domingo, 8 de janeiro de 2023

8.1.2023 - One Day minus 159 - Tanto!


 

Meu adorado Filho,

Tenho andado meia longe das nossas cartas, conquanto fale consigo, em silêncio, a todas as horas do dia. Descobri um novo hobbie, e com isso, revivi momentos da minha infância. A Avó Lourdes, no quarto dos arrumos, tinha uma Singer, na qual, todas as terças-feiras, a costureira vinha fazer arranjos, emendas e roupas novas. Lembro-me, de em criança, adorar mexer nas canelas - achava-as amorosas, porque eram minúsculas e lembravam-me carrinhos de linhas de bonecas, e de ficar fascinada sempre que a costureira, acho que se chamava Alice, conseguia enfiar a agulha e fazer magia nos tecidos. Nunca me achei capaz de sequer fazer uma bainha - certo, confesso que ouvir constantemente que uma canhota nunca iria aprender a coser me marcou - muito menos de entender os mecanismos de uma máquina.

Se você se lembrar, recorda-se perfeitamente que nos últimos anos eu falava constantemente que queria fazer um curso de costura. Bom, acontece que nada "acontece" por acaso, e descobri a Gigi, e me inscrevi nas aulas com ela. Com os vales da Amazon que recebi do escritório, decidi-me a algo que em tempos normais, jamais faria: comprei uma máquina de costura. Valha-nos o século vinte e um e os tutoriais do youtube, o que é facto, é que aprendi a mexer na máquina sozinha. Depois da primeira aula com a Gigi, e de muitas noites de roda da máquina, de partir várias agulhas, destruir um número significativo de carrinhos de linhas, e de decorar o livro de instruções, hoje consegui fazer o meu primeiro saco de tecido para guardar as tesouras.

Estou orgulhosa!

A costura é, tal como o restauro, uma espécie de meditação, com a vantagem de não fazer tanta porcaria, nem de precisar de tanto espaço. O grande senão, é que, pela primeira vez aos cinquenta e seis anos, me vi forçada a - oficialmente - comprar uns óculos de ver ao perto, senão não conseguiria. Mas depois de dar mais essa vitória ao Universo, a de que estou oficialmente pitosga devido à idade, confesso que o prazer que retiro de costurar, é imenso. Certo, dou a mão à palmatória, o melhor de tudo nem é o sucesso, é o de ser auto-didacta e de aprender sozinha. Na terça-feira vou para a segunda aula, já com o plano ambicioso, de fazer umas calças. Superar estes pequenos obstáculos ajuda-me a continuar neste caminho tão duro, tão solitário, tão triste!

Tenho tantas saudades suas meu Amor pequenino, meu Tim, minha Vida! Saudades de tudo, saudades de si, das nossas conversas, do Amor traduzido nas palavras, da sua ânsia, da sua sede de viver, tão parecido com o que eu fui durante cinquenta e cinco anos. 

A Oma já mudou para a nossa casinha e, ao preparar tudo para ela ter o maior conforto possível, tirei os casacos do bengaleiro do primeiro andar. Ao movê-los, veio-me uma ténue recordação do seu cheirinho, ainda suavemente impregnado nos tecidos, e as lágrimas correram livremente. Aquele seu cheirinho sempre tão aprumado, tão doce, tão suave, tão...

SEU!

Que saudades meu Amor! Que falta, que caminho tão duro, tão estranho, tão desumano na sua injustiça. 

De resto, a existência segue o seu curso, e as pessoas pensam que a vida continua. Continua, mas não é vida. É sobrevivência. 

Hoje lembrei-me do El Sur. Da salada César, com "croutons", daquele parmesão, cujas lascas se derretiam na boca, naqueles fins de tarde de fim de Verão, do calor de Barcelona, da Alegria sempre que nos reencontrávamos, de si à minha espera em Plaza Cataluña. De saltar do autocarro vinda do aeroporto, directa para o seu abraço, forte, genuíno e tão cheio de carinho. Dos gritos que eu dava sempre que vislumbrava uma barata nojenta, e você se ria de mim. Lembro-me do seu quarto, de quando fomos comprar almofadas novas, toalhas, frigideiras e outro número sem fim de coisas para aliviar as suas saudades por estar longe de casa. 

Quero voltar aí Tim, onde fomos felizes, eternos cúmplices, de descobrir cidades consigo, no fascínio constante pela Vida e pelas surpresas boas que ela nos trazia. Dava a vida e tudo o que tenho para voltar aí meu Amor, para o ouvir falar do próximo relógio que iria comprar, para discutir os melhores vinhos do ano, e os restaurantes onde iriamos provar as iguarias, para o ouvir a contar as últimas peripécias, e rir às gargalhadas. Como é que se reconstrói uma existência após a morte de um Filho? Como? Haverá algum dia uma saída deste buraco negro? Ou tratar-se-á apenas de uma aprendizagem nova de uma de vivência diária com uma dor incomensurável? Será que se aprende a viver com esta dor? Ou serão os dias nada mais que uma sucessão de ausência física, de saudade, de morte em vida?

Não sei meu querido Filho. Sei apenas que...

...a SAUDADE é algo que dói tanto, mas tanto, tanto, tanto, que não há NADA que a atenue. 

Tim...

TANTO!

Mil beijos,

Mami


1 comentário:

18.12.2025 - One Day plus too many...um dia depois da Tiá, um dia antes do avô Gão, uma semana exacta antes do Natal!

  Meu adorado Filho, Há demasiado tempo que não lhe escrevo - demasiado - esquecido, procrastinado, adiado, em mil e uma coisas. Passaram os...