sexta-feira, 24 de novembro de 2023

24.11.2023 - One Day plus 113 - M A R T I M

 




Martim...

...Filho meu,

daqui a poucos minutos bate a hora em que nasceu. Sete e vinte e uma da tarde, meu adorado Filho, meu primeiro sonho de Mãe concretizado, meu Menino, minha Criança, meu Adolescente, meu Jovem Adulto, promessa de um Ser Humano Maior, meu futuro roubado, minha tristeza, minha revolta, minha Esperança, meu Amor universal depositado em cada um e em todos, num uníssono de eterna Gratidão pela bênção que me foi dada, em poder dar ao Mundo, e à Eternidade um Filho de...

...LUZ!...

Meu Filho...faltam-me as palavras, afogadas nas lágrimas, conquanto iluminadas pelo sorriso.

Meu Filho, hoje, mais do que ontem, e sempre menos que amanhã...

Com todo o meu Amor,

Mami

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

23.11.2023 - One Day plus 112 - Sobre momentos gratificantes e mágicos, amanhã "longe demais"!

 



Querido António,

e meu querido Filho,

aqui segue uma fotografia da vossa (e tão minha Diana).

Gostava, que quando desses esta Diana à tua filha, e não digo nomes para não estragar surpresas e por causa da proteção de dados!, que lhe contasses esta minha e sua (da Diana) história.

Em Dezembro, quatro meses depois do Martim morrer, decidi, uma vez que não tinha ainda conseguido concretizar um dos desejos da minha “bucket list",  tirar um curso de corte e cose, comprar uma máquina de costura. Assim do nada. O Banco ofereceu-nos uns vales de presente de Natal e pensei, que depois do que me tinha acontecido, era mais do que tempo de realizar um sonho, embora o tenha começado ao contrário. A grande vantagem, é que com o meu "German footprint", depois de despender tamanha quantia numa máquina, nem que seja à chicotada, vamos aprender a usar a dita. E assim foi, apenas com a diametral diferença de que em vez do chicote, eu tive uma mão que me guiou.
Num inverno gelado, mais ou menos há um ano, em que não sabia se estava viva ou se tinha morrido, toda eu Saudade e lágrimas, dilacerada por dentro mas funcionando por fora, tal qual boneca robótica século vinte e dois, comprei a minha máquina. E de livro de instruções em punho, página a página, pu-la a funcionar. E daí foram passos e saltinhos, corridas e caídas, mas a minha neta do Universo, tinha de nascer, pois é do meu Filho do Céu. E a Diana trouxe…

…AMOR!

E por estranho que pareça, cada Diana que nasce das minhas mãos, é especial, e está cada vez mais gira. Parece que elas sabem para quem vão. São parecidas com a pessoa para quem foram destinadas. Há como que uma mão do divino.

Cheguei a ter uma encomenda de três Dianas para três netas, onde a avó me disse para ser eu a escolher para qual delas seria cada uma. Fiz os embrulhos como o Universo o ditou. Uns dias mais tarde recebo uma mensagem de what’s up. Comovi-me com o que li, mas chorei ao ver as fotografias. Umas netas eram loiras, outras morenas. Umas mais extrovertidas, outras mais tímidas. Cada uma delas tinha a sua Diana nas mãos. E era como se elas tivessem sido os meus modelos. A cor dos cabelos, a expressão do olhar, os tons dos vestidos e forma do corpo correspondiam na mouche. Eram IGUAIS!
Umas semanas mais tarde, numa noite terrível de frio, de saudade, de morte e de desespero, não dormi. Trabalhei a noite toda, sentindo a sua presença atrás do meu ombro direito, a sua mão levemente pousada, a sua voz a falar-me baixinho ao ouvido (e não, não era apenas um sussurro) e, quando os primeiros raios gelados de um sol que nascia do lado esquerdo dos meus olhos irromperam o azul escuro do céu, nasceu a Diana Anjo da Guarda.

Reparo agora, António, que escrevi o parágrafo acima como se fosse para o Martim, peço desculpa pelo lapso, perco-me sempre nas lembranças deste meu Filho. Mas adiante.
Da mesma forma (sobre)natural - embora eu prefira escrever universal - que o meu caminho me levou até ao Anjo, há poucos dias fiz esta vossa Diana. Nunca tinha feito uma Diana assim, mas pensei que nem sempre as miúdas têm que andar de tótós, as miúdas não são menos miúdas quando decidem andar despenteadas. Depois de reflectir um bocado, achei que nem todas as pessoas iriam preferir uma Diana assim. Mas disse ao Martim:

- “ Filho, você vai encontrar uma pessoa família muito especial para esta sua Miúda, e o Universo vai ajudar!

E assim foi. E é com uma Gratidão IMENSA, porque recebi mais um sinal do meu Filho do Céu, que amanhã faria 26 + 2 anos, que olho para este céu de hoje, dia vinte e três de Novembro, véspera de um dos dois dias mais felizes da minha Vida, e digo:

Obrigada meu Filho, não só por mostrar ao Mundo que nem todos somos iguais, como por me encontrar “A” pessoa certa, na forma de uma Miúda com “M” de maiúscula, para mais uma Diana, boneca de trapos, cosida com floridos e coloridos farrapos de Amor!

Obrigada António e depois conta-me o que é que ela sentiu quando a recebeu nos braços!

E como esta carta é uma missiva entrelaçada de destinatários, assino “apenas” como,

Mãe

domingo, 19 de novembro de 2023

19.11.2023 - One Day plus 108 - Nas Asas do Infinito! ("Aujourd'hui plus qu'hier et bien moins que demain")

 



Martim, meu adorado Filho,

Nem sei por onde começar. Em primeiro lugar quero pedir-lhe desculpa, por ainda não ter transcrito as nossas últimas conversas. Mas também foram tantas, mas tantas, que não teria humanamente tempo para relatar o que se passa no plano divino. Ou semi-divino, porque se me envolve, não pode ser apenas Céu. 

Filho, nem sei como o descrever, porque o(s) plano(s) que movimentamos, e nos planos em nos nos movimentamos, são uma espiral que nos leva ao âmago, a um lugar em que somos forçados, e acabamos por aceitar, a compreender que nada depende de nós. Vou-lhe contar um segredo, que lhe peço guare só para si: este último ano e mais uns meses espremidos à saudade do tempo, ensinou-me mais, do que a muitas pessoas reincarnadas em muitas vidas. Eu sou milenar: na minha saudade, na minha tristeza, na minha agonia. Sou a Mãe das Mães, porque esta dor que nos dilacera as entranhas, é a mãe de todas as dores. Não existe dor maior. Mas, é precisamente nesta dor Maior que nos temos que reinventar, numa herança que se perde na bruma dos tempos. E o estranho, é que quando estou "comigo" e me visualizo, o meu rosto traduz as linhas de tempos felizes. Mas quando me olho ao espelho, vejo uma anciã, onde as lágrimas lavraram sulcos tão profundos, quanto indeléveis, tatuados a ferro e fogo na minha Alma. E, contudo, esta Alma sobrevive.

Quem sabe, porque fui capaz de dar à Luz um Anjo. Tanto quando o trouxe para o plano terreno, como quando o entreguei ao divino. Fui dor duas vezes, uma no corpo, outra na Alma. 

E cá estou. E o trabalho, e as idas a Lisboa, e os quilómetros que faço aos encontrões, no meio de um ruído, burburinho gritante e incomodante, que a maioria dos Lisboetas,  os verdadeiros e os da periferia, já nem sentem, porque pertence ao seu quotidiano, mas que a nós, gente do campo, causa comichão na cabeça. E o tempo corre, corre, corre, na espiral que nos suga, e eu não me consigo virar entre falar quatro línguas ao mesmo tempo, conviver com dezenas - senão mais - pessoas, e o silêncio do meu campo, e as Dianas, e os animais, e tudo o que aqui me prende.

E tudo o resto que você sabe tão bem, porque me acompanha, e sabe as lutas que tenho travado, na procura incessante de tudo o que considero justo e correcto, debaixo de uma saudade, ainda nem aflorada, do seu avô, da Foxie, e de uma vida que nem parece que foi minha. Entendo agora o que sentem os velhos, um olhar para uma sucessão de dias que é tão longa, tão única, tão cheia de recordações, que mais parece um livro, do que um aglomerado de vivências reais, puzzle delicadamente montado numa pessoa, que ora se desfaz, ora se completa, numa paciência infinita! 

E nestas paciências, sobrevivemos. Trazemos connosco, num bolso debruado e mal alinhavado no nosso coração, os que estão no Céu. E no outro lado, noutro bolso, cosido com as linhas do Amor, levamos os outros. Os Terrenos. Os que nos obrigam a criar raízes.

E neste pairar, nesta vida (terrenamente divina? ou divinamente terrena?), existimos. E lutamos. E somos. 

E ouvimos...

...a Coruja. Que voltou. De uma forma diferente, mas voltou, a um Outono mais sábio, mais, muito mais dorido, muito mais dilacerado, mas também muito mais empoderado. A sua bisavó Loures costumava dizer: 

- "Si jeunesse savait, si veillesse pouvait" e é tão, mas tão verdade. 

Mas eu posso, porque me basta semicerrar os olhos, erguer a cabeça para o Céu e acreditar. E nessa crença inabalável que sempre tive, nascem-me as Asas. E sou Céu. E sei voar. 

E voamos, Pássaros Alados nas asas do Amor!

Mil beijos meu Filho, da sua Mãe que o adora,

Mami!




domingo, 29 de outubro de 2023

29.10.2023 - One Day plus 87 - Aqui do Campo...

 



Meu adorado Filho,


Como prometido, aqui estou, de novo, num Domingo não chuvoso, mas torrencial, literalmente "The Day After" à mudança da hora, aquela irracionalidade, cuja lógica a minha simples cabeça nunca conseguiu entender. O argumento das crianças de manhã no caminho para a escola já deveria estar em desuso, porque só um maluco deixaria os seus filhos à solta no trânsito caótico de cidades como Lisboa! Portanto, se queremos economizar, então porque não prolongar a luminosidade ao  (e escrevo "ao" e não "do" propositadamente) dia, para que as luzes se tenham que acender mais tarde? Juro que não abarco a ideia por detrás, muito embora acredite - piamente - que quando aflorar esse tópico com o seu Irmão, ele me vá dar uma teoria tão complexa, provavelmente ainda oriunda no "Bing Bang", de tal forma intrincada na dificuldade de compreensão da Física Quântica, que o que  fará "big-bang" é a minha cabeça, completamente em uníssono com essa bela Onomatopeia da língua inglesa!  

Agora começam os meses do ano em que o campo não é para fracos. Costumo dizer, desde que para aqui vim viver, que nesta parte de Portugal, temos nove meses de paraíso, e três de Inferno. Novembro e Dezembro são facto consumado, depois os corações oscilam entre Janeiro e Agosto. Ora como "Janeiro fora, cresce uma hora", e Agosto seja, por si só, um mês infernal na minha vida, eu defendo a teoria de que são Novembro, Dezembro e Agosto. Em Janeiro ainda está muito frio, mas os dias começam a ficar de novo maiores, primeiro lentamente, depois acelera, e em Fevereiro começa a sentir-se no ar a promessa da Primavera. Mas sentir o frio é algo de delicioso, porque damos vinte vezes mais valor ao quentinho da lareira, às camadas de camisolas que temos que vestir, verdadeiras cebolas saloias e ao ar que exalamos, num nevoeiro que se mistura na paisagem das conversas enquanto caminhamos. 

E é neste dia vinte nove de Outubro, que ouço Parcels, enquanto navego entre a costura e a escrita. As duas são cada vez mais indissociáveis, porque uma é tão relaxante, que num chapinhar calmo e introspectivo leva à outra, e dou por mim a falar consigo, enquanto coso uma baleia de tecido de corações e de bolinhas. É então que decido saltar para o computador, e escrever aquilo que o meu coração verbaliza. São tão bons estes nossos momentos, estamos tão juntos nestas conversas, que me sinto consolada, como que abraçada pelo Universo, num colo carinhoso e tranquilizador. Nestes momentos sou Cosmos, e neste Cosmos, somos Unos. É mesmo, mesmo, mesmo como se você estivesse aqui, apenas não fisicamente. Está de uma forma muito mais completa, porque me envolve, e é este seu Espírito que me traz a força e a vontade de continuar. Porque eu SEI que você está aqui, em cada átomo de mim, seja nas recordações de ínfimos pormenores, celebrados noutra Vida, seja no presente do meu aqui e agora, em que ouço a sua voz em mim, como se estivesse, de novo, fisicamente presente. Tenho aprendido tanto Martim, taaanto! É como se o saber universal me inundasse, por breves segundos, é algo de muito difícil de (d)escrever. 

A realidade brutal da morte de um filho, só ao fim de muitos meses é que começa a querer entrar, quando o nosso cérebro já se conseguiu refazer minimamente do choque inicial. Para mim isto é inegável! Inegável! É absolutamente necessário conseguir abarcar e "abraçar" essa ideia. E porque é que escrevo "abraçar"? Porque acima de tudo, é aceitar essa ideia sem revolta. E, obviamente, sem a "Dança dos SES", que não nos leva a absolutamente lado nenhum, e nos mantém presos, num limbo infernal, que nos consome as entranhas, acabando por nos matar. 

Aceitar é saber o que significa literalmente a palavra "Saudade". É decorar que continuamos a viver nas recordações revisitadas, é somar as lembranças dos momentos felizes, e multiplicá-las por enquanto formos vivos. E assim, passo a passo, hora a hora, e às vezes, minuto a minuto, vamos aprendendo a caminhar. Os pés já doem menos, porque felizmente já ligeiramente calejados, e quando olhamos para trás, e vemos o que conseguimos até agora, ficamos espantados com a força que temos. Bom, eu tenho ainda mais sorte, porque quando olho para trás, e também para a frente, e claro que o mesmo acontece para os lados, eu vejo-o a si. E portanto, sei que não caminho só. Caminho consigo, e consigo, nesse consentimento da sua presença espiritual, dar mais umas grandes passadas. E assim sigo. 

E no seguimento deste (pros)seguir, amanhã lá vou eu no "Comboio dos Operários" para Lisboa. E desta vez vou mesmo à campónia, de saco reciclável de supermercado cheio de pimentos, ovos, tangerinas e azeitonas, mais um frasco de Chutney de figo que está de gritos, porque o "temperei" com rodelas do nosso limoeiro, daqueles limões que cheiram a farinha Maizena de tão bons que são, e que apetece trincar, porque o perfume a bolacha Maria é de levar uma pessoa às lágrimas. Ficou um Chutney estranhamente ácido, porque o doce do figo, na fusão com o ácido do limão, e a surpresa do picante aromático das especiarias brilha duplamente, e esta fusão deliciosa está de tal modo desconcertante, que baralha completamente as papilas gustativas, deixando-as às cambalhotas no palato. Então se o juntarmos em cima de uma tosta tapada com uma fatia de queijo queimoso...bom, então Filho, então é o céu. Com minúscula, claro, mas não o deixa de o ser.

E amanhã começa uma nova semana, de um fim de semana semelhante ao dilúvio, como já lhe disse, mas também de mais um passo para a normalidade. E foi um fim-de-semana divertido, em que fizemos uma "soirée" não dançante, mas "jogante", onde nos reunimos de novo, os duros do costume, para um serão de póquer. Finalmente tenho uma mulher parceira de jogo, o que me encanta, pois deixei de ser a única representante das copas e dos outros femininos, e ganhei uma companheira destemida para enfrentar os paus e as espadas dos adversários. Jogar póquer no campo, enquanto mulher, não é algo muito comum. Por isso estou contente por agora sermos duas! São sempre noites divertidas, de tertúlia e de amena cavaqueira, sentados à lareira na época do frio. 

É a simplicidade da vida revisitada.

Um beijo gigante aqui do campo, 

da sua Mãe que o adora,

Mami!



sábado, 28 de outubro de 2023

28.10.2023 - One Day plus 86 - De "Empoderamento" e de azeitonas...

 



Meu adorado Martim,


Ahhhhhhh...! O meu suspiro fez eco nos seus ouvidos, desculpe, veio mesmo do âmago. É um suspiro polvilhado de um sorriso cúmplice, daquele que desenho em algumas Dianas, mas só em algumas. As mais "especiais", porque irreverentes!

Os dias têm sido bons, porque a Força reside no Amor, e no Amor, naquele sentimento que barreira a frieza gelada da cabeça, tudo de bom acontece.

E nesta curtíssima missiva, que daria pano para mangas, eu prometo-lhe uma longa carta, onde você vai (sor)rir, com os cantos da boca a fazer "pendant" com as bochechas, naquela minúscula conchinha que elas fazem quando você se ri com a Alma! 

A Força reside no centro de nós, e é como uma fonte inesgotável. Por vezes perdemos o copo, e queremos sucumbir à sede, mas na maior parte delas, algum artesão nos faz um púcaro de barro, vindo do Céu, com o qual nos podemos refrescar, ávidos, sôfregos, e com isso, insuflar aquele sopro de vida que nos fazia falta. Ficamos fortíssimos, imbatíveis, e nessa coragem, revivemos o que fomos, e que continuamos a ser!

Apanhei azeitonas, que temperei com alho, orégãos, sal e água da Fonte dos Amores. As oliveiras rebentam de frutos, gratidão do campo, por um Verão tórrido seguido de um outono abençoado de chuva.

Estamos bem meu Filho querido. Estamos fortes. Estamos "empoderados"!

Estamos...

Um beijo enorme da sua Mãe que o adora,

Mami


quinta-feira, 26 de outubro de 2023

26.10.2023 - One Day plus 84 - Sobre "Air" : "La Femme d´Argent", sobre "Empowerment", sobre Medos, sobre a "Força", sobre Barça...Cherry Blossom Girl!


 


 Meu adorado Filho,

Pelas razões que ambos conhecemos, não me vou alongar. As nossas conversas dos últimos três ou quatro dias, dizem tudo, nesse nosso silêncio mudo, ensurdecido pela Saudade, mas no qual falamos até nos faltar a voz! E nesse TUDO, encontro-me perante o NADA. 

Nada? Estou a ser injusta. O NADA foram vários (a)braços abertos, escancarados, todos para mim, numa Alegria de quem me (re)encontra, e também me (re)lê - hoje e sempre - Sobrevivente. Força que só você me poderia dar, numa generosidade imensurável, tal como o desgosto que me assola, a todo o instante destes meus infindáveis dias, num lento escorrer de um ontem que jamais será amanhã, presente tão doloroso, conquanto (sobre)vivido, num futuro de um verbo em cujo indicativo se adivinha a (in)certeza, mas cuja resposta não tem importância, face ao presente - dádiva - de uma presença constante,  num tempo verbal que se pretende que seja escrito num gerúndio mal parido!

MEU FILHO...

...Filho Meu...

...Não é para todos, e você e eu sempre encerrámos no nosso âmago essa chama de crença, essa Fé em nós, esse acordar para um Amanhã que sempre foi promessa, arrancada a ferro e fogo ao nosso centro, dilacerando os nossos corações, o seu e o o meu, incessantemente! E nessa incansável luta, nós VIVEMOS! FOMOS! Fomos o TUDO, e no Tudo mergulhámos, numa combustão que só nós dois conseguimos entender, nesse fogo (fátuo) que nos queima as entranhas!

Lembro-me de uma das nossas últimas conversas..."Tiny Dancer in my Hand"...

Ler dá trabalho - imenso - requer um esforço que poucos estão dispostos a despender, vulgo "dispenser", como se de um sabonete líquido se tratasse, "à venda num qualquer "Walmart" perto de si"! E nessa Leitura de sinais que me acompanham, numa Luz de Esperança (Esperança? Ou será Fé, Crença, Gratidão?) eu tento; tento o Tanto, o Tudo, o Nada, porque quem foi o Todo, numa Tríade perfeita, é hoje, a dualidade decalcada na individualidade da solidão, palavra tatuada a ferro e fogo na minha Alma. 

Filho...fica aqui um segredo, daqueles só nossos. 

Fui no "Comboio dos Operários" (como se diz aqui, no campo), o das sete e vinte e um, o que implica ser arrancada aos braços do sono, e do sonho, às cinco e meia da manhã, numa madrugada gélida, de chuva incessante e sem misericórdia, típica das "molha-parvas". Mea Culpa!  

Fui, pela segunda vez. E vim. E cá estou. E estou "aqui" e "aí". Estou sempre a pairar, e é uma sensação única. Pairar é ser capaz de voar nas asas da tristeza, na supremacia dos Intocáveis, porque (já nada mais) têm a perder, "and I guess that's why they call it the Blues", num cinzento plúmbeo, diria eu, naquela (minha) solidão recôndita, escondida e resguardada, num centro de uma Alma que transpira SAUDADE, escudada por fronteira emoldurada a ferro, força fundida no vórtice do dois corações que um dia foram um só!

"It's Overnight"...quantas vezes dançámos ao som deste som? Ritmo suado, arrancado a uma quarentena, as melhores semanas da minha Vida, num decorrer de um tempo incessantemente desfrutado,  que foi vivido há mil anos? 

Ah Martim! É isso mesmo: 

"Go back, I want so bad to hold you back. It's all I've said and done. Fall in, be gone. I will stand, as I've won again. The reason for no more. Overnight. (...) The moment I was wishing, it's Overnight"

Mil beijos meus Filho, da sua Mãe que o adora,

Mami!


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

20.10.2023 - One Day plus 78 - Dois dias depois...a Coruja...GRATIDÃO, ai chega aí a minha agulha, 18.10. revisitado, hoje e sempre!

 


Filho do meu coração,

Há vários dias que ando para lhe escrever, Você sabe, "antes" e "depois" de dia dezoito, mas confesso, faltou-me a coragem e também o tempo, por mais incrível que pareça. E não sei bem por onde começar, de tanto e do Tanto que me invade.

Filho...a cada dia que passa, conheço melhor esta nova pessoa que sobreviveu (ou foi obrigada a), dentro de mim, e espanto-me em começar a conseguir conviver com uma desconhecida. O meu velho eu questiona-se, cada vez menos, se enlouqueci, o meu novo eu abraça essa loucura de uma Vida revivida, ou melhor, reencarnada, sem grandes questões. "Bem-aventurados os Pobres de Espírito, porque será deles o Reino dos Céus". Bom, o Céu já é meu, porque guarda nele uma das minhas metades, a pobreza de espírito reside hoje no meu novo eu, porque é muito mais fácil não fazer perguntas, e simplesmente aceitar.

O sofrimento (e)leva-nos a um estado - que aos poucos se vai tornando permanente - de desprendimento do terreno, e com isso, possibilita-nos um pairar acima das questiúnculas de sobrevivência que - com raras excepções - infelizmente assolam a condição humana.

Mas vamos ao que interessa.

...Filho...não tenho palavras. Não tenho. Não há NADA, nenhum presente terreno melhor que o que recebi no dia dos meus cinquenta e sete anos. Martim, não tenho palavras para agradecer. Acredito que agora que subiu para tão alto, não lhe seja fácil descer a este plano, mas eu sempre fui, e continuo a ser abençoada. Você veio cá dar-me um beijo, através da Coruja que cantou. E eu ouvi. Foram apenas breves instantes, alguns dos minutos mais felizes da minha nova existência, ou melhor, sobrevivência.

Se me perguntarem quais os momentos mais gratificantes da minha Vida, agora vida, tenho três. Estou a falar nos momentos em que me senti mesmo um Ser Humano especial, que nada têm a ver com acontecimentos fulcrais, tais como como o nascimentos dos filhos, etc.

O primeiro era eu uma catraia rechonchuda e sardenta, guardando em mim uma permanente e triste saudade, porque a Oma estava sempre a trabalhar em Chicago, nas feiras de turismo, nos meus anos. Mas nesse aniversário abençoado, chuvoso e húmido, na Rosa Araújo 49B, terceiro, ela apareceu por detrás do biombo beije, com motivos chineses pintados a preto, e tinha os braços abertos num carinho enorme, onde me afundei. Ter a minha mãe comigo no dia dezoito de Outubro desse ano, do qual já não me recordo bem do número, foi um momento que ainda hoje revivo, porque gravado na minha memória a tinta indelével do Amor, a Felicidade que senti e que ainda hoje me acompanha durante as intempéries da minh existência.

O outro foi em Alfragide. Era o dia dos meus anos, e estávamos na cantina do rés do chão, a beber um café para começar o dia. Estávamos vários, o Trio Odemira do costume, a miúda do nome da Flor espinhosa, e mais alguns que não vale a pena relembrar, porque não relevantes. Olhei pela janela e tive uma miragem. Lembro-me - ainda hoje - de olhar para o meu Manito e de lhe dizer:

- "Credo, aquele miúdo, de mochila às costas, parece-me tanto o Martim! Quem me dera que ele hoje não estivesse em Barcelona, mas sim aqui, comigo!"

Alguns minutos depois chamam-me à recepção e vejo os seus braços, envoltos no tecido suave de uma camisa de ganga azul escura, escancarados para me receberem, num mergulho de apneia da minha emoção, numa fusão total, completa e atómica, no e do Amor que sempre nos uniu. Atirei-me para esse abraço na incredulidade de uma Mãe, a quem é concedido o privilégio de abraçar o seu primogénito no dia do seu aniversário, afogando a saudade de meses de separação.

O terceiro momento foi agora, há dois dias, no dia dezoito de Outubro de dois mil e vinte e três. Senti uma falta IMENSA do seu irmão, mas no altruísmo de uma Mãe, que só quer a felicidade dos Filhos, disse-lhe para não vir. Ele precisa de VIVER, de sorrir, e não tem culpa que, na impaciência acelerada que herdou de mim, tenha tido tanta pressa em nascer, que o decidiu fazer no meu dia de anos, o melhor presente que o Universo alguma vez me deu. E o nosso dia, no ano passado, foi tão, mas tão, mas tão triste, que achei que seria melhor este ano, eu abdicar da presença dele, para que ele pudesse estar com os seus Amigos, com Alegria, com a garra de que precisa para enfrentar as agruras deste Mundo. E neste meu sacrifício tão terreno, o Céu trouxe-me o seu canto, minha jovem e adorada Coruja, que desde a Primavera não piava para mim! GRATIDÃO meu Filho!

Esse seu breve canto, conversa injusta e prematuramente (in)acabada, soube-me a Vida. E no milagre dessa maiúscula que foi, em tempos, uma vida consentida, mais uma sutura foi dada, no sentido de um sarar de uma ferida permanente e eternamente aberta!

Ao mesmo tempo, o Universo tem-me ajudado nesta minha nova sobrevivência. As Dianas têm espalhado - e espelhado - o nosso Amor por muitas famílias, levando nas suas entranhas, o ADN do meu Amor universal por si, meu Filho, e por todas essas crianças, uma das quais ou todas elas, poderia(m) ter sido sua(s), e com isso, tão minha(s). E é nessa dádiva, numa verdadeira dádiva de Amor de que, donde menos se espera, vou poder comprar a nova máquina de costura "Overlock", para poder dar asas à minha imaginação do "ai chega chega, chega aí, aí a minha agulha, afasta, fasta, afasta aí o meu dedal"...

Martim...passaram mil anos. Mil e uma reincarnações, mil e uma sobrevivências. Um oceano de lágrimas, numa vastidão imensurável no infinito de uma Saudade, que nem a si própria se consegue definir; perdi tantos Amigos, e ganhei tantos outros mais. Como a tia Isabel, uma mãe que faz nascer, todos os dias, dentro de si, um colo que não quis dar frutos terrenos, mas que, na plenitude da sua generosidade, encerra em si o poder de me abraçar ontem, hoje, e todos os dias que eu precisar, eu e milhões de outros filhos que ela não teve aqui, neste plano, mas que tem algures no Universo. Ela que foi a Primeira que me leu e que me disse para continuar. Porque o meu sofrimento tinha que ter um significado Maior, aquilo que sinto desde o dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois. Ou como o da Helena, que, tal como eu, é uma privilegiada, porque recebe sinais. E os sinais são tão importantes! Mãe Coragem, Mãe sofrimento, Mãe que chora, todos os dias, como eu.

Mas o meu choro é apaziguado. Fui, sou, e continuarei a ser abençoada: pelo Filho que tive, pela Doutora Fátima e pela Doutora Ana Carolina que me acompanham nesta caminhada do luto, pela Coragem que me invade, através dos meus Filhos, que todos os dias me inspiram! O da Terra, e o do Céu! Pela Força que nasce de umas cinzas de um Ser implodido, a quem não restou mais nada do que se reinventar, porque o Universo me incumbiu de uma tarefa hercúlea. Na nossa, sua (breve) e minha (tão longa) Vida, nunca nada foi fácil. Foi sempre tudo arrancado a ferros. Mas também nunca nos faltou o essencial.

Martim...como descrever esta Caminhada? Uma insanidade disfarçada pelo mínimo socialmente exigido, por quem me acompanha nas mais variadas formas das vivências do quotidiano? O expectável pelos Outros, que nós, Seres que pairamos no limbo, seja aqui, seja aí, temos que respeitar, porque é demasiado para a maioria compreender?

Filho...

OBRIGADA! Pelo canto, pela visita, pela mensagem, por me fazer sentir, ontem, hoje, amanhã e todos os dias, que só assim vale a pena, nesta simbiótica dicotomia emocional, traduzida numa tentativa racional, de irracionalmente analisar os sentimentos.

Martim...

"The sound of the wind is whispering in your head, can you feel it coming back? Through the wamrth, through the cold, keep running till we´re there. We're coming home now, we're coming home...

I AM HOME!

Mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami

P.S. Amanhã somos 26 Épicos, geração irmão mais novo, aqui em casa!


05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...