quinta-feira, 31 de agosto de 2023

31.8.2023 - One Day plus 29 - Sobre Lilly Allen, e outros "innuendos"... sobre a Lua Azul

 




Meu adorado Filho,


Você esboça um sorriso, que, segundos depois, vira mesmo e genuinamente rasgado, e eu escondo um esgar, entre a ironia e a displicência. 

- "»Coitadinhos«, certo Tim?"

- "Once in a Blue Moon"... poderia começar assim a nossa história: "there was a mother who dreamt and at the same time, had an intuition...and that intuition came true". 

E no meio dessa intuição, e desse acontecimento, medeiam muitos e fantásticos anos. Consigo, sempre! Comigo, para a eternidade. Connosco, até o Universo deixar de existir.

Há uma vida para além da morte, quando um Filho nos acolhe no seu regaço de Luz, e nos mantém lá por muitos meses. Há uma Coruja que cantou nas noites mais escuras que um inverno pode vislumbrar...há alguma coisa para além deste tempo e deste espaço.

Há...NÓS..., que prendem, que enlaçam e não largam, há dois seres: um aqui, outro aí, mas isso não importa, porque a barreira do "ser" é transponível através do AMOR.

- "Quantas músicas sobre a Blue Moon conhece? Só assim de repente, e sem escrever offline? Presley, Billie Holliday, Sinatra, Nat King Cole e mais quantas?" Bom vamos explicar aos leigos. Uma blue moon, ou lua azul acontece raramente, mas não é nada do outro mundo. E o que significa? Significa que no mesmo mês, há duas luas cheias. 

Apenas isso...é um mês fértil este ano, o mês de Agosto, este mês que termina hoje. Hoje, um ano depois. Depois de um tudo ou de um nada, de um tsunami que me levou no seu vórtice e me ameaçou devorar. Mas hoje, muitas luas, e, sobretudo, muitas lágrimas depois, aqui estou, de Alma exposta ao futuro, aquele que sei hoje, não virá sem o presente de um tempo vivido no aqui e agora, e de um passado revivido com tanta dor, qual puzzle composto por memórias felizes.

Mas o hoje tem um sinal, uma mensagem, uma chama de vida, um resquício de saudade resgatada às memórias, e, acima de tudo, um significado. 

Hoje e sempre, meu Amor, agora de uma forma muito mais apaziguada, mas nunca menos intensa ou saudosa,

Mil beijos da sua Mãe que o AMA e JAMAIS o esquecerá,

Mami


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

25.8.2023 - One Day plus 23 - Aquele nosso Santuário

 



Meu adorado Martim,


Tenho tido tantas coisas para lhe contar, que nem sei por onde começar esta carta. Vou simplesmente escrever, ou seja, deixar que os meus dedos dominem o teclado, para ver onde me leva a escrita, ou a saudade. Ou ambas. Ou o meu Amor por si!

Apaziguamento é o que se passa depois de um ano. Aceitação de uma partida, tão dolorosa quão pungente, mas a vida continua, nem que seja em vislumbres de episódios...mas estou a ser injusta. A vida continua ao seu ritmo, neste borbulhar do quotidiano, neste passar das horas, neste Verão que começa a cheirar a Outono, num passar dos dias, cada um com a sua característica.

Nós, bem, nós continuamos a manter aquele nosso espaço secreto, onde somos unos, onde comunicamos para além do tempo e do espaço, mas consigo sem "cá" estar. A sua falta acabrunha-me, entristece-me, conquanto me alegre o facto de estar tão, mas tão aí em cima, no reino dos Eleitos. Sinto-o muito longe, finalmente em paz, e agradeço-lhe a sua permanência, a sua força, aquela que me transmitiu ao longo do Inverno mais frio e mais escuro da minha vida.

Em sua honra, em nome do seu sacrifício em pairar entre estes dois Mundos, decidi que ou era vítima, ou heroína, e, confesso, optei pela segunda forma, quanto mais não seja, para honrar a sua memória, o seu legado.

Todas as noites acendo o seu Altar, e todas as noites, sei que está cá, menos, muito menos, mas está em paz. 

Ontem fui à Doutora Ana Carolina explicar-lhe a minha estratégia, o meu projecto. Uma vez mais agradeço aos Céus, e a si, sobretudo, ter mandado este Anjo em forma de médica, cruzar o meu caminho. Tinha uma T-Shirt de Van Gogh e apeteceu-me imenso perguntar-lhe, se tinha estado em Paris. Mas, claro, não tive coragem. Ela é a minha médica, conquanto, um dia, quando estiver melhor da minha cabeça, faça questão de falar com ela fora deste contexto. Nem que demore dez anos. É a ela que devo a minha sobrevivência, uma pessoa com uma Luz imaculada, que se reflecte no seu coração. Adoro esta médica, uma pessoa que me compreende sem me exigir NADA!

Em Outubro vou recomeçar Filho. Estou borrada de medo, a minha cabeça é uma cabeça doente, alterada, mas mesmo assim, com a garra que sempre tentei imbuir em si, e que agora me é retornada, vou tentar. Agora que o meu coração está mais apaziguado, ou menos em tumulto, agora que percebo que nada o irá trazer em forma física de volta, quero honrar o seu espírito, a sua memória, o seu legado (de Amor!)!

O Mano começou hoje a viagem. Levou o meu boguinhas e já sei que vão ser dezasseis dias de preocupação, mas também sei que ele vai estar bem. Da mesma forma que pressenti a sua desgraça, pressinto a bonança dele. Não me é fácil, mas é necessário. 

Meu Filho, meu Amor, tantas coisas aconteceram entretanto...

...Diga ao avô Freddy que lhe perdoo a traição, que entendo, muito embora doa como o raio, mas, lá está, só sobrevive quem deixa apenas o Amor entrar. É isso que tento fazer, todos os dias desta minha nova existência. Não vale a pena deixar entrar mais nada. Só AMOR! E gratidão. Por si meu Amor, pelo privilégio de o ter dado a este Mundo, a este Universo que tão depressa mo roubou, e me mostrou que isto não é nada mais do que uma passagem!

Tenho TANTAS saudades suas! 

Há alguns anos, por esta altura, estávamos a grelhar peixinho no Algarve, depois de uns mergulhos merecidos na piscina, consigo a molhar a Oma com cambalhotas e saltos. Uns poucos anos mais tarde, na Madeira, boiando no oceano repleto de peixes e de sal. Que férias meu Amor, que férias. Há alguns anos que não as tenho, vicissitudes de quem vive no campo, mas que saudades me fazem!

Martim...cada vez que pronuncio o seu nome, baixinho, tão baixinho para que ninguém nos ouça, lembro-me de tanto, de tanto, mas de tanto, que me afoga na emoção do meu coração. De tantas noites de cumplicidade, e dias de partilha, de tantas memórias que vivi noutra vida, que se foi. Martim...

Meu Filho, meu Amor. Estou cá! E nesta existência imposta, nesta saudade imensa, neste hiato de tempo que NOS medeia, neste patamar sem escada, existe um espaço secreto, um lugar "AQUI DENTRO", um esconderijo, um Santuário, onde eu choro baixinho à sua espera, e sorrio, quando nos (re)encontramos.

Filho...

Meu Filho, meu Amor, minha Vida...

é AQUI!

Mil beijos da sua Mãe que o relembra a todos os instantes,

Mami


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

11.8.2023 - One Day plus 9 - "Nature plays"...o xadrez da solidão

 



Meu amor querido,


Não tarda, é dia! 

Gostos destas noites de tudo ou de nada, na solidão do meu coração, no silêncio da partilha, aqui onde as lágrimas correm livremente, nesta quietude onde nos encontramos, você e eu! A esta hora já estaria a dormir a sono solto, envolto em sonhos, quimeras passageiras como a sua Vida. Meu Amor, neste silêncio, nesta isolação, nesta falta de Amor, o meu coração continua cheio. Cheio de si, cheio de gratidão isolada, nesta dor que é só minha, neste sossego onde ouço "Dotan". 

Esta dor, minha companheira de sobrevivência, saudade transcrita em mil palavras gritadas, aos berros, no silêncio do sentimento da falta, a minha, por si! No meu coração, naquele espaço muito pequenino onde estamos os dois meio escondidos, assim como sempre fizemos, ecoa um grito de solidão! Só queria um abraço meu Amor, um abraço que me aconchegasse, me envolvesse, e me dissesse que a dor partilhada, é meia dor, meia medida de sofrimento, meio caminho andado, mas o meu, caramba Tim, o meu é terrivelmente espinhoso, duro, luta diária por nem eu sei o quê! E sobretudo, tão, mas tão solitário que faz doer a Alma!

E neste caminho cheio de pedras, de lágrimas choradas baixinho, para que os outros não me ouçam...neste desgosto, nesta tristeza, neste buraco negro de espiral de dor, aqui me deixo, aqui (me) fico, neste sossego só nosso, nesta noite de verão!

Mil beijos meu amor querido, mil lágrimas choradas, mil sorrisos derramados, mil e uma noites...

da sua Mãe que o adora,

Mami

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

9.8.2023 - One Day plus 7 - A espalhar Magia...


 

Meu adorado Filho,


Deixei passar propositadamente uns dias, depois do dia em que a minha Vida implodiu. E nestes dias, lembrei-me muitas vezes da conversa que o Padre João teve comigo na missa do primeiro mês após a sua morte. Ecoam-me no cérebro e no coração, as palavras que me disse: 

- "O primeiro ano vai ser o pior!"

E tal como ele previu, foi a agonia de (sobre) viver sem si, a datas tão importantes como Retornos Solares, ou o Natal, ou a Páscoa. Foi o desespêro de nunca sabermos se o amanhã fazia sentido, ou se o ontem não era mais do que a sucessão infinita de ainda mais um dia de profundo desgosto. Foram o espanto aterrorizado, nos braços da incredulidade, a dançarem no meu âmago, foi o turbilhão da saudade, foi uma luta titânica para me aguentar à tona, uma náufraga atordoada e mutilada. Sou - inegavelmente - uma outra pessoa. Tudo em mim mudou, e tenho de aprender diariamente a (con)viver com um cérebro que está doente. Tenho a certeza de que, por mais que me esforce, a minha memória não volta. É como se fosse um elástico, que foi esticado de tal forma, que rebentou. Dei-lhe um nó, mas já não estica como antigamente. É a mesma coisa que ter perdido uma perna, falta-me um bocado, mas o problema é que é um bocado CENTRAL da minha pessoa. Eu posso andar sem perna, ou pelo menos locomover-me, mas é muito difícil viver com um cérebro diferente. Há como que uma esquizofrenia latente, não queremos esta pessoa que agora habita em nós, mas esta pessoa somos nós. E isto leva uma pessoa à beira da loucura!

É uma pena não haver mais estudos científicos sobre isto, sobre mães e pais que perdem filhos, e como isso impactou a sua actividade cerebral e intelectual, se é que se podem destrinçar uma da outra. Penso que poderia ser um estudo muito interessante.

Mas como lhe dizia, estes 365 dias foram, cada um deles, um inferno na Terra, mas também foram tempos de aprendizagem. Aprender a chamar a Saudade pelo nome, é duro. Muito duro! O significado da palavra saudade é totalmente diferente quando falamos de um Filho que nos foi arrancado da Vida. Literalmente arrancado. Agarramo-nos a tudo, tudo, tudo, mas temos de nos confrontar com o significado da palavra "LARGAR". E largar é quase impossível! É dilacerante. E nós revoltamo-nos, rebelamo-nos contra a dor que esse maldito verbo nos causa. E queremos sentir essa raiva. E revolta. E é tão fácil ir por esse caminho, porque somos humanos. Ou éramos. 

E é aí que eu considero, que só "se safa" quem consegue reprimir esses sentimentos, e consegue sentir  AMOR. Só amor. E aceitação. E não começar o bailado dos "SES", porque então estamos tramados e entramos numa espiral que nos põe ainda mais doidos. E repito aqui, aquilo que li no dia da missa da sua morte: não vale a pena pensar:

- "e se ele tivesse saído um minuto mais tarde ou mais cedo? E se ele não tivesse ido rumo ao Sul?" E se e se e se, e todos esses "ses" acabam por provocar um "big bang". Claro que também tive e tenho momentos desses, mas tento canalizar esses pensamentos para a Luz. 

Quero também agradecer-lhe. O seu Amor por mim, ao ficar tantos meses entre estes dois Mundos, é algo de inesquecível, de inigualável pela sua imensidão, de arrebatador pelo seu significado. Sem si ao meu lado, jamais teria conseguido fazer Dianas, refazer uma casa, ver nascer os frutos da nossa horta e aos poucos aprender que a vida acaba, mas que o sorriso perdura. Ao princípio muito, muito raramente, mas devagar, deixa der ser apenas um esgar, para se tornar num espelho de uma alegria momentânea. 

Ter uma coruja no jardim, que falou comigo nas noites mais escuras de insónia, foi algo que me levou ao colo nos braços do desgosto, e permitiu que eu não me desfizesse em átomos. Foi como que um penso rápido no joelho sangrento de uma criança. A ferida continua a doer, mas o penso rápido mitiga a dor. E por isso mesmo, sofri tanto aquando da sua subida. Senti-o perfeitamente a subir. E depois desses meses todos consigo em mim, ou comigo em si, senti-me incrivelmente só. Mesmo mesmo mesmo só. E passei os piores momentos de toda a minha vida. Porque não só o perdi fisicamente, como nesse momento, senti que o perdia durante o resto desta minha existência física, até que nos encontrássemos outra vez quando morresse. E foi indescritível o que passei. Passei, passo e passarei, porque a morte de um Filho é a pior coisa que nos pode acontecer. Mas esse momento foi o pior. 

Olhando hoje para trás, entendo perfeitamente porque tinha de experienciar isto tudo, para  poder - finalmente - conseguir sentir alguma forma de aceitação. Todos os dias ofereço o meu sacrifício por um Mundo melhor. Tento abrir ainda mais o meu coração aos outros, numa empatia que não custa nada, e que nos faz tanto bem. A energia que recebemos ao dar amor e carinho, é um retorno de um valor imensurável.

E a cada dia em que afastamos, com sucesso, a mágoa, a raiva e o negrume, é um dia ganho. Porque é um dia de Paz. É um dia em que conseguimos calar o turbilhão que nos rasga as entranhas, e somos embalados numa espécie de torpor apaziguado, um torpor que nos permite relaxar a Alma e o corpo, porque estamos na quietude. 

E quando passaram trezentos e sessenta e cinco dias de tortura sem limites, é como se essa volta ao Sol nos permitisse finalmente atingir aquele tal patamar que eu buscava desde o dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois. É um degrau numa escada infinita, periclitante, do qual facilmente voltamos a cair, mas pelo menos, sabemos que é possível lá ter um pé em cima. Aceitar e largar, é aprender a sobreviver à saudade a cada instante do dia, recordar mil e um episódios felizes, contar histórias sobre si e sorrir, ter também a noção de quem você era, porque não era obviamente um santo: tinha as suas idiossincrasias como qualquer pessoa, e conseguir falar abertamente sobre elas; e perceber que, se estivermos atentos, o Universo comunica connosco através de sinais. São ténues, em nada comparáveis aos meses em que continuou cá, mas são sinais. São as nuvens que formam, num céu azul intenso de Verão, as recordações que estamos a reviver nesse instante, como se você desenhasse ao segundo, em perfeita sincronia, os meus pensamentos; são os aromas que por breves instantes, nos afagam o olfacto: são pequenos milagres que nos mostram que continuamos unidos, através do tempo e do espaço, num abraço imenso porque de mãe e de filho, um cordão umbilical perpétuo, porque o Amor que sinto por si é universal.

E isso embala-me, porque me faz una, a si, para sempre, na quietude do nosso Amor!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami



quarta-feira, 2 de agosto de 2023

2.8.2023 - One Day equals 356 - o dia em que tudo mudou = ZERO!




Meu adorado Filho,

Sem palavras! Fiz um grande silêncio hoje, às 21:15, hora em que você partiu. Estivemos em comunhão, em canal entre a Terra e o Céu. Obrigada pela Estrela de ontem, que, iluminada ou espelhando uma perfeita lua cheia, me acompanhou na vigília.

Hoje faltam-me as palavras, o fôlego, o ar. Hoje toda eu sou dor. Mas também sou dor apaziguada. Sei que está bem. Sei que está aí, longe, mas perto, ao alcance de um batimento do meu coração.

356 dias de agonia, de morte em vida, de um sofrimento inenarrável.

Amanhã...amanhã começa uma nova contagem. Só peço ao Universo que seja mais suave, ou menos espinhosa. 

Filho,

aqui, aí e ali. 

Hoje e sempre, até à Eternidade!

Mil beijos da sua Mãe que o chora de coração dilacerado, mas tão grata por o ter tido!

Mami

quarta-feira, 26 de julho de 2023

25.7.2023 - One Day minus 349 - Este país não é para fracos, nem para desistentes, e ainda menos, para Pais cujos filhos foram mortos pela negligência de outros

 



Meu adorado Martim,

Estou viva. Oh se estou! Hoje mais do que nunca, pela primeira vez em 359 dias. A palavra é EMPOWERMENT e a ideia é: a Justiça! Não vivemos num país normal. Nem nada que se pareça. Vou tentar resumir-lhe, e escrevo-lhe isto com as entranhas revoltas, o que por um lado é péssimo, por outro, excelente, pois mostra que ainda resta uma réstia de vida em mim!

Mas vamos por partes. Neste maravilhoso país onde vivo e pago os meus impostos, passado quase um ano, o relatório macabro da sua "autópsia" ainda não está disponível. Continua em segredo de justiça, muito embora já tenhamos pedido (e pago, claro!) a sua cópia. Disto se deduz que todas as burocracias, um ano depois da sua partida, continuam por resolver. Ou seja, este país é para perseverantes, para aqueles que conseguem, apesar da sua dor e do seu sofrimento, continuar a lutar por justiça, essa palavra mágica, que não faz parte do dicionário da novilíngua "Tuga". Neste país, a coragem é para os malfeitores, ladrões e outro demais, verdadeiros heróis perante os novos valores com que esta porcaria de sociedade se rege. Continuamos na estaca zero, porque sem relatório detalhado do seu sofrimento, nada se vai conseguir.

É também neste país maravilhoso, onde quem nos mata um filho inocente, por incúria, continua à solta, que nós, os pais, somos os criminosos, os preguiçosos, aqueles que se escondem debaixo da capa da baixa médica, porque, infelizmente, a nossa cabeça não funciona como é esperado e não conseguimos exercer a nossa profissão. E assim sendo, já sei que, apesar dos especialistas da psiquiatria do SNS não me considerarem apta a trabalhar, cabe aos "decisores" da comissão de avaliação de incapacidades, a última palavra sobre isso. Ou seja, nem sequer se dignam a ler os relatórios, basta acharem que um ano é o suficiente, ou não irem com a minha cara, para me porem na boca do lobo. Fantástico! Portanto eu, que estou mentalmente mutilada, mais tarde ou mais cedo, e provavelmente muito mais cedo, vou ter de dar o cérebro ao manifesto seja lá como for, que isso não é problema deles, porque eles "acham", do verbo achar, o que é sinónimo de que as leis só se aplicam aos criminosos e aos burlões - os verdadeiros heróis de Portugal - que um ano é mais do que suficiente para vivermos às custas do Estado. Talvez quando for despedida com justa causa por fazer um erro dramático, e me ver forçada a pedir esmola à porta da igreja, talvez nessa altura eu decida ir às Tardes da Júlia e fazer chorar alguns milhares de Portugueses e com isso, consiga um Lobby. Talvez seja nessa altura que eu faça com que a Vox Populi se manifeste, porque até aqui, somos condenados ao absurdo das leis que nos regem. Ou seja: muito embora os especialistas considerem que a minha cabeça está lesionada, os decisores, se acharem o contrário - e já me ameaçaram que o iam fazer - põem-me a trabalhar, e se fizer asneira, o problema é meu! Portanto, a treta da lei que diz que podemos estar mil e não sei quantos dias de baixa, não se aplica, se os "decisores" considerarem o contrário. Acredito que neste país é preciso estar moribundo, para nos darem aquilo a que temos direito! O que é inteligente, porque quando o fizerem, já passámos para o outro lado, e sempre se poupam uns Euros ao Estado. 

Entregue o seu IRS, e passados longos meses após a sua morte, o ressarcimento do que você pagou a mais, veio em cheque em seu nome. Que ironia macabra! Ou seja, as Finanças, que sabem que você morreu há quase um ano, emitem o cheque em seu nome, porque constatam que, devido à sua morte, a sua conta foi encerrada. Em qualquer banco do Mundo, com a habilitação de herdeiros, podemos movimentar as contas, mas não em Portugal. Aqui, temos de esperar sessenta dias, para que o cheque emitido em seu nome caduque, para pedirmos outro em nome do seu Pai, Cabeça de Casal, que irá demorar outro tanto a ser emitido, para sermos ressarcidos daquilo que você pagou e a que tem direito. VIVA o Estado português e o que faz aos pais de filhos que morreram! Que compreensão, que comiseração para com o infortúnio dos contribuintes. Roubem milhões, que são heróis, peçam aquilo a que têm direito, de um Filho assassinado, que esperem, porque, quem espera, sempre alcança! Tão bom o país em que vivemos!

Mas isto não é tudo! No domingo rebentou o esgoto do prédio do qual arrendo a garagem, onde guardo os móveis, livros, e tantas outras recordações que não cabem cá em casa. Fui alertada por uma pessoa que, dado a água com cheiro nauseabundo que saia da garagem, me ligou.  Andámos todos, com trinta e dois graus, de galochas, literalmente a limpar MERDA com altura de dez centímetros. Falei para o Senhorio e sabe o que me disse?

- "Minha Senhora, isso não é comigo, vá bater às portas dos inquilinos e dos proprietários e eles que resolvam o problema, e se não resolverem, vá à Câmara!"

Perdi as estribeiras, e passei-me dos carretos. Fui malcriada e fiz o que neste país os reles fazem: chamei a polícia, as águas e a Câmara. Não queriam acreditar no que viam, uma torrente de esgoto a sair pelo cano do tecto da garagem, onde nem sequer tenho água! E vou fazer o que aqueles que se safam sempre fazem: não vou pagar a renda, até ser ressarcida do prejuízo. Não lhe vou descrever o que saiu daquele esgoto, nem do que tive de deitar fora, para não chorar de raiva, tenho os vídeos e as fotografias que documentam mais do que bem, que nem só na Índia, ou nos países do terceiro Mundo, acontecem coisas destas, verdadeiros atentados à salubridade pública! 

Em suma, meu Filho, é isto a luta de quem luta por "encerrar" burocraticamente a morte inusitada de um inocente, mas que, aos olhos da "sociedade" é uma criminosa preguiçosa, que tenta (sobre)viver às custas do Estado.

Só me apetece partir coisas, viver na anarquia, porque neste país, só esses é que se safam!

Mas no meio disto tudo, consegui, desde ontem, comer como deve de ser. Claro que isto se deve ao anjo que me ajuda, à Dra. Carolina, a pessoa que me entende e me acompanha...mas que, ela também, não faz milagres!

Talvez você consiga fazer alguns?

Estou viva meu Amor, quanto mais não seja, pela raiva que hoje habita em mim!

Mil beijos da sua Mãe que o adora, mas que nasceu no país errado,

Mami! 



sábado, 22 de julho de 2023

22.7.2023 - One Day minus 346 - Do Opa Fritz e outras doces memórias, de saudade, de mil vidas recordadas

 






Meu Filho adorado,


Estou sentada cá fora, finalmente um dia mais em paz. Estive a ouvir a sua voz nas nossas inúmeras mensagens via whats up. Que saudades meu Deus! Faz na segunda feira um ano que trocámos a última. Depois disso, estivemos juntos tantas vezes naquela última semana em que a minha vida ainda era uma Vida! Em que eu era uma pessoa normal.


Agora sou um resquício de gente, um átomo do que fui, navegando nas memórias que uma existência de que tenho tanta dificuldade em reconhecer como minha.


Não lhe tenho escrito, porque de nada vale sobrecarregar um Anjo com tristeza ou com a saudade infinita que me assola.


Estive muitos dias sem praticamente conseguir ingerir qualquer alimento sólido. Só as sopas e os sumos passavam na garganta, de tal forma as emoções fizeram aí um nó. Agora estou um bocadinho melhor. Não tenho conseguido pegar nas Dianas, nem nos restauros, mas a abundância da horta, face ao desperdício e aos preços, obrigaram-me a voltar aos Chutneys, às conservas e ao molho de tomate. Já fiz tanto, mas tanto, que não sei contar os frascos que esterilizei, enchi e pus a pasteurizar. É uma forma de meditação que me apazigua, pois o meu espírito voa para longe, para junto de si, enquanto tudo ferve na panela.


Filho, tanto mas tanto para lhe escrever, e tão pouca força me resta, nesta solidão dos meus dias, em que o sol nasce, e o sol se põe.


Hoje faria anos o Opa Fritz. Você nunca o conheceu, mas se eu fechar os olhos, vejo e revejo todos os cantos do Largo Conde de Ottolini, onde ele e a Oma Kaethe faziam tudo para me fazerem feliz. Aquele senhor impecável, tão boa, excelente pessoa, que todos os dias ia buscar o jornal para a sua bisavó ler na varanda ao pequeno almoço.


Já percebi que à medida que envelhecemos, as doces recordações não são mais do que carícias da memória no nosso coração, resquícios de uma infância e adolescência que teimam em não ter existido, para se tornarem numa história de inocência há muito perdida.


Meu Filho, à medida que o tempo passa, demasiado tempo para você ter ido numa viagem, vejo-me forçada a perceber que, desta vez, foi uma viagem sem retorno físico, e isso parece uma ilusão. Não me conformo com esse facto, a sua voz é ainda demasiado presente, o calor do seu abraço e do seu “adoro-te”, demasiado real. Já perdi a conta aos dias em que choro a sua partida, e soluço a saudade que sinto sua, nesta existência superficial, em que me limito a ver as horas passar.


Meu Amor pequenino, meu Anjo, meu Filho, só me apetece berrar, gritar, vociferar a minha saudade, a minha perplexidade perante tamanha injustiça que o destino me quis dar. E ao mesmo tempo, só me apetece sentir o seu abraço, aquele cheirinho a si, o toque da sua pele, a força dos seus braços, o amor que sempre nos uniu.


Martim… ofereço o meu sacrifício diário , todos os dias, por um Mundo melhor, mas sei que isso não existe, pois o Mundo que eu conheci, habita na Eternidade!


Um beijo imenso, carregado de desgosto e de saudade!


Da sua Mãe que o adora,


Mami

05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...