quarta-feira, 2 de agosto de 2023

2.8.2023 - One Day equals 356 - o dia em que tudo mudou = ZERO!




Meu adorado Filho,

Sem palavras! Fiz um grande silêncio hoje, às 21:15, hora em que você partiu. Estivemos em comunhão, em canal entre a Terra e o Céu. Obrigada pela Estrela de ontem, que, iluminada ou espelhando uma perfeita lua cheia, me acompanhou na vigília.

Hoje faltam-me as palavras, o fôlego, o ar. Hoje toda eu sou dor. Mas também sou dor apaziguada. Sei que está bem. Sei que está aí, longe, mas perto, ao alcance de um batimento do meu coração.

356 dias de agonia, de morte em vida, de um sofrimento inenarrável.

Amanhã...amanhã começa uma nova contagem. Só peço ao Universo que seja mais suave, ou menos espinhosa. 

Filho,

aqui, aí e ali. 

Hoje e sempre, até à Eternidade!

Mil beijos da sua Mãe que o chora de coração dilacerado, mas tão grata por o ter tido!

Mami

quarta-feira, 26 de julho de 2023

25.7.2023 - One Day minus 349 - Este país não é para fracos, nem para desistentes, e ainda menos, para Pais cujos filhos foram mortos pela negligência de outros

 



Meu adorado Martim,

Estou viva. Oh se estou! Hoje mais do que nunca, pela primeira vez em 359 dias. A palavra é EMPOWERMENT e a ideia é: a Justiça! Não vivemos num país normal. Nem nada que se pareça. Vou tentar resumir-lhe, e escrevo-lhe isto com as entranhas revoltas, o que por um lado é péssimo, por outro, excelente, pois mostra que ainda resta uma réstia de vida em mim!

Mas vamos por partes. Neste maravilhoso país onde vivo e pago os meus impostos, passado quase um ano, o relatório macabro da sua "autópsia" ainda não está disponível. Continua em segredo de justiça, muito embora já tenhamos pedido (e pago, claro!) a sua cópia. Disto se deduz que todas as burocracias, um ano depois da sua partida, continuam por resolver. Ou seja, este país é para perseverantes, para aqueles que conseguem, apesar da sua dor e do seu sofrimento, continuar a lutar por justiça, essa palavra mágica, que não faz parte do dicionário da novilíngua "Tuga". Neste país, a coragem é para os malfeitores, ladrões e outro demais, verdadeiros heróis perante os novos valores com que esta porcaria de sociedade se rege. Continuamos na estaca zero, porque sem relatório detalhado do seu sofrimento, nada se vai conseguir.

É também neste país maravilhoso, onde quem nos mata um filho inocente, por incúria, continua à solta, que nós, os pais, somos os criminosos, os preguiçosos, aqueles que se escondem debaixo da capa da baixa médica, porque, infelizmente, a nossa cabeça não funciona como é esperado e não conseguimos exercer a nossa profissão. E assim sendo, já sei que, apesar dos especialistas da psiquiatria do SNS não me considerarem apta a trabalhar, cabe aos "decisores" da comissão de avaliação de incapacidades, a última palavra sobre isso. Ou seja, nem sequer se dignam a ler os relatórios, basta acharem que um ano é o suficiente, ou não irem com a minha cara, para me porem na boca do lobo. Fantástico! Portanto eu, que estou mentalmente mutilada, mais tarde ou mais cedo, e provavelmente muito mais cedo, vou ter de dar o cérebro ao manifesto seja lá como for, que isso não é problema deles, porque eles "acham", do verbo achar, o que é sinónimo de que as leis só se aplicam aos criminosos e aos burlões - os verdadeiros heróis de Portugal - que um ano é mais do que suficiente para vivermos às custas do Estado. Talvez quando for despedida com justa causa por fazer um erro dramático, e me ver forçada a pedir esmola à porta da igreja, talvez nessa altura eu decida ir às Tardes da Júlia e fazer chorar alguns milhares de Portugueses e com isso, consiga um Lobby. Talvez seja nessa altura que eu faça com que a Vox Populi se manifeste, porque até aqui, somos condenados ao absurdo das leis que nos regem. Ou seja: muito embora os especialistas considerem que a minha cabeça está lesionada, os decisores, se acharem o contrário - e já me ameaçaram que o iam fazer - põem-me a trabalhar, e se fizer asneira, o problema é meu! Portanto, a treta da lei que diz que podemos estar mil e não sei quantos dias de baixa, não se aplica, se os "decisores" considerarem o contrário. Acredito que neste país é preciso estar moribundo, para nos darem aquilo a que temos direito! O que é inteligente, porque quando o fizerem, já passámos para o outro lado, e sempre se poupam uns Euros ao Estado. 

Entregue o seu IRS, e passados longos meses após a sua morte, o ressarcimento do que você pagou a mais, veio em cheque em seu nome. Que ironia macabra! Ou seja, as Finanças, que sabem que você morreu há quase um ano, emitem o cheque em seu nome, porque constatam que, devido à sua morte, a sua conta foi encerrada. Em qualquer banco do Mundo, com a habilitação de herdeiros, podemos movimentar as contas, mas não em Portugal. Aqui, temos de esperar sessenta dias, para que o cheque emitido em seu nome caduque, para pedirmos outro em nome do seu Pai, Cabeça de Casal, que irá demorar outro tanto a ser emitido, para sermos ressarcidos daquilo que você pagou e a que tem direito. VIVA o Estado português e o que faz aos pais de filhos que morreram! Que compreensão, que comiseração para com o infortúnio dos contribuintes. Roubem milhões, que são heróis, peçam aquilo a que têm direito, de um Filho assassinado, que esperem, porque, quem espera, sempre alcança! Tão bom o país em que vivemos!

Mas isto não é tudo! No domingo rebentou o esgoto do prédio do qual arrendo a garagem, onde guardo os móveis, livros, e tantas outras recordações que não cabem cá em casa. Fui alertada por uma pessoa que, dado a água com cheiro nauseabundo que saia da garagem, me ligou.  Andámos todos, com trinta e dois graus, de galochas, literalmente a limpar MERDA com altura de dez centímetros. Falei para o Senhorio e sabe o que me disse?

- "Minha Senhora, isso não é comigo, vá bater às portas dos inquilinos e dos proprietários e eles que resolvam o problema, e se não resolverem, vá à Câmara!"

Perdi as estribeiras, e passei-me dos carretos. Fui malcriada e fiz o que neste país os reles fazem: chamei a polícia, as águas e a Câmara. Não queriam acreditar no que viam, uma torrente de esgoto a sair pelo cano do tecto da garagem, onde nem sequer tenho água! E vou fazer o que aqueles que se safam sempre fazem: não vou pagar a renda, até ser ressarcida do prejuízo. Não lhe vou descrever o que saiu daquele esgoto, nem do que tive de deitar fora, para não chorar de raiva, tenho os vídeos e as fotografias que documentam mais do que bem, que nem só na Índia, ou nos países do terceiro Mundo, acontecem coisas destas, verdadeiros atentados à salubridade pública! 

Em suma, meu Filho, é isto a luta de quem luta por "encerrar" burocraticamente a morte inusitada de um inocente, mas que, aos olhos da "sociedade" é uma criminosa preguiçosa, que tenta (sobre)viver às custas do Estado.

Só me apetece partir coisas, viver na anarquia, porque neste país, só esses é que se safam!

Mas no meio disto tudo, consegui, desde ontem, comer como deve de ser. Claro que isto se deve ao anjo que me ajuda, à Dra. Carolina, a pessoa que me entende e me acompanha...mas que, ela também, não faz milagres!

Talvez você consiga fazer alguns?

Estou viva meu Amor, quanto mais não seja, pela raiva que hoje habita em mim!

Mil beijos da sua Mãe que o adora, mas que nasceu no país errado,

Mami! 



sábado, 22 de julho de 2023

22.7.2023 - One Day minus 346 - Do Opa Fritz e outras doces memórias, de saudade, de mil vidas recordadas

 






Meu Filho adorado,


Estou sentada cá fora, finalmente um dia mais em paz. Estive a ouvir a sua voz nas nossas inúmeras mensagens via whats up. Que saudades meu Deus! Faz na segunda feira um ano que trocámos a última. Depois disso, estivemos juntos tantas vezes naquela última semana em que a minha vida ainda era uma Vida! Em que eu era uma pessoa normal.


Agora sou um resquício de gente, um átomo do que fui, navegando nas memórias que uma existência de que tenho tanta dificuldade em reconhecer como minha.


Não lhe tenho escrito, porque de nada vale sobrecarregar um Anjo com tristeza ou com a saudade infinita que me assola.


Estive muitos dias sem praticamente conseguir ingerir qualquer alimento sólido. Só as sopas e os sumos passavam na garganta, de tal forma as emoções fizeram aí um nó. Agora estou um bocadinho melhor. Não tenho conseguido pegar nas Dianas, nem nos restauros, mas a abundância da horta, face ao desperdício e aos preços, obrigaram-me a voltar aos Chutneys, às conservas e ao molho de tomate. Já fiz tanto, mas tanto, que não sei contar os frascos que esterilizei, enchi e pus a pasteurizar. É uma forma de meditação que me apazigua, pois o meu espírito voa para longe, para junto de si, enquanto tudo ferve na panela.


Filho, tanto mas tanto para lhe escrever, e tão pouca força me resta, nesta solidão dos meus dias, em que o sol nasce, e o sol se põe.


Hoje faria anos o Opa Fritz. Você nunca o conheceu, mas se eu fechar os olhos, vejo e revejo todos os cantos do Largo Conde de Ottolini, onde ele e a Oma Kaethe faziam tudo para me fazerem feliz. Aquele senhor impecável, tão boa, excelente pessoa, que todos os dias ia buscar o jornal para a sua bisavó ler na varanda ao pequeno almoço.


Já percebi que à medida que envelhecemos, as doces recordações não são mais do que carícias da memória no nosso coração, resquícios de uma infância e adolescência que teimam em não ter existido, para se tornarem numa história de inocência há muito perdida.


Meu Filho, à medida que o tempo passa, demasiado tempo para você ter ido numa viagem, vejo-me forçada a perceber que, desta vez, foi uma viagem sem retorno físico, e isso parece uma ilusão. Não me conformo com esse facto, a sua voz é ainda demasiado presente, o calor do seu abraço e do seu “adoro-te”, demasiado real. Já perdi a conta aos dias em que choro a sua partida, e soluço a saudade que sinto sua, nesta existência superficial, em que me limito a ver as horas passar.


Meu Amor pequenino, meu Anjo, meu Filho, só me apetece berrar, gritar, vociferar a minha saudade, a minha perplexidade perante tamanha injustiça que o destino me quis dar. E ao mesmo tempo, só me apetece sentir o seu abraço, aquele cheirinho a si, o toque da sua pele, a força dos seus braços, o amor que sempre nos uniu.


Martim… ofereço o meu sacrifício diário , todos os dias, por um Mundo melhor, mas sei que isso não existe, pois o Mundo que eu conheci, habita na Eternidade!


Um beijo imenso, carregado de desgosto e de saudade!


Da sua Mãe que o adora,


Mami

sexta-feira, 7 de julho de 2023

7.7.2023 - Onde Day minus 341 - 4ver 2gether




Meu adorado Filho,


São oito e meia da noite e o dia ainda vai alto. Amanhã casa um dos nossos Épicos. Talvez um dos seus Épicos mais épicos. E, num gesto de carinho imenso, esse nosso épico Épico convidou-me. E lá estarei.


Não me é fácil…nada, e ainda me lembro de sonhar várias vezes com o fato de seda selvagem castanha com que iria ao seu casamento.


Em vez disso, vou de roxo. A cor do luto. Experimentei as joias de família, de que a Oma tanto insiste, Mas quando olho para o espelho, vislumbro o reflexo de uma anciã com mais de cem anos, numa substantivo reflectivo de uma velhice precoce, de futuro roubado, que se anuncia numa expressão sem brilho: resquício de ser humano à procura de redenção, aquela sensação de paz, que raramente se consegue, agora mais do que nunca.


Leio mil linhas de desgosto, traduzido em infindáveis sulcos rasgados, num rosto que se sonhava (ou que se sonharia?) sempre jovem. Vejo - escarrapachado e mal escrito, em tonalidades de cinza plúmbeo, - a palavra SAUDADE!


Martim…mais uma vez se me dilaceram as entranhas, mas lá estarei, como sempre!


(Ou estaremos?)


Prefiro esta, de longe!


Mil beijos meu Amor!


Mami

terça-feira, 4 de julho de 2023

4.7.2023 - One Day minus 338 - "The Show must go on" ou "Eu moro, num país tropical" (ou será surreal?)

 



Meu adorado Filho,


Tenho tanto para lhe dizer…

E nem sei como começar, porque eu não tenho uma boa notícia há muitas, muitas luas.

Ontem foi mais um dia muito mau. Muito mau. Foi um dia de raiva pela burocracia e injustiça deste miserável país, em que não só nos matam o Filho e nos destroem por dentro, aniquilando toda a nossa vida anterior, fazendo de nós eternos enfermos moribundos, como também nos estipulam tectos máximos para as despesas de quem perdeu um filho, e só lhe quer prestar uma última homenagem, num estado mental totalmente incapaz, mas num esforço hercúleo para estar presente, numa presença sem fim! E “estou” presa, nesta raiva e nesta revolta que me corroem!


 E…enfim Filho, não quero sentir isto. 


Quero continuar a sentir nas minhas entranhas, tudo o que tenho vindo a sentir nestes meses de saudade, porque está certo. É como se o Universo falasse comigo através de sinais, ou melhor, de premonições, e todas as que tenho tido, acabam por acontecer! E sentindo, falo de sentimentos! Tanto “sentir” fez-me pensar que sinto demasiadas figuras de estilo, numa sensação constante de saudade (IMENSA!)



Entretanto, e como andamos em maré de compreensão e de humanidade, fui a mais uma Junta Médica. E como o universo acha que eu ainda não apanhei o suficiente, quem me calhou foram os dois fantásticos médicos, porque, enfim, ou alteraria o adjectivo, ou o substantivo - leia-se profissão - dos ditos, que, um mês e meio depois da sua partida, me disseram, (sic) “está na altura de retomar o trabalho, de se distrair, e de voltar de novo a ser um contributo para a Sociedade!” 

Bom, então foi teatro do Absurdo, Ionesco no seu melhor. Não vou transcrever aqui o diálogo, até porque vou ter que falar com a Doutora Ana Carolina sobre isso, e não o quero perturbar ainda mais no seu descanso meu Filho querido! Mas acabou comigo a dizer isto:


- “O Sr. Dr. (e confesso, que, o que me apetecia ter dito, era algo como: “Oh meu Anormal”) não acha que eu preferia estar a trabalhar, sentir-me um ser humano, em vez de um farrapo, e ter o meu Filho mais velho vivo?”

Mas que culpa tenho eu de não conseguir recuperar a minha memória, ou a minha concentração? Quem me conhece, sabe que uma das coisas que mais gostava de fazer na vida, era ler. Ninguém imagina o que me custa não o conseguir. Ninguém sonha a esquizofrenia que coexiste na minha cabeça, porque não reconheço em quem me tornei! Porque, aos cinquenta e seis anos, quase sete, nasci no mesmo corpo, mas numa cabeça de uma desconhecida!

E querem que EU me sinta um parasita da sociedade, já que não consigo exercer a minha profissão, porque alguém se lembrou, num maldito dia de verão do ano passado, de não parar num sinal, e de me matar o meu Filho? Então EU sou culpada, é isso? Uma preguiçosa, que decidiu, ao fim de trinta e muitos anos de descontos, arranjar um “pretexto” para deixar de trabalhar?

É isto Filho! É este o Mundo em que (sobre)vivemos! É esta a herança (con)descendente da Humanidade!

Concordo que se proteja a Natalidade, e os pais que dão à luz, contribuindo para a sociedade, ou, soit disant, para a sua sustentabilidade, mas também deveria haver alguma compreensão - já para não referir apoio - para aqueles que fizeram isso mesmo, mas cujos Filhos lhes foram ROUBADOS!

E, contudo, esses não são - FELIZMENTE - em número suficiente para fazerem um Lobby, mas não deveria ser necessário!


Um beijo enorme da sua Mãe que o adora,


Mami

P.S. Meu Filho, não lhe escrevi no dia dois de Julho porque, simplesmente, não consegui. As lágrimas não deixaram, mas você, meu Amor, você lê o meu coração!

segunda-feira, 26 de junho de 2023

26.6.2023 - One Day minus 330 - Teatro do Absurdo

 



Meu querido, querido Tim,

Nem sei por onde começar...estive a reler as nossas conversas de whats-up e deparei-me com uma troca de mensagens em Junho do ano passado, aquando de uma canícula sem igual. Mas o calor não tem importância, a não ser que seja para dizer que estamos, não no mesmo patamar de temperaturas, mas de torra igualmente insuportável, pelo menos na escala de Fahrenheit.

O meu carro morreu hoje de manhã. Saí - felizmente a mais do que horas - para ir para Tomar, e quando dei à chave, népia! Entrei em pânico, porque perder uma consulta da Doutora Ana Carolina seria uma catástrofe, e fui acordar o Miguel aos gritos, que, meio sonâmbulo, lá me levou, não sem antes dar de comer aos patos e às galinhas. Mas cheguei a horas, e lá deixei, uma vez mais,  todas as minhas mágoas, como é habitual, e ela, naquele carinho e empatia únicos, ouviu-me sem me interromper. Tem uma sensibilidade fora de série, e ir lá é um bálsamo para a minha Alma dorida e doente de saudade.

Tudo tem sido arrancado a ferros, literalmente TUDO! De um passo que damos em frente na infindável burocracia, damos três para trás, é um desgaste DESUMANO diário, e pergunto-me, se as pessoas que lidam com casos como o nosso, conservam em si alguma réstia de humanidade, mas quero crer que não. Há duas semanas deparei-me com letras, preto no branco, no ecrã do meu telefone a dizer: "aguardamos que o juiz liberte o relatório da autópsia". É tão duro ler coisas como essas! Continuamos na luta incessante e estou cansada. 

Hoje faz dois meses que o Opa Freddy morreu, e ainda nem sequer tive o tempo, ou a coragem necessária, para lidar com mais essa perda. Amanhã o Opa faria anos. Lembro-me dele no ano passado, a dizer que ainda ia viver muitos mais, enquanto enumerava as pequenas maleitas que o assolavam. O Opa...que amanhã estará no Céu a beber um Planalto gelado consigo! E eu aqui, cheia de saudades vossas, daquelas que rasgam as entranhas!

Entretanto tive cá as tias todas almoçar, e penso que foi a energia delas, que me deu força para enfrentar isto tudo. Trouxeram-me inúmeros miminhos, mas sobretudo, o seu carinho e amor. Agora estou melhor, mas as duas últimas semanas foram um pesadelo. Em Lisboa não consigo dormir, o barulho põe-me doida, e as recordações que me assolam, enquanto palmilho os passeios, cortam-me a respiração. O campo acalma-me, muito embora neste momento, eu esteja com a cabeça cheia de preocupações. Mas também  de algumas boas notícias:  Calcule que o Manel vai casar! Imagino a sua cara aí no Céu! Fiquei muito, muito contente com a notícia, afinal vocês fazem uma semana exacta de diferença, e ele também é um bocado "meu", como você é dos Tios. 

Em Lisboa fui mudar o fio da pulseira, que estava a esgaçar, e conheci a Sónia, uma pessoa espetacular. Custou-me horrores lá entrar, vi-o sentado na loja, enquanto elas lhe mudavam o fio das suas, de laranja para amarelo, e recordei-me do seu telefonema sobre a sua escolha de cor. Tudo isto foi poucos dias antes da sua morte, tanto, que quase ninguém sabia do amarelo. Elas sabiam. Eu também. E rimos, e chorámos, e abraçámo-nos, enquanto os turistas japoneses entravam e saíam. 

FILHO, sei que subiu. Está muito mais alto, muito mais longe, conquanto sempre tão perto, mas sinto que já não paira aqui, entre os dois Mundos. Sinto isso perfeitamente, sei que esperou por mim, e quando me viu a combater as agruras diárias com a garra incansável de sempre, você finalmente voou para o Infinito do Céu, porque que constatou que a minha centelha continua. Senti a sua subida, e isso custou-me, de novo, horrores. Horrores. A centelha mais parece um pavio fininho, fininho, quase moribundo, mas que quer honrar a sua memória, está cá, ainda arde numa chama pequenina. A tia Ana contou-me da coruja e arrepiei-me toda. Ela, como eu, sabe, sente e vê com os olhos da Alma. A nossa coruja desapareceu do jardim na mesma altura que a dela se foi despedir deles, e foi aí que tive mesmo a certeza de que você subiu. Que bom meu Amor. Agora, na incerteza de que as minhas cartas lhe chegam, continuarei a escrever, escreverei sempre e para sempre meu Amor querido. Mas sei que está longe. Contudo para um coração de Mãe como o meu, o importante é saber que o seu Menino está bem. Mesmo longe, que está bem. E eu sei que está!

Filho do meu coração, quase onze meses depois da sua morte, "I'm stranded". Não só porque sem carro, mas sobretudo porque náufraga, afogada em preocupações e em saudade. Sem farol nesta tempestade que me assola. 

Tim...mande um beijo ao Opa. Diga-lhe o quanta falta me faz, mas como fico contente de que estejam juntos. E cantem os parabéns e apaguem as velas. Aqui arde sempre uma, todas as noites, no seu Altar.

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami



terça-feira, 13 de junho de 2023

13.6.2023 - One Day minus 317 (Santo António)

 



Meu adorado Filho,

Há muitos dias que não lhe escrevo. Muitos dias em que andei a saltitar deste, e do outro lado da linha, porque ela é ténue. Houve dias em que achei que endoidecia. Outros menos. Sei que a minha sanidade é proporcional ao meu desgosto, e a muitas outras coisas. Como você sabe, na minha vida nada vem de forma fácil, é tudo arrancado a ferros, e os problemas inerentes à sua morte, bem como outros tantos, têm-me posto à prova. 

Nestas agruras que teimam em me afogar, as minhas conversas consigo assemelham-se mais a súplicas, apelos transformados em murmúrios, preces que lhe invoco, neste nosso diálogo constante. Não vale a pena descrever-lhe o que tenho passado, porque seria tudo uma repetição de uma lamentação contínua, mas vou-lhe resumir ao máximo as vivências mais importantes das duas últimas semanas. Revisitei - em espaço demasiado curto, mas é o que é -  os areais onde nos divertimos tanto enquanto você e o Mano eram crianças. Fechei os olhos e ouvi a sua voz no Xico a pedir para andar de gaivota, molhei os pés numa das praias onde vivemos um dos dias mais giros da nossa vida, pisei os mesmos grãos que pisámos juntos, quando ainda éramos felizes. O meu espírito voou, e foi esse voo tão introspectivo, que me possibilitou continuar, onde penso que (já) não pertenço. Muita coisa aconteceu, e cheguei à conclusão de que é na nossa concha, fechados sobre nós mesmos, que estamos seguros. A minha vida, uma vez mais, mas de forma tão diferente, é experienciada dentro do meu âmago, ali onde só chega quem eu deixo. Foram várias as lágrimas, não por saudade essa é constante, mas por falta de compreensão, de amor, de compaixão. E isso é tramado. Mas é o que é.

O seu bisavô faria anos hoje. Foram tantos os anos em que fomos para os Santos, nessa Lisboa da qual tenho saudades, nesse tempo imaculado, intacto, pleno de inocência polvilhada a aroma de Jacarandás. 

Está mais longe meu Filho, sinto-o, e isso custa-me, mas também sei que, enquanto no meu coração não voltar a reinar a paz, assim irá continuar. Mas sei que está. Sei que agora, quando finalmente encontrei coragem para lhe escrever, me está a espreitar sobre o ombro e a sorrir. Sinto. Tão bom meu Amor. Tão, mas tão bom!

Não estou em paz, longe disso, no meu coração governa a mágoa por muitas coisas que aconteceram, por actos que não se desfazem, por injustiças que tenho que engolir, mas para lá caminho. Tenho um objectivo, e quando regressar de Lisboa, vou colocá-lo em prática. O meu espírito germânico, ou o que resta dele, fruto dessa aculturação que tanto me custou enquanto eu era criança, mas que tanto me ajuda na idade adulta, vem sempre ao de cima, e a camada de gelo que produz, é absolutamente vital, tanto quanto genial! Vou por em prática uma série de coisas, porque se não o fizer, continuam a destruir-me sem dó nem piedade e eu assisto, incapaz de reacção, e isso não sou eu. Mas demorei duas penosas, pungentes e muito sofridas semanas a chegar a este desiderato.

Estou cá meu Amor. Estou cá e relembro tanta coisa, tantos momentos, tanta partilha! Tanta dádiva. 

Hoje é também o dia de um Anjo que sei que está consigo. Um Anjo que deixou cá uma Mãe que, como eu, sofre. Sofre desmesuradamente, injustamente, neste Mundo cruel e mau! E sei que nesta madrugada me pediu para eu vos deixar as luzes do seu altar acesas. E deixei, porque percebi que era um sinal seu. E hoje ardem de novo duas velas, a sua e a dele, e vocês sorriem aí no Céu. Filho, peço-lhe perdão por ter deixado a mágoa entrar no meu coração, mas sou apenas humana, e o que sofri dos meus congéneres nas últimas semanas, foi demais!

Filho...acho que consegui saltar do lado de lá para o lado de cá, com a sua ajuda, mas as feridas que me fizeram, ficam cá. Ficam comigo, enterradas no meu âmago, naquele núcleo que só pede amor, mas que apenas encontra crítica e indiferença e mil problemas burocráticos.

Filho...não sei se o avô Freddy já aí chegou, ainda não tive coragem de me debruçar sobre isso. De despejar a tristeza, a mágoa, a revolta. Acho que sim. Não lhe consigo chegar, acho que está de tal forma preocupado comigo, que como sempre, faz por ignorar, porque sempre lhe foi mais fácil. Mas espero que sim, que ele o tenha abraçado de encontro ao coração e que tenham falado muito. Também a Foxie, esse cão como não haverá nunca mais outro no Mundo já aí chegou de certeza. Pelo amor de Deus não a chateie Filho. 

Martim, devolva a pureza do Amor ao meu coração, é só o que lhe peço. Retire-lhe a mágoa que me causaram e ajude-me a alcançar a Paz da saudade. Aquela que eu sentia há umas semanas, pungente, claro, mas que me trazia para perto de si...

Filho...do lado de cá da linha, ajude-me a ficar aqui, a não passar para o outro, porque só há apenas uma coisa que me assusta, e que já esteve mais longe: a insanidade mental.

Só isso!

Amo-te Filho...amo-te e prometo, juro, que não me voltarão a fazer mal.

Mil beijos da sua Mãe que o ama...

...Mami!




05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...