Meu adorado Tim,
Tenho andado longe das nossas cartas - destas assim preto no branco, porque as outras são constantes - por várias razões, que lhe passo a explicar: A Oma lá fez a intervenção. A primeira parte correu bem, mas temos de esperar mais algumas semanas, que mais parecem anos, para sabermos se está tudo devidamente consolidado. Lá bem instalada está ela: cá fora onze graus no pino do "calor", lá dentro vinte e três, portanto temos de zelar para que assim permaneça, quentinha e aconchegada, mimada q.b. e pelo menos a sentir-se mais acompanhada.
Entretanto, apanhei uma virose ou uma intoxicação alimentar tão grande, que fui parar ao hospital. Sentia-me tão mal, tão mal, que pedi ao Miguel para não me levar para Santarém, porque achei que não iria aguentar a viagem. Ora trocar "isso" por "aqui" é uma loucura, mas demonstra o quão doente estava. Demorei uns dias, mas hoje já me sinto melhor.
Tudo isto também me tem levado para longe do meu novo "hobbie", que me fascina cada vez mais, e do qual lhe venho falar.
Bom, este passatempo - escrevia eu - é talvez a forma mais perfeita que conheço, para envolver o ser humano em várias áreas ao mesmo tempo, desenvolvendo, portanto, uma série de capacidades e de aptidões em simultâneo. O que me ocorre primeiro é a Concentração, sem ela não se costura. Depois o Cálculo: entra a Matemática, ciência que me transcende, e que como você se lembra, tantas gargalhadas vos arrancava em criança, quando o Pai vos contava, detalhadamente e a morrer a rir, sobre a desgraça que eu era aos números! Soma-se a isto a Motricidade, pois sem saber manter o pano e as linhas agilmente nas mãos, vemo-nos presas num emaranhado labiríntico, que acaba por encravar a agulha, interrompendo-lhe a dança, e esta, furiosa e com birra, resolve partir-se. Estamos então perante outra enorme virtude, necessária a quem aprende a coser à máquina: Perseverança, que se deveria escrever em letra de imprensa, para libertarmos essa salgalhada. Segue-se a Física. Quem nunca viu uma máquina de costura por dentro, não imagina a precisão da Mecânica das peças da mesma, que, miraculosamente, e numa meticulosa exactidão, num passe de magia, cumprem as suas funções. Mas agora é que está o caldo entornado. Porque temos que sentir Coragem, e entrar nesse Mundo encantado da Precisão. Com chaves minúsculas, e dedos de fada, e "Um olho no livro de instruções e outro nessas assustadoras entranhas", vulgo, "um no cavalo e outro no cigano", desenroscamos um pequeno parafuso, e então, bom, então desesperamos. Encontramo-nos perante um enorme desafio, literalmente chamado "Encontrar uma agulha num Estaleiro", porque palha não há, mas há metal com fartura. Dá-se então uma amálgama de (re)acções que acontecem em nanossegundos. Com autoconfiança reforçada por visualização positiva, e com toda a nossa Fé, porque suplicamos a todos os Santos, lá conseguimos encontrar o resquício da birra da nossa Prima Ballerina. Após horas de tentativa e erro, quando finalmente cosemos uma bainha de trinta centímetros, libertam-se milhões de endorfinas, e sentimos Completude, o objectivo de muitas formas de meditação que conheço.
E à medida que vamos aumentando essas bainhas, surge a Criatividade, ao idealizarmos os nossos futuros projectos, encontrando Elação quando os conseguimos transpor para o papel, daí para o tecido, depois para o corte, até finalmente, termos a obra finalizada. À medida que a nossa dançarina vai aprendendo a rodopiar, envolta pela destreza das linhas, somos levadas através dos tempos até às nossas mais tenras memórias, aquelas que estavam esquecidas faz muito nas gavetas empoeiradas das recordações felizes, e no meio desses resquícios de tempos despreocupados, lembramo-nos de como a Alice punha os olhos, não nos pontos, mas no tecido. Não era a bailarina que a preocupava, era o chão que ela pisava, e nesse seu pisar, ia deixando as suas peugadas coloridas.
Filho, querido, é bom ter alguns destes momentos mais suaves, nestas noites geladas no centro de Portugal, serões invernosos, onde você e todos os milhões de Anjos que já partiram, contrastam num céu incrivelmente límpido, e de um azul tão profundo que roça o negro, enquanto no jardim se ouve a minha Coruja, momentos em que larguei os ensaios do meu bailado, para coser a saudade que sinto por si, no brilho que vislumbro pelas portadas da janela.
No SEU brilho!
Mil beijos meu Amor!

Cada carta/ texto/ conversa sua com o Tim enchem -me o coração de ternura. Não o escrever lindamente o que é desnecessário dizer querida menina do meu coração. Que importa isso quando o conteúdo das suas “ conversas” com ele são de uma ternura e um amor tão grande, de uma saudade e tristeza corajosa com que luta diariamente mas tenta superar de uma forma tão simples e bela? É querida sobrinha de coração, minha menina/ mãe, lutadora, procurando encontrar forma de continuar uma vida meio cortada mas que sabe ser o que o seu menino anjo quereria! Relembro tempos felizes. Relembro tanta coisa é apenas me lembro que a única coisa é o abraço apertado que gostaria de lhe dar pessoalmente. Sem palavras, sem nada a não ser sentir o seu coração querida. Há silêncios que nunca devem ser quebrados. As melhoras da mãe que bem precisa de uma boa recuperação e afecto. Um beijo querida. Silencioso mas que o seu coração sinta.
ResponderEliminarTia querida, e eu sinto esse abraço aqui, nestas noites frias, e sei que a Tia e eu nos encontraremos em breve, algures no Tempo, para a Tia mo dar pessoalmente! Grande beijinho e obrigada por me entender!
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