dizer, mas é verdade, é o que sinto. As pessoas e os lugares são os mesmos, mas é como se me pedissem para olhar para a vida de outra pessoa, é como se estivesse a ler um livro onde me identificasse com a personagem principal, mas cuja vida nada tem a ver com a (sobre)vivência da minha vida de hoje. 

Perdi a magia na e da minha vida, e percebi isso ontem, em Coimbra. E nesse concerto repleto de sofisticação e de tecnologia, o meu coração levou-me para a simplicidade de um Rock in Rio em Lisboa, naquele em que Amy Whinehouse passou a vergonha da sua vida, acabando por cair no palco, e em que Lenny Kravitz salvou aquele relvado, consigo e com o seu irmão sentados nos rebordos de um contentor do lixo, e o Pai, em pé, à nossa frente, com um frio de rachar em finais de Maio, assisti ao MELHOR concerto da minha vida, nessa altura ainda Vida. Fomos envolvidos pelas músicas, pelo som de algo familiar, pela simplicidade. Foi...

...ÉPICO!...

Tim, em dez meses acontece tanta coisa...mas tanta, tanta coisa, e contudo, o Mundo, ou o meu Mundo está parado há duzentos e noventa e cinco dias - ou será há mil anos?, e isso é que é esquizofrénico - e tudo parece irreal, surreal e absurdo. É Albert Camus no seu expoente máximo!

Tim...não se consegue descrever este limiar entre a loucura e a sanidade. 

Não sei explicar o que se passa, acho que o Tempo adquiriu um novo tempo, num decorrer do que mais parece um escorrer, por margens escorregadias em cima de rochas, onde rasgamos a pele e nos agarramos a um NADA sem significado, só porque temos o dever de ter uma vida. E contudo, nesse tempo, nesse hiato de Tempo, plantaram-se árvores de fruto, venderam-se duas cabras e quatro ovelhas, das quais vimos nascer quatro cabeças, enterrámos uma companheira de um quinto de vida, e colhemos courgettes da horta. E sorrimos. 

Tim...

...nesta teia frágil e efémera, o meu amor por si é INFINITO, pois é Amor de Mãe, aquele que é o Amor mais puro, mais eterno, mais genuíno, mais repleto de saudade e de tanta gratidão!

Mil beijos da sua Mãe que o ADORA!

Mami

terça-feira, 2 de maio de 2023

2.5.2023 - One Day minus 275 - e do que continua?

 




Meu querido, meu adorado Martim,


Nove meses...o tempo que demora carregar um Filho, a dar Vida, a ser Vida. Eu carrego um fardo mais do que pesado, são toneladas de desgosto, de saudade, de sentir a sua falta a cada inspiração. Em nove meses acontecem muitas coisas: morre o Opa, o seu querido avô que o adorava, e morreu a Foxie. No dia em que ela morreu, achei que enlouquecia, e estive a instantes de pedir ao Miguel para me levar a Tomar, para me porem a dormir, e me aliviarem da dor incessante que me dilacerava as entranhas. Foram nove meses de perda, de tristeza, de ver sofrer os que amo, mas ao mesmo tempo, foram nove meses de outras coisas. No meio da insanidade da saudade, plantou-se uma horta, arrancaram-se - às minhas mãos - os urtigões, plantaram-se duas cerejeiras, dois pessegueiros, uma árvore de mirtilos, e todas estão a dar ou frutos, ou flores.

Também foi o mês em que se matou o Trinta e Um. Nunca pensei que o conseguisse comer, mas depois de perdermos tanto, comer um cabrito que nos nasceu literalmente nas mãos, acaba por ser uma homenagem gustativa ao próprio do animal.

E com isto quero dizer, que, lentamente, com muito mais revezes do que progressos, vamos aprendendo a (con)viver com a dor. Percebemos que nada é eterno, excepto os Anjos como você, meu Filho adorado. Quando pensamos que atingimos o pico do sofrimento, vem mais uma ferroada do Universo e volta tudo ao mesmo, mas sobrevivemos. Com a ajuda da Doutora Ana Carolina tenho percebido que é bom exorcizar a dor, porque o importante é a sobrevivência, nem que seja pelos que cá estão connosco, e nos merecem no nosso melhor.

Aprendi portanto, que o nosso coração aguenta muito mais do que pensa, e que a nossa mente é o que tentamos fazer dela, dentro das limitações físicas e psicológicas que se nos deparam. Dito isto, e depois de dez dias em que pensei que estava a enlouquecer mesmo, mas MESMO, em que o sofrimento me levou à beira da insanidade, numa epifania, ou talvez num último instinto de sobrevivência, fui a uma Abrigo buscar uma cadela. Estava tão nervosa na viagem, que só me apetecia vomitar. Questionei-me sobre muitas coisas. E no Caminho - propositadamente com maiúscula - pedi-lhe, baixinho e com todo o meu Amor, numa oração desesperada, que me desse um Animal que fosse inteligente. Não pedi mais nada, apenas isso, e, claro, que gostasse de mim. Apaixonámo-nos uma pela outra ao primeiro olhar. Nos primeiros dias, andei dividida entre a minha saudade pela Foxie o carinho pela Poppie. Sentia-me uma traidora, e, ao mesmo tempo, uma Sobrevivente.

A Poppie tem-me feito bem. Registei-a com "ie" de propósito, tal como a nossa Foxie. Quis manter a tradição. Tenho uma rafeira preta que nem breu, com patas brancas, e que veio para mim quando o campo se encontra semeado de papoilas, num salpicado intenso de encarnado vivo como a vida.

E assim passo os dias meu Amor. Com muito menos força física, com muito mais fragilidade, mas com uma réstia de determinação.

O Mano está a ajudar-me, ou melhor, a fazer-me um "coaching" à distância, de como educar um cão, e tem resultado. Dá muito trabalho, e tenho de ouvir e repetir tudo o que ele me diz para fazer, para lhe mostrar que não me esqueço, ou que a minha frágil cabeça não me trai e não me leva a esquecer o que ele me acabou de dizer. É muito bom tê-lo muito mais próximo. Estar na nossa cumplicidade maternal-filial é maravilhoso. Adoro o Mano como o adorava a si e admiro-o cada vez mais. Ele faz-se Tim, e vai-se fazer um Homem com "H", como canta Matogrosso. Cada dia tenho mais orgulho nele. O seu fardo é tão pesado quanto o meu, e todos os dias me lembro disso, e ao lembrar-me disso, continuo. Por ele, por si, por mim, por todos. 

Aprendi também que o que me aconteceu subsequentemente à sua morte, não é uma vergonha. Nem uma desgraça, e que deve, e tem de ser respeitado. Você morreu naquele desastre fatídico, e a minha cabeça ficou lesionada. Aparentemente está tudo bem, mas muitas pessoas ao mesmo tempo, cansam-me, e a memória, bom, dessa já nem lhe preciso de falar. Reparei que depois da morte do avô ela piorou, e agora, depois da Foxie se ter ido, faltam-me palavras quando quero comunicar. Tenho aprendido a não valorizar, a não me sentir inferior, mas não é fácil. Não sei como vou fazer, mas a Doutora Ana Carolina diz-me para nem sequer pensar um segundo nisso, o que é bom, porque me causa uma angústia imensa. Não me preocupo, ou não me tento preocupar, e procuro todos os dias, ir um pouco mais além. Vamos ver se consigo.

Eu mudei radicalmente com a sua morte, e não foi apenas a minha vida, fui eu enquanto ser. Tenho de aprender a (re)conhecer esta nova pessoa que vive em mim, identificar-me nesta nova existência, e não é fácil. Mas depois, naquelas madrugadas em que morro, uma vez mais de mil vezes ao pensar na sua não presença física, naqueles momentos em que estou no limiar, como nesta madrugada, a que deu entrada a dia 2.5., a Coruja e o Mocho brindaram-me com piar carinhoso, e percebi que era mais um sinal seu. Acredito no Cosmos, acredito que nos iremos reencontrar um dia, cair nos braços um do outro e falar, falar, falar, falar. Acredito que isso vai acontecer um dia. Um dia!

Até lá meu Amor, até lá minha Vida, 

Mil beijos da sua Mãe que o adora,


Mami




quarta-feira, 19 de abril de 2023

19.4.2023 - One Day minus 262 - Da morte e da ausência, da saudade sem FIM

 



Meu adorado Filho,

Espero que a Foxie tenha chegado bem aí. 

Peço-lhe que não lhe atazane o espírito, coitadinha, já bem basta as judiarias que lhe fez neste Mundo. Abrace-a com força e diga-lhe que a Mami se lembra dela vinte quatro sobre vinte e quatro, e que este Mundo está ainda mais vazio. Dou por mim à procura dela no silêncio da casa, olho para a sua caminha, agora vazia, à sua procura, à escuta de uma respiração de mimo ao meu lado, chego a casa e nem sei descrever a falta que me faz o seu latido de boas-vindas, de alívio por me ver entrar o portão. De "me" saber aqui com ela, sempre a dar-lhe segurança. 

Perdi uma companheira de uma Vida, daquela vida que foi minha mas que, uma vez mais, me foi roubada. Que mais pode o Universo querer de mim? Não chega já? Mais ainda? Mais dor, mais desgosto, mais perda, mais um silêncio, mais uma recordação de tempos felizes de partilha? Mais uma vez o Universo me pediu altruísmo, e lá estive eu à altura, por não aguentar ver sofrer os que amo. Mas a que preço meu Deus? A que preço? Como se cosem os retalhos esgaçados de uma Alma, a minha, tão cheia de saudade, tão cheia de lágrimas, tão a transbordar de lágrimas de desgosto. 

Adormeceu nos meus braços. Quero acreditar que adormeceu em paz. Pedi-lhe que o encontrasse, e quero crer que sim, que o fez. Peço-lhe que tome conta dela e que juntos, olhem por nós. Pelo Mano e por mim. Por nós, fui à procura de outra cadela. É toda preta, com patas brancas. Vamos ver como é, vou buscá-la na sexta. Tenho de tocar a vida para a frente, nem que seja a troco da pouco que resta da minha vida anterior. Tenho a cabeça num caos. Num caos. O coração desfeito em mil pedaços. Estou sem rumo, mas tenho de tentar continuar. Pelo menos tentar. 

Tim...Foxie...

...espero-vos juntos, num céu onde, um dia, também quero entrar. Quero acreditar que aí estarão, à minha espera. Não percebo porque é que o Universo me fez mais isto. Porquê já? A Foxie com o seu cheirinho a algodão e o pelo macio, amparou as minhas lágrimas aquando a sua partida. Foi a minha companhia nas noites escuras do desgosto. Acho que ela sentiu tudo isso e não teve força para me consolar mais. Estava cansada...como a entendo!

Tim...mil beijos!

Foxie...meu cão tão querido, minha Mininhas, minha companheira de aventuras, meu consolo...espero-te bem!

Abraço-vos contra o meu coração com tanta, tanta, tanta saudade!

Mami


terça-feira, 18 de abril de 2023

17.4.2023 - One Day minus 260 - Foxie

 



Meu adorado Filho,

A Foxie já descansa na terra barrenta aqui da Quinta. 

Adormeceu nos meus braços, em mais uma despedida desprendida de egoísmo, mas plena de dor. A nossa Foxie! Estava muito doente e foi de repente, e eu não estava preparada. Nunca se está. A morte rodeia-me, envolve-me, rouba-me todos os que amo. A casa está vazia. Falta-me a respiração lenta dela, aqui ao meu lado, no atelier. Falta-me o latir enquanto corria atrás dos patos sem lhes fazer mal. Falta-me tudo Martim. Tudo! Falta-me o sexto sentido dela quando me sentia triste e me vinha pedir colo, para me consolar. Tenho medo de me deitar e não ver a caminha dela ao meu lado. Foram onze anos de companheirismo, de travessuras, de alegrias, de um cão que só lhe faltava falar. Nunca mais haverá outra Foxie. Nunca mais.

E eu, e eu não me vou alongar mais, porque não vejo as teclas através das lágrimas. Não posso mais de sofrimento. Não aguento!

Tim, se ela chegou aí ao Céu, por favor não a chateie. Não a provoque. Abrace-a e juntos, mandem força cá para baixo. 

Beijo Tim, e faça uma festa à Foxie. Pus a coleira dela no seu Altar. 

Mami

05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...