Meu adorado Tim,
Cá estou eu de novo a escrever-lhe o que não tenho tido coragem para colocar preto no branco. O ano terrível de 2022 acabou. Finalmente. Faz amanhã cinco meses sem si da forma como sempre conheci. As saudades são indescritíveis, mas o Universo deu-me um presente.
Ontem à tarde nasceu o Trinta e Um. Um cabritinho amoroso, filho da Branquinha, que veio trazer alguma Alegria a esta casa. Os animais são uma verdadeira terapia para mim, ver as interacções, as brincadeiras, dar tangerinas às ovelhas e à Mocha, que hoje se empoleirou com as patas dianteiras no meu peito, na sofreguidão de comer mais do que as outras, e que me ia deitando ao chão. Fiquei com lama até às orelhas, mas foi um bálsamo, porque quando estou com os bichos, esqueço-me de quase tudo. É uma forma de nos ligarmos ao Cosmos, que me apazigua a dor e me faz sentir parte do Universo.
A Oma está finalmente um pouco melhor, e para a semana vai para a nossa casinha, onde se vai seguramente sentir bem. É muito mais pequenina, e fácil de aquecer, e tem todo o conforto para ela começar a ser mais independente.
Chove como se não houvesse amanhã, já temos os muros, pintados de fresco há quatro meses, a ficarem malhados de tons verdes e castanhos. Habituei-me que as casas das quintas não podem ser perfeitas, são grandes demais, e ficam no campo, logo a natureza conquista o seu espaço aos poucos, e até dá uma certa "patine". Mas está quentinho cá dentro, e a enorme lareira da salinha aquece a casa toda, e tira o desconforto da humidade. Acho que se não estivesse acesa todos os dias, já teriam começado a nascer cogumelos nas paredes. É bom comer os nossos ovos, e agora que a Branquinha deu à luz, termos o seu delicioso leite para beber. A natureza acalma-me a dor.
Nunca pensei que me habituasse tão bem a viver de galochas e perpetuamente com lama, ou sujidade na roupa, mas é precisamente essa forma de simplicidade de vida que me faz bem e me ajuda a conseguir levar esta caminhada para a frente.
A dor não diminui, nada disso, ela aumenta à medida que o tempo passa, mas torna-se uma dor menos pungente. Não menor, mas menos dolorosa, perdoe-me o pleonasmo. E quando a dor se torna menos áspera, só por si, isso faz-me sentir um alívio enorme. Não quero voltar a passar pelo que passei na noite de Consoada.
Estas pequenas grandes, enormes, coisas que acontecem, como vermos nascer um cabrito, são acontecimentos que equilibram, de alguma forma, a intensidade da mágoa, porque nos distraem.
Tenho saudades Filho, imensas, infinitas, inenarráveis, mas tenho também alguma Paz. Paz que conquisto a pulso todos os dias, sobretudo naqueles em que não me apetece sair da cama, não me apetece fazer nada, mas que me obrigo a isso, sob pena de morrer, neste caso não na praia, mas no campo. Vou continuar, porque seria assim que você iria querer, como não sei, mas um bocadinho todos os dias.
E foi isso que lhe vim aqui dizer meu Amor querido. Ontem fez-me falta o seu telefonema à meia-noite em ponto, em que passávamos o ano ao telefone um com o outro. Faz-me tudo falta, tudo, sobretudo o aconchego do seu abraço apertado, mas é assim que a vida me quis fazer passar, e irei aqui continuar para honrar a sua memória.
Saudades suas meu Amor querido! Só peço uma coisa para este ano que hoje começa: que o meu coração encontre, todos os dias, alguma Paz, que me permita (con)viver com esta saudade constante que me assola!
Mil beijos da sua Mãe que o adora,
Mami

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