terça-feira, 12 de março de 2024

12.3. 2024 - One Day plus 222 - "Coutûre en carton"

 


Meu adorado Filho,

Hoje desfiz o atelier, e custou-me ter de empacotar a máquina de costura. A máquina, e tanta outra coisa. Mas não é o lugar que importa, é o que levamos connosco no coração. E eu sempre disse, que se a casa um dia pegasse fogo, as únicas duas coisas que eu tentaria salvar seriam o seu Altar e a minha máquina. Um está intrinsecamente ligado ao outro. Ambos vão no meu coração. E nas minhas mãos. E em todo o meu Ser. 

A sua Luz invade-me a Alma, tal como o sol dourado deste fim de tarde quase primaveril me invade o semblante, adoçando os traços que começam a relaxar. É essa Luz que deixo entrar em mim, para me guiar e me aquecer. Sem a sua Luz, que agora já não precisa de me enviar sinais para eu a entender, porque essa Luz está em mim, ela nasce do âmago da minha Alma e guia-me, não conseguiria. Faltar-me-iam as forças necessárias.

E no intrincado puzzle que é o xadrez da vida, nesse monopólio de surpresas, escritas em mil idiomas tais qual scrabble bem jogado, por vezes, também o póquer nos vai dando umas mãozinhas, e tudo se conjuga neste jogo onde tudo se move; em ínfimos passos, mas move.

É bom sentir o movimento dessa ondulação. É como se de uma mão de criança se tratasse, que com um colete encarnado e branco às riscas maior que ela, sentada num barquinho de vela branca, mergulha, com gosto, os dedinhos na água salgada. Que saudades das suas mãos meu Filho! Do seu toque enquanto humano, do cheirinho da sua pele, sempre tão macia e fresca. 

- "Oh Mãe, tá doida Mãe? Pelo Amor de Deus, Mãe", naquela sua voz tão doce e ao mesmo tempo tão expressiva das suas emoções. Que saudades de si enquanto ser físico. Mas eu ouço a sua voz dentro de mim, exactamente como se aqui estivesse. E está. Apenas de outra forma. Tal como o meu luto, que começo a tratar por tu. Qualquer dia conseguimos passar meses em amena cavaqueira sem nos chatearmos. Mas até lá ainda tenho muito que chorar. Mas está melhor.

Foi muito muito muito duro tentar seguir este caminho da Luz, mas foi o caminho certo. Pelo menos foi o meu Caminho. Matou-me uma vez mais ter de me desfazer das suas coisas apenas um mês depois da sua morte. Não, errado, desfazer não, dar-lhes outro destino, mas foi muito bom para mim ter de passar por mais essa provação. Esgotou-me a voz ter de explicar aos outros porque precisava de tempo, do meu Tempo e não do tempo que os outros consideram o Tempo ideal, porque quis fazer as coisas à minha maneira. Porque à medida que o meu coração se abria a esse caminho, a vida foi acontecendo, obrigando-me a deixar fluir.

Aprendi que é muito mais fácil deixar ir, sentir a ondulação tal como a criança, do que a contrariar. Gasta energia. E tempo. E outros recursos que são muito mais preciosos, porque nos ajudam a construir, tal como o jogo do Catan.

O que é a Vida senão construir novas "aldeias"?

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami

sábado, 9 de março de 2024

8.3.2024 - INFINITY plus 1 - O Milagre do Amor, acendamos a vela!

 


Meu adorado Filho,

Espere só um segundo, tenho de acender a vela do seu Altar. 

Pronto, já está, agora sim. 

O aroma fresco a manjericão, eucalipto e menta paira no ar silenciado deste campo encharcado, ensopado do Amor que emana a jorros do meu coração. 

Martim...meu Filho, minha Luz, meu Anjo da Guarda, não tenho palavras. Não as tenho, porque o Universo provou que sou eu quem está certa: a plenitude (ou quase, sejamos sinceros!) da Paz, atinge-se de coração aberto aos Outros, de peito às balas. Foram precisos cinquenta e sete anos, alguns meses e uns dias, para perceber - finalmente - que tenho razão quando sinto que só assim se consegue. Só assim se consegue.

A Dor Maior só é passível de suportada através do maior Amor que conseguimos oferecer, dádiva do nosso ser mais íntimo, dos nossos sonhos, das nossas memórias. Filho, como poderei alguma vez agradecer o sonho que tive, onde me foi dada a benção de tocar a sua pele, afagar o seu cabelo e ouvir a sua voz de criança a falar comigo? Oh meu Filho adorado, que honra ter podido, um dia depois, prestar-lhe homenagem, com uma pessoa como a Júlia, com  tanta sensibilidade e entendimento.

Filho, ainda sorrio quando os cépticos me desafiam, e só digo isto: dia 7.3., ou seja, precisamente um ano e 7!!! meses depois, saí das Trevas e abracei a Luz na totalidade da sua infinita plenitude, que se varram os pleonasmos para baixo da mesa, porque o que conta, são os números enquanto sinais.

Martim, não tenho palavras. O meu coração transborda. De tudo, recheado de Amor. Quantas lágrimas verti no último ano mais sete meses? Talvez milhares de vezes mais do que a maioria dos Seres Humanos. Quem consegue descrever melhor o sentimento da SAUDADE intrinsecamente sentida em cada átomo da minha Alma e em cada poro da minha pele? Quem senão eu?

E, conquanto, ao mesmo tempo, quem sente maior Amor e Gratidão? Sabe Filho, já percebi que podemos tentar expiar os pecados em Vida, para, na vida, almejarmos à VIDA eterna, aquela que não tem plano, porque não é preciso planear o horizonte, uma vez aue ele sempre lá esteve, ao alcance de um perdão, de um abraço, de compreensao.

Somos milenares Martim e não tenho palavras para lhe agradecer o ter-me escolhido. Através do maior sofrimento que se pode conhecer - e há quem me dissesse reconhecer - somos parte de um Universo que não tem paralelo. 

Vivemos na saudade da partida prematura. Mas também celebramos a (sobre)Vivência, hoje com maiúscula, porque tão grata pelos meus Terrenos, humanos e canídeos. 

Ah, Martim, tão bom sentir esta Luz de Força e esta Força de Luz...

Celebremos o AMOR!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami

sexta-feira, 8 de março de 2024

7.3.2024 - One Day plus... INFINITY, hoje propositadamente sem número, porque foi no dia 7!!! - Sobre NÓS!

 



Meu adorado Filho,

É tarde. E estou cansada, mas de coração tão cheio. 

Espero que esteja feliz. Eu estou. Muito. 

Acho que lhe fiz uma grande homenagem. Aquela que você merecia, mas acima de tudo, a que todos os Pais merecem e os Filhos do Céu também. O Céu precisa de Anjos e nós de Esperança. E hoje fizemos a ponte, graças à Júlia. A ponte entre este e o outro plano, o seu.

Martim...não me vou alongar muito, porque sei que você esteve presente, a espreitar, levemente inclinado, como sempre, sobre o meu ombro direito, e assistiu a tudo, Foi intenso, catártico, especial. Como só uma Mãe, a recordar um Filho assim, pode ser. Fomos, estivemos, estamos e continuaremos. Sei qual a minha missão na Terra, sei - finalmente -  qual vai ser a minha jornada, e sei que o Universo está em movimento, como se de um perpetuum mobile se tratasse. Sei qual o meu caminho. Sei que tenho uma missão. Uma missão de Amor.

Filho, tenho o meu coração a transbordar. Foi difícil, muito, muito, muito difícil. Mas gratificante. E especial. 

Foi...ÉPICO!

Amo-te meu Filho lindo!

Obrigada pela força, pela coragem, pela inspiração, pelas mães e pais que cruzam o meu caminho, pelas lágrimas que partilhamos e pela saudade que sentimos! Obrigada pelo Amor e por tudo o que vivi consigo nos (breves) 26 anos da sua Vida. Obrigada por ter nascido e crescido em mim, comigo e por mim.

A nossa Vida está a começar.

Vamos arregaçar as mangas que há imenso para fazer, muitos pais para consolar, muito luto para aliviar.

OBRIGADA meu Amor!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

21.2.2024 - One Day plus 202 - exactamente um mês depois, e foi por acaso: "ashes to ashes"!

 



Meu adorado Martim,


Começar? Mas começar por onde, se o fim é o princípio e no princípio era o Verbo? Como explicar ao âmago do meu coração, e ao tronco do meu cérebro, que não tenho conseguido sentir a dor, anestesiada por tanta, mas tanta pancadaria, que mais se assemelha a um ringue de boxe?

Não tenho resposta para essa pergunta que não sejam duas hipóteses:

- Fui iluminada por um Anjo, Alma que me (e)leva para além da dor humana, Filho protector, colo que me aconchega neste desalento, praia onde desaguam os destroços do meu ser, atirados por vagas gigantes, filhas de tempestades sobreviventes de ventos agrestes e cortantes, herdeiros do bisturi da saudade, a que me rasga diariamente as entranhas. 

Saudade que, tal como um tesouro resgatado, resguardado e protegido, é escondida na areia, cova escavada, esgravatada e sofrida com as unhas da tristeza, garras afiadas que me rasgam a Alma e nela tatuam, na cor-do-meu-sangue, de novo aquele sentimento de não-retorno, aquela palavra que traduz tudo, porque tudo significa: SAUDADE!

- Estou anestesiada e sofro de patologia de dupla personalidade, tratando na terceira pessoa um "EU" que desconheço, uma qualquer "Joe Doe", orfã de uma Felicidade, filha do infortúnio que bate à porta de forma inusitada, em passos acelerados, e consigo leva toda a roupa branca que corava num estendal.

Qual delas não sei..."São Cinzas, Senhor", as que trago no meu regaço, tão sofrido, tão martirizado, tão massacrado, mas que se irão transformar em flores de Amor, campestres e frescas, como os lírios roxos que já teimam em brotar, nesta Primavera efémera que nos assola, neste campo abençoado!

São cinzas, Filho, porque o que nasce das cinzas de um Filho, é sofrido, é dilacerado, é chorado até ao âmago, tal como as pequenas sementes que plantei em Setembro passado, e que só agora deram flor, mas só algumas, outras morreram, fazendo dos vasos largos de barro, cemitérios de cores que não viram a luz do dia, rebentos enterrados no escuro da terra. E das cinzas nascem flores, mas também nascem cinzas. Ou as cinzas voltam a arder, no cinzento de dias tristes, para das cinzas, algo brotar. Quem sabe, um dia, quando todas as batalhas estiverem ganhas (ou perdidas, entreguei ao Céu!), e finalmente eu puder respirar, sem ter medo que o bafo do meu suspiro acorde os monstros universais uma vez mais, para me assombrarem, martirizarem e me torturarem, quem sabe nesse dia, num alpendre branco sobre uma Quinta perdida algures no interior, onde ao longe perto se (ante)vê uma horta a dar Vida, alimento e sustento a uma família, três gerações se encontram. A Oma, que de cabeça branca adormecida sobre o peito, ronrona uma sesta preguiçosa enquanto eu lhe rabisco mais uma carta, para lhe descrever a sua sobrinha, minha neta e dela bisneta, que pequenina, num vestido branco de "piquê" com favos bordados a cor-de-rosa, brinca com uma cadela preta, que lhe lambe a cara toda, provocando-lhe gargalhadas.

E é essa (ante)VISÃO dessa Paz que me acompanha, nesta Caminhada! Façamos das cinzas...

...AMOR e ESPERANÇA!

Mil beijos de cor(ação) meu adorado Filho, para contrabalançar a dor,

Com muito Amor, da sua Mãe que o adora,

Mami

 


domingo, 21 de janeiro de 2024

21.1.2024 - One Day plus 171 - Da (In)saninade! ou..."All that we perceive"

 




Meu adorado Filho,


Há quanto, quanto tempo, e, ao mesmo tempo, que rápido que passa o tempo, este ora fluir, ora arrastar dos dias, do amanhecer ao ocaso, em dias que acontecem por acaso, sem qualquer nexo, numa causalidade que não cessa de me espantar, porque neste tempo que se arrasta a uma velocidade furiosa, muita coisa acontece. E nesse acontecer, mudamos. 

Hoje, aliás ontem, porque já passa da meia noite, tive uma notícia maravilhosa. Bem, nem é bem uma notícia, é uma transformação. Uma das minhas Mães mais queridas, aliás, a mais querida, mais uma Guerreira, que ofereceu o seu único Filho ao Céu, está transformada. Que maravilha que foi ouvir a sua voz solta, célere, viva e ágil, a brotar informação, enquanto antigamente se arrastava, num lamento envolto na tristeza da lamúria, num compasso desfasado e desafinado de uma melodia fúnebre.

Nutrimo-nos uma à outra. Choramos juntas, rimos juntas, e uma à outra vamos contando sobre os sinais que recebemos. Vamos partilhando memórias, falando deles, que são tão parecidos, dos nossos Filhos do Céu, e nessa partilha, conseguimos viver um luto sem nos deixarmos envolver pelo luto. Viver o luto é tratar por tu a SAUDADE, que não diminui, antes pelo contrário. Ela aumenta, à medida que cresce a soma dos dias, em que finalmente aceitamos que eles já não estão neste plano. Que partiram. Mas a aceitação, aquela muda resignação que não queremos deixar entrar, contém em si um segredo: ela SUAVIZA a dor. Ela não diminui a sua intensidade, ela apenas - e, conquanto faz TANTO - ela lima-lhe as arestas afiadas, de forma a que não nos rasgue tanto as entranhas. Ela teve um lindo presente de Natal do seu Filho adorado. Uma dádiva que não tem preço, porque vem do Universo, daquele lugar omnipresente, onde os nossos miúdos se encontra(ra)m. Um enorme coração se desenhou no Céu, feito por nuvens. Quando ela me enviou a fotografia, fiquei tão feliz por ela, porque se há alguém que merece, é esta Mãe. Esta Mãe que não conheço pessoalmente, cujo corpo nunca abracei, cujo peito nunca estreitei contra o meu, é talvez uma das pessoas mais importantes da minha nova vida. precisamente porque ela é a prova provada de que o Amor não necessita de um corpo físico, porque é força universal. Não ponho qualquer dúvida, e muito menos em dúvida, (d)a profundidade da amizade que nos une, do calor da ternura da voz com que nos consolamos, na generosidade de uns braços escancarados, porque entendem a dor decalcada, de Mães roubadas, de Mães que questionam muita coisa, mas que em vez de chorarem a partida, agradecem a presença, por muito fugaz que ela tenha sido.

Meu Filho, há dias em que duvido das minhas memórias, e nesses dias sinto-o longe, muito, muito longe, o que me custa, mas que me sossega, porque o sei muito perto do Divino. Nesses momentos de esquizofrenia, chego a duvidar que fui sua Mãe, porque me parece que vivido noutra vida. São momentos que nos fazem questionar muita coisa. De todos os meus Guias, você é o que está mais perto do Sol. Mais perto da Luz. Mais perto - repito - do Divino. E nessa proximidade, está longe, muito longe de mim, e nesse afastamento, vive em mim, e a sua força divina entra em mim e dá-me uma resiliência de que jamais sonhei que seria capaz. 

Essa resiliência raia a (in)sanidade, porque é de tal forma forte, que não sei onde a vou buscar, mas vou, numa rebeldia que ninguém me tira, porque encerra em si a sua também. 

Meu adorado Filho, obrigada pelas melhoras da Oma. Sou agora "multitasker", malabarista de tarefas, desde há duas semanas também género "meals on wheels", separados em minúsculos tupperwares de dose única, para que seja mais fácil. E tanto amor que ferve e depois congela em cada um!

Martim, obrigada pelo seu sinal. Obrigada por me ter apontado o coração do Anjo e pelo canto da coruja de há dois dias. Quanta saudade tinha dela. Obrigada meu Filho por estas visitas. Este Anjo, que comprei para por no meu presente de Natal, que você e o Mano me ofereceram, mas que não tinha etiqueta, e a Oma, na sua perfeição natalícia, vos obrigou a pedir-me para eu comprar. E de você não querer escrever no Anjo, porque me disse: 

- "Oh Mami, que estupidez, já lhe demos o presente, o Natal já foi ontem, para que é que vou escrever?" 

E eu fiz uma birra tal, que você e o Mano desistiram, e lá rabiscaram qualquer coisa. Foi esse o nosso último Natal juntos. Foi Felicidade pura, foi loucura, foi acampamento naquela casa minúscula, onde fomos tão felizes, e que você dizia que ficava por detrás do sol posto. Pois é precisamente nesse crepúsculo desse horizonte, onde vivemos agora, e onde o celebro, meu Filho, sempre que passeio pelo campo, depois de finalmente ter podido lavar e estender roupa ao fresco, porque esteve um dia de Sol. 

A noite está gelada, estrelada e escura, o meu coração quente, porque aconchegado por um braseiro incandescente, que jamais se apagará, porque quem é recordado nunca morre.

Boa noite meu Anjo querido, mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

2.1.2024 (para mim ainda 1.1.2024) - One Day plus 151 - BAGA

 



Meu adorado Martim,

Há tantos dias que lhe queria escrever, mas não conseguia encontrar as palavras no tumulto do meu coração. Agora, mais apaziguado. Ou menos dorido, sei lá eu. 

Meu Filho...mataram-me a Poppie no dia 24.12. ao final da tarde. Foi atropelada e fugiram. Era um dia "normal" de véspera de Natal, tal como o dia dois de Agosto de dois mil e vinte dois. Até que um telefonema me virou a vida ao contrário novamente. Sei que para uns, é "apenas" um cão. E sim, era. Mas para mim era a fonte dos meus afectos, onde depositei esperança, amor e vida, uma cadela fantástica, que eduquei a tanto custo, numa réstia de um sopro de vida que ainda existia em mim. Achei que enlouquecia, enquanto ouvia a voz aos soluços do Miguel. Uivei de dor. De desespero, de frustração, de desgosto. Revivi o dia da sua morte, quando o Miguel a trouxe, ensanguentada e inerte, envolta num casaco, e a sepultámos ao lado da Foxie. Chorei de mágoa, gritei ao Universo, porque - caramba - quanto mais pode um ser humano aguentar sem se ir abaixo, que mal fiz eu para me acontecer mais este infortúnio, quanto pensa o Universo que eu aguento sem desistir? 

Mas não desisti. E fui buscar a Baga. A Baga que é uma alegria. Mas sinto-me vazia Filho. Vazia e cansada, cansada de dar. Dou com Amor. Sempre, mas também gostaria de ter um pouco de Amor de volta. A Baga dá-me o amor inocente de uma cachorra de dois meses. Só faz asneiras, e eu sinto-me velha e pesada, conquanto esteja cada vez mais magra, porque o sofrimento pesa. Pesa toneladas. Pesa uma vida (in)acabada, cosida em retalhos de pano cru, remendada e esfarelada, exprimida até ao tutano, num túnel de escuridão de onde tento todos os dias sair, mas cuja porta me está sempre a ser mudada de sítio. 

Começo a desenvolver uma fobia, a de que todos os seres que amo, me são roubados. Tenho a perfeita noção de que não vai ficar por aqui, e é essa suspeição que me rouba o sono e a força.

Passei o Natal em modo automático, e ainda bem que o Mano e os Amigos cá estiveram, porque me obrigaram a manter o foco. Mas por dentro, toda eu era lágrimas. Fui rio salgado, chorado, tumultuoso e revolto, remoinho da espiral, na cascata de que sou feita. 

Martim, sei que estou certa, conquanto viva algo semelhante a "Voar sobre um Ninho de Cucos"! Querem-me fazer louca, aqueles que, precisamente, advogam a vida livre e o livre arbítrio, os que defendem a liberdade (de expressão individual), mas que rapidamente se contradizem, quando a mesma pede alguma compaixão, ou compreensão ou o que quer que seja. 

"Walk your Talk" é tão fácil de verbalizar, mas tão difícil de viver, porque as pessoas são um poço de egoísmo, e a sua pseudo-empatia, só serve os seus propósitos, porque quando se trata de "ESTAR", foge tudo. Bom, tudo não. Há pelo menos, uma pessoa que ESTÁ. O meu Mano. O meu Mano entende-me. Não tendo filhos, é empático, e ama-me, na inocência de um amor que nada pede, e tudo (me) dá. Entende que existe um buraco na minha Alma, um buraco negro, que só se apazigua com Amor. É a única pessoa neste Mundo que nada me pede, que lê (n)os meus silêncios a mágoa que me assola, que está presente, de corpo e de alma, num Algarve que vai surgir, trazendo-me o mar à palma da mão, com o sal que me purifica. A única pessoa que defende o meu ponto de vista, e que me assegura que loucos estão os outros. Todos eles, no seu egoísmo, de que há prazos para curar um sofrimento que é incurável. 

Todos exigem. TODOS. Ninguém pára para pensar, que é precisamente essa exigência que dá cabo de mim. Porque não sou, não fui, não apareci, não visitei, não fiz, não aconteci, não comprei, não calei no meu âmago as minhas necessidades emocionais. Ninguém pára para pensar que, quem precisa sou eu. Não os outros, porque as suas vidas continuam de uma forma ou de outra. Foi a minha que ficou suspensa. E um dia, quando eu fechar os olhos e for ao seu encontro, nessa altura vão dizer: 

- "Caramba, que poço de energia esta mulher. Que garra, que stamina, que força da Natureza!"

Irei deixar algumas saudades, disso não tenho dúvida. Pelo menos, aos que me amam de verdade. Os outros, consolar-se-ão depressa, mas também me estou a borrifar para isso, porque quando for, vou para ao pé de si. Vão chorar muito, como quando você morreu, mas depressa a vida os vai engolir, na sua sofreguidão gulosa, derretendo no seu estômago qualquer resquício de saudade que teime em existir, e seguem. No "fast lane" do "live and let live", os afectos de hoje em dia são rápidos, intensos e deixados para trás. É o preço do modernismo numa sociedade cada vez mais superficial (e supérflua)! Tudo é momento. Tudo é consumível. Defendo que o Amor não o é. Mas também, hoje em dia, sou mais advogada, não do Diabo, mas dos Anjos. Defendo o significado de muita coisa.

Meu Filho, deixei as passas no bolso, não pus o pé direito à frente, não fiz nada. Simplesmente vivi, um dia de calendário como outro qualquer. 

Estou. E sei. Sei, naquela sabedoria ancestral, milenar, pedra basilar da minha existência, premonição em tempo real, sobre um futuro que irá acontecer. 

E enquanto a vida se desenrola, a Baga está. Comigo.

Obrigada meu Filho do Céu, meu Martim, meu Amor querido, meu Anjo!

Presumo que no Céu não haja tempo...

...

Mil beijos da sua Mãe que o traz para sempre no seu coração,

Mami!

domingo, 24 de dezembro de 2023

24.12.2024 - One Day plus 143 - Dia 24.12. de tantos e tantos anos, tão bons!

 



Meu adorado Filho,

hoje, porque já passa da meia-noite, escrevo-lhe para lhe desejar um Santo Natal aí no Céu. Senti-o hoje, meu Filho, e obrigada por este presente. A sua Miúda continua sua, e minha, e foiu tão bom estarmos juntas! Hoje, véspera de Natal, vamos jantar à Oma, mas vamos cedo, para lhe fazer companhia. O meu Natal será dia vinte e cinco, quando o Mano vem, com a namorada e o nosso outro filho adoptivo, tão querido, que inicia mais uma tradição, repetindo o ano passado e deixando o meu coração mais quente.

Temos presentes debaixo do Presépio, e a Alegria da antecipação de - espero - mais alguns sorrisos. Criamos novas memórias, para que estas nos ajudem na sobrevivência a uma Saudade sem fim.

Mas também temos Gratidão: pelo seu querido Irmão, pela Oma, que continua aqui, minha Rocha cheia de força, por tudo o que tenho, e não me refiro ao material.

Neste Natal, a Saudade sente-se muito mais, mas é um bom sinal: é sinal de que estou viva, porque no ano passado, nem sei bem descrever o que sentia, porque não me lembro bem. A Saudade estranha-se, depois entranha-se, Faz parte de nós. Custa mais, numa altura do ano em que todos estão com os seus queridos, e nós somos ponte entre dois planos, entre os nossos, mas estamos. E SOMOS. 

Feliz Natal meu Filho do Céu! 

Com todo o meu Amor,

Mami



05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...