domingo, 28 de julho de 2024

28.7.2024 - One Day plus 359 - Para si Martim, para Mim, para os “Outros”, para Todos…as Linhas da Saudade!





Meu adorado Martim,


À medida que o dia dois de Agosto se aproxima, a minha saudade aumenta. Sendo um ser racional, sei, que da forma como existiu durante vinte e seis anos, já não volta, mas as saudades do seu corpo físico, da sua voz, e sobretudo dos abraços que me dava, do toque e do cheirinho suave da sua pele, são e continuam imensas. Para os comuns dos felizes mortais, o Luto por um Filho é algo de incompreensível, e de “fácil” gestão nos conselhos que querem dar - alguns até impingir -  mas para quem sente e sofre na Alma uma perda inenarrável como esta, para quem continua a ser Mãe de um filho que morreu no auge da sua Vida e sem qualquer culpa, para quem a vida foi implodida de um segundo para o outro, a Saudade torna-se uma companheira constante.


Sejamos honestos, é muito difícil (sobre)viver para ver o desenrolar do Futuro enquanto se torna Presente, os seus amigos a casar, os dramas quotidianos a acontecer, os netos dos nossos amigos a nascer, enquanto nós choramos na Terra por quem agora habita no Céu. A pressão da Sociedade é de uma dimensão de tal forma cruel, que inimaginável, e só nós, que fomos forçados a (con)viver com esta mágoa e esta tristeza, conseguimos abarcar o peso da dimensão da mesma. Procuramos formas de mitigar esta dor imensurável, de tornar a passagem neste Tempo e neste Espaço mais suportável, mas NINGUÉM consegue imaginar a quanto custo. Quem tem a sorte de aprender a alegrar-se das pequeníssimas coisas do dia-a-dia, de um quotidiano que mais parece uma existência surreal, consegue (sobre)viver, mas no entanto a nossa Alma transporta em si uma ferida que não tem cura, uma chaga permanente, um sangrar diário, um rasgo rasgado nas e às entranhas como que por bisturi afiado!


Que saudades meu Amor querido, que falta que me faz. Que tanta coisa vivi, sofri e sobrevivi entretanto, nestes quase dois anos, como se de várias existências se tratasse. Acho que os Pais que perdem Filhos vivem num Tempo e num Espaço que não é nem presente (e real), mas (n)um limbo temporal e surreal, irreal na sua magnitude, não presencial nas formas (esotéricas) que encontramos para comunicar.


Não há palavras para descrever a minha dor, nem a minha saudade, e muito menos para contar tudo o que vai na minha cabeça, e cá bem dentro de mim, perto das entranhas que o alimentaram e lhe deram a Vida, a sua, tão breve, e contudo, com tanto significado - PASSAGEM! 


Martim…que sonho tão breve, tão maravilhoso que me foi tirado!


E (des)enganem-se os “Outros”, porque não escrevo para vocês: escrevo, em primeiro lugar, para o meu Filho do Céu, aquele Anjo de que o Universo precisava para contrabalançar esta merda toda, e que (in)felizmente foi o meu o Escolhido. 


Em segundo lugar escrevo para mim, para conseguir manter as curvas da linha da (in)sanidade, a que é necessária para que os “Outros” se sintam confortáveis em me manter no seu seio, sempre tão regrado pelas conveniências, pelos egoísmos dos vossos desabafos de meras “trivialidades”, que não são nada a comparar com o meu drama! Por muitas dores de cabeça que tenham, os vossos continuam cá. Se é melhor ou pior não me cabe julgar, mas pelo menos conseguem ouvir a sua voz, abraçar o seu corpo e rirem com o sorriso deles. 

Eu lembro-me do meu - embora tente todos os dias esquecer - num sofrimento atroz, numa agonia sem definição, ele, no auge da Vida, cheio de sonhos e de planos, e com um rosto imaculado! 

Sabem o que me persegue ainda hoje, dois anos depois? Não ter tido a coragem de lhe afagar as mãos, numa cobardia de mãe perante o corpo desfeito do filho. Sim, afaguei-lhe a testa, em doces carícias maternais, leves como a pena de um pássaro, com receio de magoar, ainda mais, aquele corpo martirizado. Aquele inocente que a incúria de um animal resolveu fazer vítima, e que lutou até ao fim. 

Beijei-lhe o cabelo, o rosto - já na altura gelado, numa antecipação da morte iminente - fiz-lhe o sinal da cruz e entreguei-o ao Universo, num grito inaudível porque emudecido por tanta dor, num desgosto terrivelmente antecipado, numa mágoa sem precedentes, numa aparvalhação perante o inconcebível e pedi a Deus que o levasse! Que o libertasse dessa agonia e o fizesse Anjo, concedendo-lhe assim, para além da Vida Eterna, a Imortalidade de quem salva os Outros!


E em terceiro escrevo para todos vocês, todos os que são como eu, que, de uma forma ou de outra, seja ela de doença ou de acidente, propositada- ou inusitadamente, se veem no mesmo lugar que o Universo me obrigou a ver. Nós precisamos de VOZ, de termos a coragem e a sabedoria de vomitarmos para o Mundo tudo aquilo que sentimos, para que finalmente a Sociedade aprenda e perceba que, felizmente que não sendo Lobbie - porque em número “reduzido” - somos os Pais de Filhos roubados, de sonhos desfeitos, de Vidas implodidas, transformadas em vidas, às quais procuramos dar o significado da maiùscula a cada dia que passa, mas que são tão raros, que em dois anos se contam pelos dedos de uma mão, e merecemos um tratamento e um respeito social que nos é mais do que  devido.


É um tema sensível? É! Mas é forçosamente também um tema social, que - (in)felizmente pelo seu reduzido número - não é político. Mas que deveria ser: A morte de um Filho é pior do que um cancro, porque não tem cura, nem esperança da mesma. Não existe nada depois disso, porque esse Filho não volta. Ele continua a viver dentro de nós, e que, para alguns felizardos e abençoados - nos quais me incluo -  se manfesta nas e das mais diversas formas, mas para a maioria é o buraco negro do Infinito da Saudade que e se abre e (n)os engole. 


Hoje, na simplicidade deste Campo que me acolheu há tantas Luas, o vizinho bateu-me à porta, para me vender aquele mel único, das abelhas da família, nestas trocas fabulosas que só o campo nos proporciona. Comprei muito mais do que precisava, para agilizar os trocos e honrar um Portugal que ainda teima em existir! E durante a conversa, que mais parecia Vasco Santana a negociar as bolachas Maria e as línguas de gato no “Páteo das Cantigas”, com um frasco de mel numa mão, e a outra a limpar as lágrimas dos olhos, me confessou:


“Também lá tenho uma Menina, que me foi roubada tinha dois aninhos”. 

E no olhar deste homem, bem mais velho do que eu e com várias décadas de Luto em cima, lê-se o mesmo Desgosto, a mesma raiva oferecida para colmatar o próprio sentimento, a mesma Mágoa e a mesma Paz que se lê no meu. O meu, onde tudo (d)escreve as Linhas da Saudade!


Meu Filho…é no Luto e pelo Luto que não podemos deixar de Escrever de de Sonhar a Esperança!


Mil beijos da sua Mãe que o adora,


Mami


P.S. 
"How cold
Empty the silence that we both know

Weeds ourgrown
we suffer in quiet from wasted storms.

(...)

My pain
Your home
I keep it buried here in my lungs
Our ghosts
So heavy

My skin
Your bones
One touch and you turn me
right into stone
I'll hold
Will you let me"

(o "nosso" DOTAN)

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Sem data (17.7.2024) - One Day plus... All or Nothing!





Meu adorado Filho,

Sabe quando se acaba de escrever um (ou o?) AQUELE texto perfeito, mas como se é estupidamente preguiçosa, numa presunção desmesurada, e se considera, que é mesmo em directo e sem filtros que se escreve e se descreve  um dia perfeito, e de repente, "e tudo a net levou?" O seu melhor texto, escrito na inspiração da descrição, esculpido na escultura de um dia que começou (im)perfeito, e que nessa perfeição aperfeiçoada atingiu o seu ocaso, nunca por acaso, num pôr-do-sol morno de um Verão épico? 

Sou tão burra que espelho a Alma em directo, numa confiança nunca guardada, mas (para) sempre aguardada, que me faz arriscar tudo (o que escrevo, sobre o que sinto), neste sentimento que é Saudade, mas agora também Alegria, numa Coragem nunca antes vista!

Tanto que tenho vivido, que poderia escrever um livro, uma história ÉPICA, sob fundo verde escuro, tal como as zonas mais profundas da Barragem, que contêm as águas choradas nas curvas e contracurvas do meu coração, enquanto se passa pela paisagem a cem à hora, sentados no lado do morto da Vida celebrada dentro de um Mazda, onde o Riso se sobrepõe à tristeza das lágrimas, mas a Saudade é chorada com a Honestidade genuína de quem celebra!

Filho...

...no silêncio da minha prece me recolho, num pedido remetido em confissão, a que ouso querer para mim, porque a vida é toda ela uma Metáfora, personificada na onomatopeia sussurrada numa gramática cujo léxico não faz sentido?

Martim...quase dois anos (menos uns dias), e nesse tempo sem Tempo no Céu, mas em contratempo na Terra, tanto mas tanto acontece(u)!

De quantas Figuras de Estilo se faz um Texto perfeito, esculpido na imperfeição da Existência?

Não sei!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami



sexta-feira, 5 de julho de 2024

05.07.2024 - One Day plus 336...sobre a (V)ida compartimentada, crónica de uma morte anunciada, e do Tempo desfragmentado...food for thought!

 



Meu adorado Filho,

Nem sei por onde começar, talvez devesse ser este o meu (o nosso) livro! 

Daria um romance em - pelo menos - três tomos, ficaríamos ricos! Mas nem sei bem se seria esse o prólogo, porque o último diria algo assim: 

- " Há mil anos, tempo (in)temporal, onde o relógio não tem ponteiros, fui Mãe." 

E daí começaria a delinear um percurso, ora rastejando, ora dançando pelas memórias do meu cérebro, órgão que se tornou autónomo, num plano que engloba tanto a Terra, como o Céu (aquele que não pode esperar!), numa miríade, puzzle (in)completo, mal (d)escrito, de tudo o que fui e do Todo que sou!

 Martim...recordo como se fosse hoje a última vez que o estreitei contra mim, pele com pele, num Abraço que se adivinhava já Sonho! Meu Filho querido, tanta emoção que me assola, num casamento celebrado, festejado e vivido, com a sua presença, que já antecipo e adivinho entre nós! Vai ser ÉPICO, e dou por mim envolta na veleidade , vaidade celebrada e indevidamente vivida, na antecipação que sempre nos caracterizou na nossa ânsia de VIVER!

Meu Filho, do coração lhe agradeco o sorriso que me desenha no rosto cansado, mas sempre com os cantos para cima, porque é neste sorriso que sacrifico e sacrifiquei tanto, tanta emoção, tanto carinho, tanto Amor!

Com...Alegria...da sua Mãe que o ama hoje e sempre,

Mami

quarta-feira, 12 de junho de 2024

12.6.2924 - One Day plus 313 - A Extensão da minha Alma..."There must have been an Angel by my side (...)"

 



Meu adorado Filho,

Mais uma noite de insónia...

...não estamos curados de um luto que nos acompanha, embora agora polvilhado de muitos e vários sorrisos, em número cada vez maior, num aqui e ali, no carinho partilhado de um presente que se quer dádiva, onde as feridas são apaziguadas a cada momento que se vive neste campo primaveril, ressoa(n)do no eco (d)as gargalhadas de uma Leveza que se quer Milagre.

A Vida e a vida, seguidas da Vida, tão efémera conquanto feliz, onde procrastinamos uma realidade da qual não fazemos ideia, mas que também não interessa, porque é na Gratidão universal que a sentimos e celebramos, nesta dádiva universal que se quer festejada no Aqui e no Agora.

Meu Filho, tanto que eu poderia escrever, contar, relatar, resumir num hiato de tempo, onde o Tempo não tem tempo para se preocupar, porque o que interessa é viver e celebrar a alegria da dádiva do presente do indicativo, embora se sonhe um futuro, sobre o qual se assentam sonhos e se constroem "amanhãs"! 

Martim, a Terra cheira a Hermés, perfume de um campo deslumbrante na envolvência de todos os sentidos, na família Von Trapp dos Trouxas, os que se celebram e se vivem, sem medo e com a crença inabalável de que o amanhã nunca será em demasia, porque quando vivido e vivenciado, experienciado em cada ocaso, onde o dia seguinte nasce ao som dos sinos da Igreja, num paraíso escondido e protegido, no qual a gratidão brota em cada suspiro arrancado à saudade, lágrimas beijadas que se transformam em sorrisos  - os meus - será sempre um amanhã de Esperança!

Que viagem meu Amor, que Caminho, Santigo de uma Compostela que sendo missa ou celebração, numa estrada de curvas e contra-curvas, é para sempre a recordação de um coração de Mãe, batimento descompassado, cosido e traça(n)do (n)um Amor e (n)uma Crença inabaláveis de que existe e existirá sempre a Esperança!

Mil Vidas? Hmmmmm...discordo. Infinitas: tantas, quantas recordações abandonadas, deixadas para trás em fragmentos implodidos nas noites em que o sono não vem. Hoje, o sono tem um ritmo, uma respiração, uma pele, um sentido e um sentimento. Um presente e um passado, desenhado em mil passos, dançados e consagrados às doces memórias, e, simultaneamente, às suaves vivências onde se misturam os aromas da cozinha, pratos confeccionados com amor e com doçura!

Haverá pais celestiais, conquanto terrenos? Existirá, algures no (meu) tempo, um cruzar de Caminhos, de Personagens, a do Pai e a do Filho, porque o Espírito Santo desceu sobre mim, mera pecadora terrena e humana e resolveu abençoar-me com o (In)Esperado?

Não sei. 

Não quero saber.

Sei que foram (ou são?) quase dois anos de lágrimas, de perdas, de desesperos, mas uma coisa é certa, transcrita por Saint Exupéry, e talvez mesmo por Robert Frost:

- "Toi, tu auras des Étoiles, comme personne n'en a"...

...e porque finalmente, estamos prontos para palmilhar "The Road not Taken.", porque há estradas que nos levam não sabemos onde, mas que de alguma forma, nos conduzem ao Céu.

Ah meu Filho, se eu (d)escrevesse (n)um livro (d)estes meus dois anos, diário inacabado, rabiscado e rasurado, seria certamente um best-seller, mas os pormenores, as nuances, as sombras desenhadas em cascata(s) de um penedo furado, traçariam para sempre o número dos passos que a rastejar, sempre tentei levar a dançar.

Gosto tanto, mas tanto de si meu Filho! Nesta sua dádiva para comigo, só tenho uma palavra, ou talvez duas:

Amor, obrigada! Ou talvez, Obrigada (pelo) Amor. Ou ainda Obrigada meu Amor. Minha Vida, minha Ressurreição, meu ontem, meu hoje, meu amanhã.

Minha Saudade, e, conquanto, minha Gratidão. Minha Alegria. 

Martim...

...Von Trapp, aka Trouxa, aka, a Vida é um Milagre, neste milagre que é a Vida, outrora vida, e antes Vida, finalmente com maiúscula, que finalmente reencontrámos!

Com todo o Amor da sua Mãe que o adora, 

Mami







sexta-feira, 7 de junho de 2024

6.6.2024 - One Day plus 307 - We will always have Barcelona! (And it feels like summer!)

 



Meu Filho adorado,

De quanta saudade se constroem as memórias? Será quantificável a SAUDADE?

Aquelas viagens a um passado (ainda tão recente), onde fomos tão felizes? As semelhanças facilitam imensamente a (con)vivência, porque é nesse desiderato que tudo se constrói, ou, pelo menos, onde tudo assenta. E nós éramos tão cúmplices, tão amigos, tão parecidos nesta nossa essência do tudo ou do nada! A intensidade avassaladora que nos caracteriza, na Luz que ambos buscamos incessantemente e que você alcançou, num sacrifício que jamais deveria ter sido seu! Deveria ter sido o meu, nesta busca sem tréguas, por um amanhã diferente!

Meu Amor, em recordações, ou nas lembranças de uma Vida que aconteceu há mil vidas, afaguei o seu rosto perfeito, essa onda lindíssima do seu cabelo e encomendei-o ao Universo, envolta pela dor MAIOR! Ou a MAIOR dor que alguma vez alguém pode sentir. Ninguém pode imaginar o que sofri, e o que sofro, e como trato por "tu" a palavra Saudade, sempre, sempre com maiúscula.

De como - ainda hoje - recordo essa nossa última noite juntos, esse presságio de uma catástrofe que dentro do meu ser se adivinhava e que eu tentava ignorar? 

Martim...

Juntos conquistámos Barça, vencemos o medo das baratas (bom, sobre isso ainda temos que conversar ambos em noites de vigília no "Covil"), e aqui estamos...sempre, sempre, e para sempre juntos, de peito aberto e coração às balas, num presente que ser quer dádiva!

Tim, meu Filho adorado, minha Vida, meu Amor, minha Saudade, minha Entrega, meu Hoje e Sempre, (para sempre), num Amanhã que me foi roubado, e agora, de alguma forma (im)perfeita, devolvido na Esperança, traduzida num desfrutar de um dia de cada vez...porque quem perdeu o Tudo, não faz co tas, aritmética assimétrica, na prova dos nove que se quer, de alguma forma, capícua!

Meu FILHO, minha Vida, meu Amor...

...TANTO, mas tanto Amor para dar...

Da sua Mãe que o adora, (e o chora todos os dias, hoje e sempre), num sorriso esculpido por si,

Mami! 



domingo, 2 de junho de 2024

02.06.2024 - One Day plus 303 - "Picture Postcards"

 



Meu adorado Filho,

Como descrever o perfume a Terre d´Hermés na simplicidade do campo primaveril? 

Haverá palavras para isso? Não sei. Sei ver as cores da Urze, da magnitude do espectro do seu roxo, dividido por mil tonalidades de púrpura brilhante, debaixo do sol incandescente de um fim de tarde tórrido, ao encarnado das Papoilas, passando pelo amarelo da Giestas, e de tantas outras tonalidades que me invadem os sentidos, seja o do olfacto, seja o da visão. Há um Todo que se assemelha ao Tudo, nestas noites de um campo despojado de pretensão, na simplicidade plena, onde as Estrelas brilham tão fortemente, que me toldam a visão!

Martim...haverá palavras que descrevam a Paz, aquela que se sente debaixo da Oliveira do Mouchão, ou na simples contemplação das e nas margens do Tejo, as que banham Alvega, num (re)encontro do Pleno, vivido na Plenitude da simplicidade do Nada, aquele momento em que viver é simplesmente o deixar baloiçar a Alma ao sabor da brisa morna que me acaricia a pele, enquanto ao longe vejo o ninho das cegonhas que alimentam os seus filhos?

Não consigo transpor em - ou será colocar por? - palavras, o enredo de um filme que me marcou a juventude: "Love - Love means never having to say you're sorry", ou, como diria Saint Exupéry, "les yeaux sont aveugles, il faut chercher avec le coeur", aquele músculo que desobedece a toda a razão, para (sobre)viver, num batimento descompassado, passo doble desafinado a "uma razão, que a razão desconhece"?

Martim...será dos filmes de que são feitos os sonhos, ou será dos sonhos que se faz um filme feito de sonho? Ambas as prerrogativas são válidas, na (in)sanidade de que é feita a existência da loucura! Meu Filho, tão perto de mim, tantos dias depois, tantas lágrimas choradas e agora, tantos sorrisos desenhados, rabiscados, rasurados a tinta permanente, azul "royal" Mont Blanc, "we're flying above", como a cegonha que hoje, em voo rasado, se lançava do ninho, para mergulhar neste Tejo raso, maré baixa da mágoa, numa maré alta da Alegria, debaixo de um azul celestial tão aberto quanto confiante, do qual passei de Mendiga a Princesa?

De quantas mil vidas, vividas e vivenciadas, é feita a Vida, num passado do qual se faz futuro, num presente do qual se celebra dádiva? Não sei precisar, nesta minha falta de jeito para os números, porque o Amor e a Saudade - intrinsecamente enlaçados um no outro - não são quantificáveis! 

Martim...de volta à simplicidade do Amor numa Casinha simples, ou ao Amor na Simplicidade de uma Casa pacífica e pacificada, tranquila nas suas memórias de mil Vidas enclausuradas no meu coração de Mãe, aqui continuo, nesta minha tão amada Casa, neste "coming home", tão estranho quanto avassalador, neste simples Campo ao qual aprendi a pertencer!

De coração aberto e de peito às balas, na Gratidão universal de quem entende o Cosmos, e com ele se funde, num abraço genuíno de um Amor que se quer único, aqui estou!

Filho meu...a quietude do perdão não é para todos, mas fica com aqueles que sem o medo, arrepiado no receio do pavor da falta, se entregam, na totalidade transcendente da confiança da e de uma música que se quer tocada, aflorada, cantada e escrita numa voz rouca, rasgada às entranhas, arrancada aos acordes de uma gitarra!

Filho...mais um Significado no seu Altar, Astronauta com o seu "petit-nom", mais mil gestos de carinho, que embalam a luz da vela que lhe acendo todas as noites, neste meu Amor sem fim, nesta minha Saudade indescritível, nesta minha Alegria campestre e nesta minha Esperança de que o Sonho seja vivido na realidade de um presente que eu espero futuro!

Filho...

...MARTIM...

...dava a vida para voltar a abraçar esse seu peito macio, que me envolvia os medos enquanto os apaziguava, na Aventura que foi ser sua Mãe, numa Quimera, que por tão breves anos foi Felicidade, a que me roubaram e que agora o Universo transpõe para o filme do quotidiano, ou será o quotidiano de um Filme? 

A Coragem (e não a sorte) protege os audazes!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami!








sábado, 25 de maio de 2024

25.05.2024 (=11!) - One Day Plus 296 - Sobre Von Trapps e Trouxas (d)escritos a tinta permanente!

 



Meu adorado Filho,

Desta vez não dá o "nosso" número, mas dá o "meu número", aquele que marca aquela que foi a viragem na viagem da minha Vida, a da antiga, claro, a da nossa, quando você ainda era corpo físico. Quando eu me podia afundar nesse seu abraço, perder-me nesse peito e sentir o milagre de o ter dado à luz. A Vida que vivi há mil anos.

Aprendi depois e a muito custo a celebrar, não a tristeza de o ter perdido fisicamente, mas a festejar a felicidade e o milagre que me foram concedidos de o aprender a sentir enquanto ser espiritual. Tal como uma cega, por entre as infinitas lágrimas que me brotaram dos olhos em mil e uma noites de insónia, aprendi a tacteá-lo em "Braille", e aos poucos, mas com uma certeza cada vez maior, consegui com clareza, interpretar a leitura da sua presença e a felicidade que senti ao realizar o facto de que, se eu ouvisse o meu coração, e deixasse que nele vivesse apenas AMOR, o mesmo iria superar a dor. 

Vivi, no último ano e nove meses, a maior dor que se pode suportar. E mesmo assim, o Universo pôs-me mais e mais e mais, e ainda por mais uma vez à prova, até me encontrar totalmente nua, desprovida de qualquer coisa, e de pensar:

- "Caramba, mais uma? Será que o Universo me quer enlouquecer de vez?"

Foi tão difícil meu Amor, tão, mas tão difícil. Mas a minha Fé e a minha Crença não me deixaram e entreguei-me nas suas queridas mãos. Porque quem perde um Filho, sabe que ele agora é Anjo - e o Céu precisa tanto deles! - e os Anjos protegem os Seus. Quem melhor do que você, minha Vida, minha Eternidade, para me proteger? E nos piores e mais negros tempos da minha vida, eu não desisti e pedi-lhe que a sua mão me amparasse.

Cheguei com os pés em sangue, em carne viva, em chaga, cheguei a rastejar, mas cheguei! E cá estamos nós. Na Casa do Amor, num largo caiado, empedrado de seixos, onde as velhinhas espreitam à janela tudo aquilo que fazemos, e as flores do canteiro baloiçam ao sabor da brisa de um final de tarde de Maio.

Chegámos à Vida, ou talvez tenha sido a Vida que chegou até nós, guiada pelas suas mãos, numa paz e numa tranquilidade onde só se sente e se vive Amor.

Meu Filho, há tanta coisa bela para ver e desfrutar, nestes degraus de pedra com o rio ao fundo, bordeado do verde dos campos, neste sol ainda primaveril que teima vagarosamente em alongar, a cada dia mais, aquelas tardes preguiçosas, em que toda eu sou sensação, num pleonasmo sensorial que me rouba os sentidos, pela intensidade com que cai sobre mim e me transporta para outra dimensão. 

Martim, meu Amor, obrigada por TUDO, por este TUDO que me trouxe! Que aprendizagem! que Caminhada! Mas caminho, e no meu Caminho, agora sim, sei que sou:

Peregrina e Princesa, Mendiga e Rainha, Senhora e Menina, e sempre, sempre MÃE, (e começo, finalmente, a "SER HumAna")! 

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami



P.S. Danke mein Schatz, meine Maus! 


05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...