quarta-feira, 12 de junho de 2024

12.6.2924 - One Day plus 313 - A Extensão da minha Alma..."There must have been an Angel by my side (...)"

 



Meu adorado Filho,

Mais uma noite de insónia...

...não estamos curados de um luto que nos acompanha, embora agora polvilhado de muitos e vários sorrisos, em número cada vez maior, num aqui e ali, no carinho partilhado de um presente que se quer dádiva, onde as feridas são apaziguadas a cada momento que se vive neste campo primaveril, ressoa(n)do no eco (d)as gargalhadas de uma Leveza que se quer Milagre.

A Vida e a vida, seguidas da Vida, tão efémera conquanto feliz, onde procrastinamos uma realidade da qual não fazemos ideia, mas que também não interessa, porque é na Gratidão universal que a sentimos e celebramos, nesta dádiva universal que se quer festejada no Aqui e no Agora.

Meu Filho, tanto que eu poderia escrever, contar, relatar, resumir num hiato de tempo, onde o Tempo não tem tempo para se preocupar, porque o que interessa é viver e celebrar a alegria da dádiva do presente do indicativo, embora se sonhe um futuro, sobre o qual se assentam sonhos e se constroem "amanhãs"! 

Martim, a Terra cheira a Hermés, perfume de um campo deslumbrante na envolvência de todos os sentidos, na família Von Trapp dos Trouxas, os que se celebram e se vivem, sem medo e com a crença inabalável de que o amanhã nunca será em demasia, porque quando vivido e vivenciado, experienciado em cada ocaso, onde o dia seguinte nasce ao som dos sinos da Igreja, num paraíso escondido e protegido, no qual a gratidão brota em cada suspiro arrancado à saudade, lágrimas beijadas que se transformam em sorrisos  - os meus - será sempre um amanhã de Esperança!

Que viagem meu Amor, que Caminho, Santigo de uma Compostela que sendo missa ou celebração, numa estrada de curvas e contra-curvas, é para sempre a recordação de um coração de Mãe, batimento descompassado, cosido e traça(n)do (n)um Amor e (n)uma Crença inabaláveis de que existe e existirá sempre a Esperança!

Mil Vidas? Hmmmmm...discordo. Infinitas: tantas, quantas recordações abandonadas, deixadas para trás em fragmentos implodidos nas noites em que o sono não vem. Hoje, o sono tem um ritmo, uma respiração, uma pele, um sentido e um sentimento. Um presente e um passado, desenhado em mil passos, dançados e consagrados às doces memórias, e, simultaneamente, às suaves vivências onde se misturam os aromas da cozinha, pratos confeccionados com amor e com doçura!

Haverá pais celestiais, conquanto terrenos? Existirá, algures no (meu) tempo, um cruzar de Caminhos, de Personagens, a do Pai e a do Filho, porque o Espírito Santo desceu sobre mim, mera pecadora terrena e humana e resolveu abençoar-me com o (In)Esperado?

Não sei. 

Não quero saber.

Sei que foram (ou são?) quase dois anos de lágrimas, de perdas, de desesperos, mas uma coisa é certa, transcrita por Saint Exupéry, e talvez mesmo por Robert Frost:

- "Toi, tu auras des Étoiles, comme personne n'en a"...

...e porque finalmente, estamos prontos para palmilhar "The Road not Taken.", porque há estradas que nos levam não sabemos onde, mas que de alguma forma, nos conduzem ao Céu.

Ah meu Filho, se eu (d)escrevesse (n)um livro (d)estes meus dois anos, diário inacabado, rabiscado e rasurado, seria certamente um best-seller, mas os pormenores, as nuances, as sombras desenhadas em cascata(s) de um penedo furado, traçariam para sempre o número dos passos que a rastejar, sempre tentei levar a dançar.

Gosto tanto, mas tanto de si meu Filho! Nesta sua dádiva para comigo, só tenho uma palavra, ou talvez duas:

Amor, obrigada! Ou talvez, Obrigada (pelo) Amor. Ou ainda Obrigada meu Amor. Minha Vida, minha Ressurreição, meu ontem, meu hoje, meu amanhã.

Minha Saudade, e, conquanto, minha Gratidão. Minha Alegria. 

Martim...

...Von Trapp, aka Trouxa, aka, a Vida é um Milagre, neste milagre que é a Vida, outrora vida, e antes Vida, finalmente com maiúscula, que finalmente reencontrámos!

Com todo o Amor da sua Mãe que o adora, 

Mami







sexta-feira, 7 de junho de 2024

6.6.2024 - One Day plus 307 - We will always have Barcelona! (And it feels like summer!)

 



Meu Filho adorado,

De quanta saudade se constroem as memórias? Será quantificável a SAUDADE?

Aquelas viagens a um passado (ainda tão recente), onde fomos tão felizes? As semelhanças facilitam imensamente a (con)vivência, porque é nesse desiderato que tudo se constrói, ou, pelo menos, onde tudo assenta. E nós éramos tão cúmplices, tão amigos, tão parecidos nesta nossa essência do tudo ou do nada! A intensidade avassaladora que nos caracteriza, na Luz que ambos buscamos incessantemente e que você alcançou, num sacrifício que jamais deveria ter sido seu! Deveria ter sido o meu, nesta busca sem tréguas, por um amanhã diferente!

Meu Amor, em recordações, ou nas lembranças de uma Vida que aconteceu há mil vidas, afaguei o seu rosto perfeito, essa onda lindíssima do seu cabelo e encomendei-o ao Universo, envolta pela dor MAIOR! Ou a MAIOR dor que alguma vez alguém pode sentir. Ninguém pode imaginar o que sofri, e o que sofro, e como trato por "tu" a palavra Saudade, sempre, sempre com maiúscula.

De como - ainda hoje - recordo essa nossa última noite juntos, esse presságio de uma catástrofe que dentro do meu ser se adivinhava e que eu tentava ignorar? 

Martim...

Juntos conquistámos Barça, vencemos o medo das baratas (bom, sobre isso ainda temos que conversar ambos em noites de vigília no "Covil"), e aqui estamos...sempre, sempre, e para sempre juntos, de peito aberto e coração às balas, num presente que ser quer dádiva!

Tim, meu Filho adorado, minha Vida, meu Amor, minha Saudade, minha Entrega, meu Hoje e Sempre, (para sempre), num Amanhã que me foi roubado, e agora, de alguma forma (im)perfeita, devolvido na Esperança, traduzida num desfrutar de um dia de cada vez...porque quem perdeu o Tudo, não faz co tas, aritmética assimétrica, na prova dos nove que se quer, de alguma forma, capícua!

Meu FILHO, minha Vida, meu Amor...

...TANTO, mas tanto Amor para dar...

Da sua Mãe que o adora, (e o chora todos os dias, hoje e sempre), num sorriso esculpido por si,

Mami! 



domingo, 2 de junho de 2024

02.06.2024 - One Day plus 303 - "Picture Postcards"

 



Meu adorado Filho,

Como descrever o perfume a Terre d´Hermés na simplicidade do campo primaveril? 

Haverá palavras para isso? Não sei. Sei ver as cores da Urze, da magnitude do espectro do seu roxo, dividido por mil tonalidades de púrpura brilhante, debaixo do sol incandescente de um fim de tarde tórrido, ao encarnado das Papoilas, passando pelo amarelo da Giestas, e de tantas outras tonalidades que me invadem os sentidos, seja o do olfacto, seja o da visão. Há um Todo que se assemelha ao Tudo, nestas noites de um campo despojado de pretensão, na simplicidade plena, onde as Estrelas brilham tão fortemente, que me toldam a visão!

Martim...haverá palavras que descrevam a Paz, aquela que se sente debaixo da Oliveira do Mouchão, ou na simples contemplação das e nas margens do Tejo, as que banham Alvega, num (re)encontro do Pleno, vivido na Plenitude da simplicidade do Nada, aquele momento em que viver é simplesmente o deixar baloiçar a Alma ao sabor da brisa morna que me acaricia a pele, enquanto ao longe vejo o ninho das cegonhas que alimentam os seus filhos?

Não consigo transpor em - ou será colocar por? - palavras, o enredo de um filme que me marcou a juventude: "Love - Love means never having to say you're sorry", ou, como diria Saint Exupéry, "les yeaux sont aveugles, il faut chercher avec le coeur", aquele músculo que desobedece a toda a razão, para (sobre)viver, num batimento descompassado, passo doble desafinado a "uma razão, que a razão desconhece"?

Martim...será dos filmes de que são feitos os sonhos, ou será dos sonhos que se faz um filme feito de sonho? Ambas as prerrogativas são válidas, na (in)sanidade de que é feita a existência da loucura! Meu Filho, tão perto de mim, tantos dias depois, tantas lágrimas choradas e agora, tantos sorrisos desenhados, rabiscados, rasurados a tinta permanente, azul "royal" Mont Blanc, "we're flying above", como a cegonha que hoje, em voo rasado, se lançava do ninho, para mergulhar neste Tejo raso, maré baixa da mágoa, numa maré alta da Alegria, debaixo de um azul celestial tão aberto quanto confiante, do qual passei de Mendiga a Princesa?

De quantas mil vidas, vividas e vivenciadas, é feita a Vida, num passado do qual se faz futuro, num presente do qual se celebra dádiva? Não sei precisar, nesta minha falta de jeito para os números, porque o Amor e a Saudade - intrinsecamente enlaçados um no outro - não são quantificáveis! 

Martim...de volta à simplicidade do Amor numa Casinha simples, ou ao Amor na Simplicidade de uma Casa pacífica e pacificada, tranquila nas suas memórias de mil Vidas enclausuradas no meu coração de Mãe, aqui continuo, nesta minha tão amada Casa, neste "coming home", tão estranho quanto avassalador, neste simples Campo ao qual aprendi a pertencer!

De coração aberto e de peito às balas, na Gratidão universal de quem entende o Cosmos, e com ele se funde, num abraço genuíno de um Amor que se quer único, aqui estou!

Filho meu...a quietude do perdão não é para todos, mas fica com aqueles que sem o medo, arrepiado no receio do pavor da falta, se entregam, na totalidade transcendente da confiança da e de uma música que se quer tocada, aflorada, cantada e escrita numa voz rouca, rasgada às entranhas, arrancada aos acordes de uma gitarra!

Filho...mais um Significado no seu Altar, Astronauta com o seu "petit-nom", mais mil gestos de carinho, que embalam a luz da vela que lhe acendo todas as noites, neste meu Amor sem fim, nesta minha Saudade indescritível, nesta minha Alegria campestre e nesta minha Esperança de que o Sonho seja vivido na realidade de um presente que eu espero futuro!

Filho...

...MARTIM...

...dava a vida para voltar a abraçar esse seu peito macio, que me envolvia os medos enquanto os apaziguava, na Aventura que foi ser sua Mãe, numa Quimera, que por tão breves anos foi Felicidade, a que me roubaram e que agora o Universo transpõe para o filme do quotidiano, ou será o quotidiano de um Filme? 

A Coragem (e não a sorte) protege os audazes!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami!








sábado, 25 de maio de 2024

25.05.2024 (=11!) - One Day Plus 296 - Sobre Von Trapps e Trouxas (d)escritos a tinta permanente!

 



Meu adorado Filho,

Desta vez não dá o "nosso" número, mas dá o "meu número", aquele que marca aquela que foi a viragem na viagem da minha Vida, a da antiga, claro, a da nossa, quando você ainda era corpo físico. Quando eu me podia afundar nesse seu abraço, perder-me nesse peito e sentir o milagre de o ter dado à luz. A Vida que vivi há mil anos.

Aprendi depois e a muito custo a celebrar, não a tristeza de o ter perdido fisicamente, mas a festejar a felicidade e o milagre que me foram concedidos de o aprender a sentir enquanto ser espiritual. Tal como uma cega, por entre as infinitas lágrimas que me brotaram dos olhos em mil e uma noites de insónia, aprendi a tacteá-lo em "Braille", e aos poucos, mas com uma certeza cada vez maior, consegui com clareza, interpretar a leitura da sua presença e a felicidade que senti ao realizar o facto de que, se eu ouvisse o meu coração, e deixasse que nele vivesse apenas AMOR, o mesmo iria superar a dor. 

Vivi, no último ano e nove meses, a maior dor que se pode suportar. E mesmo assim, o Universo pôs-me mais e mais e mais, e ainda por mais uma vez à prova, até me encontrar totalmente nua, desprovida de qualquer coisa, e de pensar:

- "Caramba, mais uma? Será que o Universo me quer enlouquecer de vez?"

Foi tão difícil meu Amor, tão, mas tão difícil. Mas a minha Fé e a minha Crença não me deixaram e entreguei-me nas suas queridas mãos. Porque quem perde um Filho, sabe que ele agora é Anjo - e o Céu precisa tanto deles! - e os Anjos protegem os Seus. Quem melhor do que você, minha Vida, minha Eternidade, para me proteger? E nos piores e mais negros tempos da minha vida, eu não desisti e pedi-lhe que a sua mão me amparasse.

Cheguei com os pés em sangue, em carne viva, em chaga, cheguei a rastejar, mas cheguei! E cá estamos nós. Na Casa do Amor, num largo caiado, empedrado de seixos, onde as velhinhas espreitam à janela tudo aquilo que fazemos, e as flores do canteiro baloiçam ao sabor da brisa de um final de tarde de Maio.

Chegámos à Vida, ou talvez tenha sido a Vida que chegou até nós, guiada pelas suas mãos, numa paz e numa tranquilidade onde só se sente e se vive Amor.

Meu Filho, há tanta coisa bela para ver e desfrutar, nestes degraus de pedra com o rio ao fundo, bordeado do verde dos campos, neste sol ainda primaveril que teima vagarosamente em alongar, a cada dia mais, aquelas tardes preguiçosas, em que toda eu sou sensação, num pleonasmo sensorial que me rouba os sentidos, pela intensidade com que cai sobre mim e me transporta para outra dimensão. 

Martim, meu Amor, obrigada por TUDO, por este TUDO que me trouxe! Que aprendizagem! que Caminhada! Mas caminho, e no meu Caminho, agora sim, sei que sou:

Peregrina e Princesa, Mendiga e Rainha, Senhora e Menina, e sempre, sempre MÃE, (e começo, finalmente, a "SER HumAna")! 

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami



P.S. Danke mein Schatz, meine Maus! 


quinta-feira, 25 de abril de 2024

25.4.2024 - One Day plus 266 - (Still about) the Intrepids, the Freedom Lovers, the Crazy Ones...

 



Ahhh meu adorado Filho,

Que DELÍCIA! 

Está tão, mas tão perto de mim e obrigada pelos sinais que me vai enviando, hoje especialmente. 

O "Piu-Piu" está a chocar, e a marota mudou o ninho, com o resultado de que arrebanhei dez ovos, que rapidamente fui colocar na cozinha. Não é tarefa fácil ter a Quinta a meu cargo (pela última vez), mas é uma espécie de despedida exterior do que foi a Vida (ou vida?) contida no seu interior. Foi bom. Mas também foi um enorme desafio. Foi uma aprendizagem gigante, e sobretudo, foi onde me consegui, com esforço hercúleo, reerguer. Comecei por rastejar. Depois foi de joelhos, uns tempos mais tarde, ao pé coxinho. O Universo obrigou-me rapidamente a andar, e com a sua ajuda, meu querido Filho, lá me levantei e...corri!

Daqui a poucos dias acaba esta maratona. 

Aqui por casa, limpámos e "destralhámos" tudo aquilo que nos pesava. A LEVEZA sente-se em cada canto, em cada vela, em cada aroma a tarte de legumes e "antipasti" que decidi fazer. Em casa da Oma plantei girassóis. Se se derem tão bem como a micro-horta, teremos um muro de flores, de amarelo sorridente, a piscar-nos o olho não tarda. E Endro. Vamos lá ver se o malandro do Endro decide vingar, que eu tenho muito peixe para marinar! O que sei, é que os Coentros e o Manjericão já vingaram, bem-dito estrume das galinhas! 

Filho, nunca pensei conseguir escrever isto...

...mas o que é certo, é que  - provavelmente - enlouqueci. E, contudo, nunca nunca estive tão sã! Sabe que me sinto LEVE? 

"Hungry in this cell we've made for ourselves, 
Can you hear that sound (hear that sound)
It's running, (oh running through the ground)"

It's the way we were meant to be
Tripping on our own feet
Cause we´ve poisoned those wells
We dug for ourselves!"


Mil beijos da sua Mãe que o adroa,

Mami


domingo, 21 de abril de 2024

21.4.2024 - One Day plus 262 - FREEDOM! (Agora com "background" Noronha da Costa)!

 



Bicho do meu coração,


Eu tenho tanto, mas tanto para partilhar sobre o luto, sobre esta aprendizagem incrível, sobre esta caminhada, mas sempre com uma voz de esperança, de sobrevivência, de uma espécie de alquimia da sabedoria! A noite traz-me epifanias, ou, provavelmente, viagens no "borderline" da sanidade, mas seja o que for, traz-me paz. Hoje, sobretudo, mas já lá vamos.

Encha-se de paciência, acenda um charuto, abra uma "Stout"!

Vamos lá reviver uma das nossas infinitas noites de conversas que nunca mais acabavam. Como lhe estava a dizer, entendo agora que o sofrimento extremo, aquele que (quase) nos mata, se canalizado para o positivismo da renascença com crença e convicção, nos abre uma nova dimensão, um desconhecido que, subitamente, se torna incrivelmente familiar. É como se o nosso Ser tocasse o conhecimento milenar, porque entendemos muito mais facilmente os comportamentos humanos. Contudo, o mais interessante, é que quando entendemos verdadeiramente, estamos a fazê-lo não com a cabeça, mas com o coração. E quando o Entendimento nos entra pelo coração e não pela mente, Somos. E perdoamos. E estamos, num patamar muito mais elevado, porque vemos o todo, a perspetiva da águia, e livres.

Hoje estou totalmente liberta pela primeira vez desde os últimos três anos e meio, no meu espaço. A frase não está bem construída, mas é propositado. Totalmente só. Bem, só, não. Estou com a Baga, que está estoirada, depois de uma senda infindável de escassas duas semanas de organização e de planeamento em tempo record e de mais dois dias de mudanças de levar um santo a cometer um crime, sempre de cara alegre. Os milagres existem, e este é um deles. Eu estou com menos dez quilos, porque para atingir o record, tive, há três dias, uma intoxicação alimentar de tal forma forte em cima de tudo o resto, que julguei que era desta! Mas hoje é um dia especial.

E é um dia alegre, porque todos os Outros estão nas suas casinhas organizadas, enquanto eu continuo no caos, a arrumar caixotes e cangalhos aqui despejadas, e me tento despojar de muita coisa, de muita mágoa, de demasiadas lágrimas não choradas por nós dois, mas por tantas outras pessoas e lugares, chego à conclusão de que é no minimalismo que somos mais felizes. No existencial e no físico, e quando me refiro a físico, não pretendo andar sem roupa pela Vila, matando as velhinhas de uma síncope cardíaca, mas sim de objectos. O ser humano passa uma vida inteira a acumular tralha, tralha que carrega consigo por todo o lado onde passa, que lhe dá peso na logística de como a transportar, guardar, para um dia, talvez quem sabe, a vir a utilizar. E gasta rios de dinheiro e milhões de neurónios nisto, para, de um segundo para o outro, morrer e ir sem nada. 

Ora se vamos para o outro plano sem nada, porque não começarmos nesta vida? E já que o Universo me despojou de tantos seres que amei em tão pouco tempo, ao ver-me obrigada a recomeçar, decidi despejar metade da tralha cá de casa. Bom, por hoje ainda estou no caos. Mas espero amanhã melhorar.

Lá vêm o planeamento e a logística, e o gastar de dinheiro, mas desta vez é por uma boa razão, pelo menos segundo a minha opinião. E a partir de hoje, aqui, nesta casa de bonecas, é a minha opinião que conta. Porque eu posso ter uma voz muito mais triste, mas eu ainda tenho voz.

E assim sendo, ouve-se música e estamos os dois aqui na no silêncio da Paz. Arde a vela de Manjericão, refrescando o ambiente, e o seu Altar começa a tomar forma. E é esta Paz que permite sarar um bocadinho mais. É o cheirinho da Liberdade, de podermos fazer o que queremos, quando queremos e como queremos. Somos LIVRES. Não apenas no plano físico, mas no emocional. Porque entendemos, através do facto de termos sofrido a perda máxima, a dor Maior que se pode sentir, que a partir daí toda a perda pode ser ganho. é apenas uma questão de perspectiva, de "re-set" do "mindset"

A minha tarefa neste plano ainda não terminou, porque tenho uma missão. Eu vou mostrar aos desesperados, aos incrédulos, aos mortos-vivos, a todos os que passam, neste momento, por aquilo que EU passei, que é possível sobreviver.

As sequelas são inumeráveis, os estilhaços imensuráveis, não exista dúvida NENHUMA, mas NENHUMA de que morremos. Mas conseguimos RENASCER. 

É possível. É duro como a pedra, cimentada no aço, mas é possível. Requer uma coragem (e desculpe Martim, sabe que não gosto de incentivar certas palavras do seu vernáculo, mas...) requer uma coragem do CARAÇAS, mas é possível.

Atravessamos o Inferno, mas se acreditarmos com toda a nossa essência, se a Fé, a Crença no Amor Maior e a Entrega ao Universo forem totais, se tivermos a coragem de mostrar o nosso coração rasgado já em dois, e de o abrir ainda mais a tudo o que aconteceu, de expor a sua enorme chaga sem vergonha nem pudor, e sobretudo sem medo nem terror, então sentimos, como eu, que os nossos "Épicos" estão sempre connosco. Sinto-o meu Filho, envolvem-me os seus braços celestiais, sei que está aqui, ao meu lado. Sei com toda, mas toda, toda, toda a certeza do meu coração de Mãe, que esteve aqui comigo, colado a mim, nestes últimos sete meses de pesadelo que acabei de atravessar. Não fosse o seu Amor que sinto em cada poro, não teria conseguido, pois o que atravessei foi sobre-humano, além de desumano. Mas estou cá. E adorava poder mostrar aos outros órfãos de Filhos roubados, de que é possível. De lhes contar a minha história, não porque eu seja uma qualquer heroína, mas simplesmente porque eu passei pelo mesmo. Com algumas "pequenas" agravantes "on top". E sobrevivi fiel aos meus cânones, aos meus princípios e à forma como EU senti que devia e queria viver os primeiros (mais longos e mais difíceis) tempos do meu luto. E nestes tempos perdi Amigos, (mas ganheir outros), perdi duas cadelas da forma mais dura que se pode perder, a última na véspera de Natal, e nessas formas das suas mortes, revivi a sua. Mas ganhei a Baga. o melhor cão que alguma vez tive. E perdi um Paraíso que eu descobri e que amei com todas as minhas forças. Um Paraíso onde plantei árvores de fruto, ajudei a realizar o sonho de uma horta, onde cada detalhe, cada pormenor foram pensados com amor, (e com algumas sãs discussões sobre decoração), um lugar especial, onde elas estão enterradas, no mesmo sítio do sonho Maior que tive. Mas ganhei a Liberdade de expressar o que sinto, em alto e bom som, nas minhas quatro paredes, sem crítica constante, e a ouvir o som da afirmação sem duvidar da minha própria voz, enquanto encontrei solução para que a sua avó tenha uma qualidade de vida indescritível, enquanto eu posso finalmente caminhar ao meu próprio ritmo, e não à velocidade que ela quer. E é neste meu ritmo, ao meu ritmo e com o meu ritmo, que irei dançar este caminho. Sem medo, porque sei que o tenho comigo! E que forma de melhor honrar e agradecer essa sua constante protecção, de que sorrir e agradecer a dor? Transformando a Dor em Amor! 

FREEDOM! Que maravilha! 

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami


P.S. O seu Altar ainda está um "work in progress". Prometo versão final em breve! 


quinta-feira, 11 de abril de 2024

11.04.2024 - One Day plus 252 - "Sketch for Summer" :-)

 





Filho meu, Amor do meu Coração,

Completo hoje o círculo do sofrimento. O MAIOR que alguma vez podemos sentir. E com isso, alcanço um importante patamar: o da Paz do Desprendimento terreno. Dirão os incrédulos e os pragmáticos, que enlouqueci. Bom, mas isso já ambos sabemos desde o dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois. E na (in)sanidade de quem aceita e compreende de que NADA é nosso, abrimos as mãos. 

Confesso-lhe que ouvir The Durutti Column com iPhones é genial. E Conan Mockasin ainda mais. Com "Caramel", por momentos pensei, que o do lado esquerdo tinha ficado sem bateria, mas não. É mesmo assim. "Mindblowing". Embora "Mindblowing" seja(m) a(s) minha(s) vida(s). 

Está uma noite de sonho aqui no campo. Estive sentada cá fora, a admirar o ocaso, crepúsculo que por acaso - ou por cortesia -  se desenhou no horizonte do meu olhar, e vi mergulhar o sol na Terra incandescente e rubra, polvilhada de lilás com pintinhas amarelas e quadradinhos laranja. Foi...ÉPICO.

É difícil descrever o que passa pela minha cabeça e repousa no meu coração. Talvez seja "Sketch for Winter" pelo que relembro, mas é sobretudo um tempo grato. Vivi tanto, aprendi tanto, perdi tanto, e voltei a ter a oportunidade de ganhar. Que enorme aprendizagem meu Deus! O Universo ensinou-me o conceito de frugalidade e, ao mesmo tempo, a felicidade de poder sentir o espanto. Perante os milagres da natureza que se renova, e da esperança que nunca morre. Espero que possa ser um exemplo disso para o seu irmão. Tão grata por ele, tão "sui generis" na sua forma de ser, tão inocente (ainda) na sua forma de encarar a vida e, ao mesmo tempo, tão sábio e sobretudo, tão meu Amigo. 

Hoje plantei a MINHA micro-horta. Mas a Abundância vai chegar. Será a abundância na e da frugalidade, mas nunca menos gratidão se deve sentir por ela.

Filho, obrigada por este fim de tarde de sonho, por me ter dado este pequeno quinhão de terra, pelo estrume das galinhas de cujos ovos sinto (algumas) saudades! Até elas trazem histórias agarradas às penas, na sua árvore genealógica da memória de tempos tão divertidos, entre roseiras, Rouxinóis, Pica-Paus e jogos de Gamão. 

De quantas memórias é feita uma vida? E várias? Uma coisa sei. Quando neste ensaio de verão, estivermos a saborear uma falsa "Vichyssoise" feita de courgettes do meu quinhão, e aromatizada com Cebolinho do meu vaso, nessa altura terei a certeza de que me (re)encontrei. 

"Never Known"... again The Durutti Column...

Termino com Air. "La Femme d´Argent".

O Luto é intemporal. Mas temos duas opções. Ou fazemos dele nosso inimigo, ou nosso aliado. Iço a bandeira de Prata, ou "Silver Lining"

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami

P.S E como já sei que deve andar ocupadíssimo aí no Céu, fica a subtileza, e aprenda, que eu não duro para sempre:

"SILVER LINING" - (noun)

!1. A hopeful or comforting prospect in the midst of difficulty.

2. A good aspect of a mostly bad event.

3. A consoling aspect of a difficult situation."


05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...