segunda-feira, 22 de maio de 2023

22.5.2023 - One Day minus 295 - E o tempo passa, e saudade? (essa, bom, essa aumenta exponencialmente)

 



Meu adorado Filho,

Há demasiado tempo que não vinha aqui ao nosso espaço sideral para conversar consigo. Tanta coisa acontece em vinte dias! 

A Poppie veio, e dá imenso trabalho educar um cão como deve de ser. Ocupa-me os dias, mas isso é bom. No entanto, e como eu ando constantemente a levar pancada do Universo - que acha que ainda não levei o suficiente e tenho arcaboiço para ainda mais - a Poppie veio com um fungo. Ao princípio não reparei, era uma macha minúscula no meio da testa, e achei que era de nascença. Infelizmente não. Começou a espalhar-se pelo corpo, e as manchas a aumentar de dia para dia, e não estou a exagerar. Houve quem me dissesse para a devolver, pois as despesas e as preocupações são algumas, soi disant,  mas fiquei chocada. Não se devolvem seres, muito menos aqueles pelos quais nos responsabilizámos. É um azar do caraças, mas é o que é. Em resumo: tenho uma cadela de quatro meses, que fui resgatar ao abrigo, e que está meio careca e ainda mais feia do que já era. Mas é inteligentíssima e adoptou-me mal entrou nos meus braços, num abraço imenso de gratidão, nuns olhos meigos e sonhadores. E como o essencial é invisível aos olhos, ou neste caso particular, o que entre pelos olhos adentro não é o que vai naquela alma de cão, vamos a mais um desafio.

Ontem fomos a Coimbra. Levei-o comigo, no meu coração, meu Paraíso do Amor, meu querido Filho. Sei que está desiludido comigo - aliás a coruja deve ter voado do nosso jardim, pois nunca mais a ouvi - mas eu faço o que posso. A morte da Foxie agravou o meu cérebro de um modo assustador. Aliás, quero falar com a Doutora Ana Carolina sobre isso. Não me consigo concentrar de forma nenhuma. As Dianas já não nascem das minhas mãos com a alegria e a espontaneidade com que as criava, olho para elas como algo que não saiu de mim, e para acertar numa, descarto três. As horas e horas em que passava à máquina de costura, são agora apenas pequenos pedaços de minutos roubados ao dever de cumprir. Não sei o que se passa comigo: há dias em que consigo sorrir, em que o Mundo me embrenha num entorpecer da minha dor, mascarado pelo dever, numa teia tecida por aranha sonolenta. Mas depois voltam os dias como o de hoje, em que toda eu estou no Céu, toda eu sou Saudade, toda eu sou...Mãe roubada de um tesouro, de si própria, cansada de lutar, mendiga do Amor. 

À medida que os dias passam, e caminhamos para os dez meses, a perplexidade perante a sua morte aumenta e às vezes duvido da minha vida anterior. Filho, sei que isto é horrível de dizer, mas é verdade, é o que sinto. As pessoas e os lugares são os mesmos, mas é como se me pedissem para olhar para a vida de outra pessoa, é como se estivesse a ler um livro onde me identificasse com a personagem principal, mas cuja vida nada tem a ver com a (sobre)vivência da minha vida de hoje. 

Perdi a magia na e da minha vida, e percebi isso ontem, em Coimbra. E nesse concerto repleto de sofisticação e de tecnologia, o meu coração levou-me para a simplicidade de um Rock in Rio em Lisboa, naquele em que Amy Whinehouse passou a vergonha da sua vida, acabando por cair no palco, e em que Lenny Kravitz salvou aquele relvado, consigo e com o seu irmão sentados nos rebordos de um contentor do lixo, e o Pai, em pé, à nossa frente, com um frio de rachar em finais de Maio, assisti ao MELHOR concerto da minha vida, nessa altura ainda Vida. Fomos envolvidos pelas músicas, pelo som de algo familiar, pela simplicidade. Foi...

...ÉPICO!...

Tim, em dez meses acontece tanta coisa...mas tanta, tanta coisa, e contudo, o Mundo, ou o meu Mundo está parado há duzentos e noventa e cinco dias - ou será há mil anos?, e isso é que é esquizofrénico - e tudo parece irreal, surreal e absurdo. É Albert Camus no seu expoente máximo!

Tim...não se consegue descrever este limiar entre a loucura e a sanidade. 

Não sei explicar o que se passa, acho que o Tempo adquiriu um novo tempo, num decorrer do que mais parece um escorrer, por margens escorregadias em cima de rochas, onde rasgamos a pele e nos agarramos a um NADA sem significado, só porque temos o dever de ter uma vida. E contudo, nesse tempo, nesse hiato de Tempo, plantaram-se árvores de fruto, venderam-se duas cabras e quatro ovelhas, das quais vimos nascer quatro cabeças, enterrámos uma companheira de um quinto de vida, e colhemos courgettes da horta. E sorrimos. 

Tim...

...nesta teia frágil e efémera, o meu amor por si é INFINITO, pois é Amor de Mãe, aquele que é o Amor mais puro, mais eterno, mais genuíno, mais repleto de saudade e de tanta gratidão!

Mil beijos da sua Mãe que o ADORA!

Mami

terça-feira, 2 de maio de 2023

2.5.2023 - One Day minus 275 - e do que continua?

 




Meu querido, meu adorado Martim,


Nove meses...o tempo que demora carregar um Filho, a dar Vida, a ser Vida. Eu carrego um fardo mais do que pesado, são toneladas de desgosto, de saudade, de sentir a sua falta a cada inspiração. Em nove meses acontecem muitas coisas: morre o Opa, o seu querido avô que o adorava, e morreu a Foxie. No dia em que ela morreu, achei que enlouquecia, e estive a instantes de pedir ao Miguel para me levar a Tomar, para me porem a dormir, e me aliviarem da dor incessante que me dilacerava as entranhas. Foram nove meses de perda, de tristeza, de ver sofrer os que amo, mas ao mesmo tempo, foram nove meses de outras coisas. No meio da insanidade da saudade, plantou-se uma horta, arrancaram-se - às minhas mãos - os urtigões, plantaram-se duas cerejeiras, dois pessegueiros, uma árvore de mirtilos, e todas estão a dar ou frutos, ou flores.

Também foi o mês em que se matou o Trinta e Um. Nunca pensei que o conseguisse comer, mas depois de perdermos tanto, comer um cabrito que nos nasceu literalmente nas mãos, acaba por ser uma homenagem gustativa ao próprio do animal.

E com isto quero dizer, que, lentamente, com muito mais revezes do que progressos, vamos aprendendo a (con)viver com a dor. Percebemos que nada é eterno, excepto os Anjos como você, meu Filho adorado. Quando pensamos que atingimos o pico do sofrimento, vem mais uma ferroada do Universo e volta tudo ao mesmo, mas sobrevivemos. Com a ajuda da Doutora Ana Carolina tenho percebido que é bom exorcizar a dor, porque o importante é a sobrevivência, nem que seja pelos que cá estão connosco, e nos merecem no nosso melhor.

Aprendi portanto, que o nosso coração aguenta muito mais do que pensa, e que a nossa mente é o que tentamos fazer dela, dentro das limitações físicas e psicológicas que se nos deparam. Dito isto, e depois de dez dias em que pensei que estava a enlouquecer mesmo, mas MESMO, em que o sofrimento me levou à beira da insanidade, numa epifania, ou talvez num último instinto de sobrevivência, fui a uma Abrigo buscar uma cadela. Estava tão nervosa na viagem, que só me apetecia vomitar. Questionei-me sobre muitas coisas. E no Caminho - propositadamente com maiúscula - pedi-lhe, baixinho e com todo o meu Amor, numa oração desesperada, que me desse um Animal que fosse inteligente. Não pedi mais nada, apenas isso, e, claro, que gostasse de mim. Apaixonámo-nos uma pela outra ao primeiro olhar. Nos primeiros dias, andei dividida entre a minha saudade pela Foxie o carinho pela Poppie. Sentia-me uma traidora, e, ao mesmo tempo, uma Sobrevivente.

A Poppie tem-me feito bem. Registei-a com "ie" de propósito, tal como a nossa Foxie. Quis manter a tradição. Tenho uma rafeira preta que nem breu, com patas brancas, e que veio para mim quando o campo se encontra semeado de papoilas, num salpicado intenso de encarnado vivo como a vida.

E assim passo os dias meu Amor. Com muito menos força física, com muito mais fragilidade, mas com uma réstia de determinação.

O Mano está a ajudar-me, ou melhor, a fazer-me um "coaching" à distância, de como educar um cão, e tem resultado. Dá muito trabalho, e tenho de ouvir e repetir tudo o que ele me diz para fazer, para lhe mostrar que não me esqueço, ou que a minha frágil cabeça não me trai e não me leva a esquecer o que ele me acabou de dizer. É muito bom tê-lo muito mais próximo. Estar na nossa cumplicidade maternal-filial é maravilhoso. Adoro o Mano como o adorava a si e admiro-o cada vez mais. Ele faz-se Tim, e vai-se fazer um Homem com "H", como canta Matogrosso. Cada dia tenho mais orgulho nele. O seu fardo é tão pesado quanto o meu, e todos os dias me lembro disso, e ao lembrar-me disso, continuo. Por ele, por si, por mim, por todos. 

Aprendi também que o que me aconteceu subsequentemente à sua morte, não é uma vergonha. Nem uma desgraça, e que deve, e tem de ser respeitado. Você morreu naquele desastre fatídico, e a minha cabeça ficou lesionada. Aparentemente está tudo bem, mas muitas pessoas ao mesmo tempo, cansam-me, e a memória, bom, dessa já nem lhe preciso de falar. Reparei que depois da morte do avô ela piorou, e agora, depois da Foxie se ter ido, faltam-me palavras quando quero comunicar. Tenho aprendido a não valorizar, a não me sentir inferior, mas não é fácil. Não sei como vou fazer, mas a Doutora Ana Carolina diz-me para nem sequer pensar um segundo nisso, o que é bom, porque me causa uma angústia imensa. Não me preocupo, ou não me tento preocupar, e procuro todos os dias, ir um pouco mais além. Vamos ver se consigo.

Eu mudei radicalmente com a sua morte, e não foi apenas a minha vida, fui eu enquanto ser. Tenho de aprender a (re)conhecer esta nova pessoa que vive em mim, identificar-me nesta nova existência, e não é fácil. Mas depois, naquelas madrugadas em que morro, uma vez mais de mil vezes ao pensar na sua não presença física, naqueles momentos em que estou no limiar, como nesta madrugada, a que deu entrada a dia 2.5., a Coruja e o Mocho brindaram-me com piar carinhoso, e percebi que era mais um sinal seu. Acredito no Cosmos, acredito que nos iremos reencontrar um dia, cair nos braços um do outro e falar, falar, falar, falar. Acredito que isso vai acontecer um dia. Um dia!

Até lá meu Amor, até lá minha Vida, 

Mil beijos da sua Mãe que o adora,


Mami




quarta-feira, 19 de abril de 2023

19.4.2023 - One Day minus 262 - Da morte e da ausência, da saudade sem FIM

 



Meu adorado Filho,

Espero que a Foxie tenha chegado bem aí. 

Peço-lhe que não lhe atazane o espírito, coitadinha, já bem basta as judiarias que lhe fez neste Mundo. Abrace-a com força e diga-lhe que a Mami se lembra dela vinte quatro sobre vinte e quatro, e que este Mundo está ainda mais vazio. Dou por mim à procura dela no silêncio da casa, olho para a sua caminha, agora vazia, à sua procura, à escuta de uma respiração de mimo ao meu lado, chego a casa e nem sei descrever a falta que me faz o seu latido de boas-vindas, de alívio por me ver entrar o portão. De "me" saber aqui com ela, sempre a dar-lhe segurança. 

Perdi uma companheira de uma Vida, daquela vida que foi minha mas que, uma vez mais, me foi roubada. Que mais pode o Universo querer de mim? Não chega já? Mais ainda? Mais dor, mais desgosto, mais perda, mais um silêncio, mais uma recordação de tempos felizes de partilha? Mais uma vez o Universo me pediu altruísmo, e lá estive eu à altura, por não aguentar ver sofrer os que amo. Mas a que preço meu Deus? A que preço? Como se cosem os retalhos esgaçados de uma Alma, a minha, tão cheia de saudade, tão cheia de lágrimas, tão a transbordar de lágrimas de desgosto. 

Adormeceu nos meus braços. Quero acreditar que adormeceu em paz. Pedi-lhe que o encontrasse, e quero crer que sim, que o fez. Peço-lhe que tome conta dela e que juntos, olhem por nós. Pelo Mano e por mim. Por nós, fui à procura de outra cadela. É toda preta, com patas brancas. Vamos ver como é, vou buscá-la na sexta. Tenho de tocar a vida para a frente, nem que seja a troco da pouco que resta da minha vida anterior. Tenho a cabeça num caos. Num caos. O coração desfeito em mil pedaços. Estou sem rumo, mas tenho de tentar continuar. Pelo menos tentar. 

Tim...Foxie...

...espero-vos juntos, num céu onde, um dia, também quero entrar. Quero acreditar que aí estarão, à minha espera. Não percebo porque é que o Universo me fez mais isto. Porquê já? A Foxie com o seu cheirinho a algodão e o pelo macio, amparou as minhas lágrimas aquando a sua partida. Foi a minha companhia nas noites escuras do desgosto. Acho que ela sentiu tudo isso e não teve força para me consolar mais. Estava cansada...como a entendo!

Tim...mil beijos!

Foxie...meu cão tão querido, minha Mininhas, minha companheira de aventuras, meu consolo...espero-te bem!

Abraço-vos contra o meu coração com tanta, tanta, tanta saudade!

Mami


terça-feira, 18 de abril de 2023

17.4.2023 - One Day minus 260 - Foxie

 



Meu adorado Filho,

A Foxie já descansa na terra barrenta aqui da Quinta. 

Adormeceu nos meus braços, em mais uma despedida desprendida de egoísmo, mas plena de dor. A nossa Foxie! Estava muito doente e foi de repente, e eu não estava preparada. Nunca se está. A morte rodeia-me, envolve-me, rouba-me todos os que amo. A casa está vazia. Falta-me a respiração lenta dela, aqui ao meu lado, no atelier. Falta-me o latir enquanto corria atrás dos patos sem lhes fazer mal. Falta-me tudo Martim. Tudo! Falta-me o sexto sentido dela quando me sentia triste e me vinha pedir colo, para me consolar. Tenho medo de me deitar e não ver a caminha dela ao meu lado. Foram onze anos de companheirismo, de travessuras, de alegrias, de um cão que só lhe faltava falar. Nunca mais haverá outra Foxie. Nunca mais.

E eu, e eu não me vou alongar mais, porque não vejo as teclas através das lágrimas. Não posso mais de sofrimento. Não aguento!

Tim, se ela chegou aí ao Céu, por favor não a chateie. Não a provoque. Abrace-a e juntos, mandem força cá para baixo. 

Beijo Tim, e faça uma festa à Foxie. Pus a coleira dela no seu Altar. 

Mami

sábado, 15 de abril de 2023

15.4.2023 - One Day minus 258 - Contigo

 


Meu Adorado Filho,

É triste, muito triste, quando temos de esconder as nossa lágrimas. Quando, para os outros, as nossas lágrimas são "ridículas", porque a vida deles continua. Continua sim, para eles. Mas para nós, o desgosto não tem fim. A morte rodeia-me sem dó nem piedade. Depois de si, o Opa, e agora a Foxie. Eu sei, não é mais do que um cão, mas é a minha companheira, a nossa Foxie deixou já de comer. Aninha-se no meu colo e encosta o focinho ao meu peito e sente-se que esse aconchego a alivia. 

Tim...já não tenho força. Não há amanhã que me valha, no ontem onde fiquei presa, nas memórias, nas recordações, na saudade. 

Ante-ontem foi um dia menos mau: a Doutora Ana Carolina tem sempre um sorriso que me encoraja, um ouvido que me escuta sem julgar, um carinho incrível. Ofereci-lhe uma Diana que acho parecida com ela, tem flores no cabelo, e um vestido de Primavera. Hesitei, porque não a queria ofender com um presente tão pessoal, mas ela entendeu, porque é uma pessoa iluminada. Quando vou falar com ela, saio cheia de força, mas que depressa se dissipa perante esta adversidade sem fim. Precisava dela vinte e quatro sobre vinte e quatro para me abraçar, para me dizer que me entende, que entende esta dor dilacerante que me rasga tudo, que me mata e me destrói mais ainda. Mas não posso, porque somos a nossa própria circunstância. Martim...meu Amor, meu Filho, minha saudade, leva-me contigo. Abre os braços para mim e envolve-me na tua eternidade, leva-me meu Amor.

Não AGUENTO tanta dor, tanta perda, tanto desgosto! Estou cá pelo Mano, e só por ele. E pela Oma, coitadinha, que bem merece, mas só por eles. Mas em dias como o de hoje, quem me dera (re)encontrá-lo a si, sentir o seu abraço, a sua pele, a sua voz. Filho, a saudade mata-me. Rasga-me, aniquila-me, e ainda nem tive a coragem de chorar o seu avô. Não posso, senão morro, e não posso, porque o Mano precisa de mim. Mas Tim...não tenho mais força. Não posso mais meu Filho. Não aguento. Cheguei ao limite. 

Tim...estou sem rumo, sem Norte, sem bússola, sem Porto de Abrigo. Estou cansada de chorar, de perder afectos, de desgosto. Não posso mais Filho! De quantas lágrimas se faz um luto? Filho, só quero um abraço, um aconchego!

Filho...ando sem rumo, sem destino, sem Norte...ando à deriva, ando à sua procura numa busca incessante de algo que não tem resposta, num desgosto sem fim!

Martim...meu Filho, minha Vida, meu Amor, vou tentar. Prometo que fico pelos que precisam de mim, mas...

...mas e num sussurro só nosso confesso, 

...leva-me contigo! Seja de que forma for, leva-me...

...Contigo!

Amo-te meu Amor, minha Vida interrompida, meu filho, meu Amor...

Tim...

Com todo o meu amor infinito,

Mami 



domingo, 9 de abril de 2023

9.4.2023 - One Day minus 252 - Domingo de Páscoa - Gratidão

 



Meu adorado Filho,

Não lhe venho escrever com grande propósito, no sentido que não tenho nada de transcendental para lhe contar, que não lhe tenha já sussurra neste Domingo Pascal, em que aqui na Quinta, escondi ovos para o Mano e os amigos, como se tivessem doze anos. E que bom que foi vê-los à procura deles com a sofreguidão curiosa da inocência de crianças - que felizmente - ainda não perderam! O Mano e eu falámos de si, e foi bom. Quem é recordado, nunca morre! E você é recordado em todos os cantos e recantos, em memórias e vivências, por muitas, muitas pessoas. É Domingo de Páscoa, e lembro-me de um célebre Domingo Pascal, em plena Quarentena, em que fomos a casa do Tio Nando. Estava um dia como o de hoje, com um céu de um azul de cortar a respiração. Nesse dia, entre o cabrito do Tio Nando, o meu Cozido à Portuguesa, e a voz reprovadora do Pai, que, com toda a razão, dizia ao telefone que nós dois éramos doidos - mais eu, porque era sua Mãe e permitia tanta inconsciência - naquele terraço com vista para o Tejo, falámos de relógios, de política, de amizade e da morte. Aflorámos a morte, porque depressa percebi que não era um tema. Aqui falamos da sua morte com naturalidade. Com uma saudade infinita, imensa e sem fim, mas falamos. Custa muito a acreditar, por vezes, ainda dou por mim a achar que está a viajar e que depressa voltará para os meus braços sequiosos de Mãe, para depois, com desgosto sem fim, pensar que essa viagem foi a última. Cai a noite em frente da janela do meu atelier e sinto-o. Sei que cá está comigo. Ontem, quando finalmente, e por apenas alguns minutos me deitei no "hammock", uma águia lá em cima no céu, tão longe que era quase um pontinho minúsculo, pairou sobre mim. E foi a olhar esse Céu na sua imensidão de azul, que mergulhei na gratidão de ser Mãe de dois seres especiais. Um, felizmente que posso abraçar, estreitar contra o meu peito e dar inúmeras bênçãos na testa, o outro, o outro afago com o sal das minhas lágrimas, e a gratidão do meu ser por ter sido a sua Mãe, e ter tido o privilégio de o trazer ao Mundo, e de o acompanhar durante (breves) vinte e seis anos. Meu Filho...a Páscoa trouxe-me um caroco, que o Mano baptizou de "Amarelinho", e vários patinhos, minúsculos, ainda não sabemos quantos, porque a Pata não nos deixa chegar muito ao pé.

A Páscoa trouxe-me, uma vez mais, a trágica, e conquanto, tão abençoada realidade de Maria: de perder um Filho pela Humanidade. Não sou santa, nem você é Jesus, mas ofereço o meu sacrifício por um Mundo melhor. Onde haja alguma Paz, e sobretudo, onde cada pessoa encontre a valorização dos nossos. Porque a Vida é tão efémera, tão curta, tão curta, que se as pessoas soubessem o que é a verdadeira SAUDADE, aproveitavam cada segundo como se fosse o último, na sofreguidão de vida de quem, na Quarentena, partilha cabrito e cozido e fala de relógios.

Meu Martim, minha Vida, meu Amor...

GRATIDÃO! Por si e pelo Mano, pela bênção constante de ser...

...Mãe!

Mil beijos meu Amor,

da Mami


P.S. Ficou um ovo escondido, que resvalou para fundo do tronco de uma das Oliveiras, e eles não quiseram por a mão com medo das abelhas. É só um, mas acho que você vai adorar andar à procura. Boa caça de ovos meu querido Filho!

quarta-feira, 5 de abril de 2023

5.4.2023 - One Day minus 248 - (N)outro plano...

 



Meu adorado Filho,

Há muitos (demasiados) dias que não venho aqui para lhe (transcr)escrever as nossas conversas. Não foi fácil lidar com a morte do Opa Freddy, e aqui na Terra mil e uma coisas aconteceram. Aprendi, com a sua partida, a lidar com a perda, com o desgosto, com mais um pedaço de sentimentos arrancado, roubado, retirado do meu coração. A partir aí tudo se relativiza. Parece incrível, mas não é, é a realidade de uma Mãe que nunca mais vai poder abraçar o seu Filho do Céu. Mas mesmo assim a partida do Opa doeu como o raio!

Nem sei por onde começar...as Dianas têm sido a minha tábua de salvação neste Mundo, cada uma mais querida do que a outra. É terapia, é epifania, é um pedaço pequeno de Alegria...

...Meu adorado Filho,

Nem me atrevo a (transcr)ever o que me vai no íntimo. As Dianas são a minha ligação com o Cosmos, e cada vez mais sinto isso. Não posso verbalizar muito o que sinto, senão internam-me mesmo e de camisa de forças, mas você sabe o que quero dizer. é verdade, e a cada dia tenho mais provas disso: a nossa (sua e minha) ligação vai muito, mas muito mais para além do Além, ela persiste e subsiste num plano inalcançável ao comum dos mortais preocupado com isto e com aquilo. Bom, eu também me preocupo com (o) isto e com (o) aquilo, porque não vivo do ar, mas o que é certo é que uma vida de contemplação, de meditação, de trabalhar a terra para a plantar, de acarinhar animais e de fazer nascer Dianas cada vez mais perfeitas, nos aproxima daquele plano indescritível, (quase) inalcançável, mas contudo, existencial(ista), em que o Céu e a Terra se unem, porque o Amor é como um Arco-Íris, incandescente de cor e de Esperança.

Martim, meu Filho querido, eu sei, a Oma sabe, você sabe e nós sabemos. É isso mesmo...

E com isso me despeço de si, num até já na máquina de costura, com um sorriso...

da sua Mãe que o adora,

Mami

05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...