domingo, 24 de dezembro de 2023

24.12.2024 - One Day plus 143 - Dia 24.12. de tantos e tantos anos, tão bons!

 



Meu adorado Filho,

hoje, porque já passa da meia-noite, escrevo-lhe para lhe desejar um Santo Natal aí no Céu. Senti-o hoje, meu Filho, e obrigada por este presente. A sua Miúda continua sua, e minha, e foiu tão bom estarmos juntas! Hoje, véspera de Natal, vamos jantar à Oma, mas vamos cedo, para lhe fazer companhia. O meu Natal será dia vinte e cinco, quando o Mano vem, com a namorada e o nosso outro filho adoptivo, tão querido, que inicia mais uma tradição, repetindo o ano passado e deixando o meu coração mais quente.

Temos presentes debaixo do Presépio, e a Alegria da antecipação de - espero - mais alguns sorrisos. Criamos novas memórias, para que estas nos ajudem na sobrevivência a uma Saudade sem fim.

Mas também temos Gratidão: pelo seu querido Irmão, pela Oma, que continua aqui, minha Rocha cheia de força, por tudo o que tenho, e não me refiro ao material.

Neste Natal, a Saudade sente-se muito mais, mas é um bom sinal: é sinal de que estou viva, porque no ano passado, nem sei bem descrever o que sentia, porque não me lembro bem. A Saudade estranha-se, depois entranha-se, Faz parte de nós. Custa mais, numa altura do ano em que todos estão com os seus queridos, e nós somos ponte entre dois planos, entre os nossos, mas estamos. E SOMOS. 

Feliz Natal meu Filho do Céu! 

Com todo o meu Amor,

Mami



quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

20.12.2023 - One Day plus 139 - Da Gratidão, do Natal e de tantas outras coisas...

 


Tim, (falta-me o fôlego para o "meu adorado Filho"),

Tim...quantas mensagens, fotografias, vídeos e mais telefonemas costumávamos trocar por estes dias? Quantas discussões sobre os presentes para o Duda, a Oma e a sua miúda, passando por algumas outras dicas, como as do Pai, dos Tios, de tantos outros? Quantas vezes tocava o meu telefone, agora mudo, no silêncio da comunicação, nesta época tão significativa para mim, tão cheia, tão grávida de recordações doces e suaves, tão plena de Amor, tão dádiva, com a qual que nós dávamos Alegria aos outros? Lembro-me de tanto Martim! De tanto, do sorriso da sua miúda, quando você fez magia com a carteira, da gargalhada da Oma com o porta-moedas que ainda hoje usa, e da minha, por ter finalmente uma "Coach" de uma cor que ninguém tem, a minha "Coach" da sorte, aquela que hoje quase nem ouso usar para não estragar! Erro meu, mas apenas por querer preservar intacta a memória de um Natal tão especial, dos últimos, que passámos na Alegra Casinha, quando tudo era ainda normal! 

Ontem o Mano ligou, andava nas compras de Natal. Foi um telefonema que soube pela Vida, ainda com maiúscula nessa altura, e, conquanto, constato que estou a viver, ao antever o sorriso da Cate e da Oma, do Mano e mais alguns sorrisos, espalhados e espelhados pelo Natal. Um Natal em que agradeço, porque nada me resta, e, mesmo assim, tenho tanto! 

"As Dianas nasceram por causa deste miúdo! Ainda hoje falei tanto dele, no stress que era, todos os anos, a época pré-natalícia. Stress? Não, na emoção, no “frisson” da antecipação de sorrisos. Os meus dois Filhos queridos são tão parecidos nisso, e acertam sempre, mesmo que à ultima da hora, nos presentes com que mais sonhámos. Sempre foi assim o nosso Natal, menos embrulhos, mas todos os Natais havia um com muito significado. Havia sempre um sonho realizado, nem que fosse o único embrulho debaixo da árvore. Porque o Natal não é quantidade, é qualidade. Qualidade no Amor que sentimos pelos outros. Neste Natal o meu coração enche-se de gratidão: pelos meus Terrenos que tanto amo, sobretudo pelo meu Duarte, de quem tanto me orgulho, pelo meu Anjo do Céu , aquele que zela por mim todos os dias, pela minha querida Mãe, que por cá anda comigo em aventuras natalícias, e cujos olhos brilham quando fala do cabrito, nova tradição cá em casa! Pelos meus Amigos, aqueles que me acompanharam ao longo deste ano, neste hiato tão difícil e tão doloroso, entre estes dois últimos Natais. Pelo Miguel, que me acompanha, diariamente de pedra e cal, apesar das suas idiossincrasias. Pelas Mães, e alguns Pais, órfão de filhos, com quem partilho esta nossa tão dura e espinhosa caminhada! Pelos que leem o meu blogue, e com isso, mantêm viva a memória do meu querido Filho Martim, que tanta falta me faz nesta quadra natalícia! Pelas famílias que acolheram as minhas netas Dianas, e que com isso, me deram uma prova imensurável de amor e de confiança. E acima de tudo, tudo, tudo, pela dádiva que me foi dada, de conseguir transformar uma dor universal em Amor! De não sentir nem mágoa, nem rancor, nem raiva, mas apenas gratidão por tudo o que me tem sido dado. Feliz Natal meus queridos!"

E é isto Filho. É isto, tão perto do Natal. 

Saudades suas Martim, tantas, que não consigo quantificar. Tantas, que não existem lágrimas suficientes. E ao mesmo tempo, tantos sorrisos perante as minhas doces memórias. A vida continua meu Filho, nas velas que acendo no meu atelier, na Paz que procuro diariamente sentir no meu coração, no apaziguamento de tanta imagem gravada na memória, nos soluços que agora teimam em se libertar do  meu peito.

Se o Mundo soubesse...

...mas também se soubesse de tudo, deixaríamos de ter aqueles nossos segredos cúmplices, de jantares épicos, de memórias indeléveis, de Vida pulsante e plena, transbordante de energia. Dava a vida para ouvir a Coruja cantar...

...há sempre um presente especial à nossa espera debaixo da árvore!

Com  AMOR infinito, 

Mami




quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

13.12.2022 - One Day plus 132 - sobre (como) roubar fotografias suas, ou de olhos postos no Céu!

 



Tim do meu coração,

Hoje de Lisboa, sentada a um metro da cadeira onde conversei consigo pela última vez. Estou a vê-lo, a ouvir a sua voz, a sorrir para o seu sorriso, aí sentado, numa incansável argumentação com a Oma sobre as vantagens de fumar tabaco aquecido, para,  num rompante, saltar da cadeira de palhinha e sair, para uma hora depois voltar, munido dos artefactos que iriam suster a sua tese. Desde esse dia, ou melhor, desse dia mais cinco, aquele dia sinistro de dois de Agosto de dois mil e vinte e dois, que a Oma cumpriu a sua palavra. Ou melhor, as suas - suas - dela. A velhota tem-se aguentado. E bem. E bem, porque é ainda muito precisa. Precisa e preciosa, fonte de Vida onde ainda hoje vou beber. Não é fácil às vezes, e é desafiante, mas é a OMA. 

E aqui estes dois dias, ou melhor, estas duas noites, aproveitei para "canibalizar" algumas fotografias de casa dela. E ao recordar esses tempos ancestrais, voei no tempo, e recordei tempis (in)temporais,  tão alegres, tão divertidos e foi então que, de reoente, reparei que...

...desde o seu ano e meio de Vida, que os seus olhos estavam postos no Céu. 

Como se num prenúncio, numa expressão de um reconhecimento feliz de quem está, ou esteve, "aqui" apenas emprestado, porque os Anjos têm de retornar ao Céu.

Meu Filho querido, o meu coração transborda de gratidão e de Amor por si. Por me ter ajudado a reerguer da morte, para poder acompanhar os Vivos que adoro, os meus Seres Terrenos, todos eles, tantos e todos eles que precisam (e chamam) por mim!

Parte de mim será para sempre Céu. Estou aí, consigo, num Abraço universal, num (re)encontro constante de Mãe e Filho, um reencontro que jamais será interrompido, porque enquanto vocè "aí" e eu "aqui", a ponte do Amor universal une as nossas margens, transbordantes de Alegria e Gratidão por cada uma destas nossas tertúlias!  

Nunca sonhei que o Amor me faria, neste Dezembro, planear presentes, fazer Dianas, trabalhar, aprender a (sobre)viver à morte da dor do Luto por um Filho. Nunca pensei que seria possível. 

Hoje, no metro atulhado de gente, com a mochila às costas, um saco de compras num ombro, no outro a carteira e o casaco, morta de cansaço, uma catraia começou aos gritos comigo porque eu queria passar para sair na estação seguinte. Parei, olhei para ela e sorri longamente enquanto lhe disse:

- "Oh, desculpe, mas como vê, sou quase uma avó e estou carregada de tralha". 

Uma onda de Amor invadiu-me de imediato, perante os primeiros sinais instintivos que saltaram, e que me fizeram pensar por nanossegundos:

- Oh minha miúda malcriada e estúpida, que estás a tapar a porta, então tu não vês que eu, que mais pareço uma morta de cansaço físico, carrego um fardo visível tão pesado, e mal sabes tu do outro, e tu pões-te com esses disparates agressivos?"

O Amor sobrepôs-se de tal forma, que perdi o Marquês de Pombal, e quando acordei do transe em que me encontrava, estava na Avenida. Percebi o que você me quis dizer, ainda hesitei, mas doíam-me tanto os braços, e os fios ainda estão bons, que ficam para a próxima vez que vier a Lisboa!

De olhos postos no Céu, estamos quase no Natal meu Filho.

E você está comigo. Sempre!

Um beijo enorme da sua Mãe que o adora, 

Mami

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

4.12.2023 - One Day plus 123 - Nómadas na Era digital, Nómadas no Espaço Astral!

 




Meu adorado Martim,

Estes últimos dias têm sido duros. Muito duros. O primeiro Advento trouxe-me muitas recordações. Inúmeras. Doces, suaves, e conquanto melancólicas, verdadeiras carícias traduzidas em reminiscências de uma Alma velha. Quantas vidas se vive numa Vida? Quantas vezes temos de nos reinventar? Bom, alguns, nenhuma, outros, não há números suficientes para contabilizar. Os meus pensamentos vagueiam, nesta nova, mais uma de infinitas, conversa que estou a ter consigo. 

E hoje não me apetece ir por partes. Quero deixar o lado germânico dormir em paz com a sua querida necessidade de organizar tudo, e dar asas à minha costela Tuga, onde simplesmente deixo as palavras fluír.

Está um frio de rachar. E isto não é um início de nenhum episódio - por acaso vou-me perder aqui num pequeno Delta da conversa  mais adiante - é um ""under"-"statement"". Isto é a verdade pura e crua. Está frio, e a melhor hora do dia, é quando desligo do trabalho e acendemos o lume passado algum tempo. Onde conversamos, e onde, mergulhada na energia púrpura das chamas à medida que crescem e se alongam, num bailado sempre diferente, revejo imagens, recordo conversas, e revivo abraços. E a propósito de frio de rachar, e de nómadas digitais, 

- "(que moderna Mãe, que é que se passa?)"

descobri um site fantástico onde se compra roupa em segunda mão. Nas minhas noites de insónia, entretive-me a deslindar os meandros desta nova forma digital de viver a sua e minha paixão por vasculhar lojas à procura de achados, e descobri que é possível comprar umas botas Timberland - novas - por uma pechincha. Ao mesmo tempo, ajudo a reduzir a minha peugada de carbono (e sim, meus queridos jovens, pode escrever-se "peugada", daí a velha "peúga"), e sinto-me ultra moderna, o que ajuda bastante a contrabalançar os milhares de anos que tenho em cima.

Mas que enorme introdução que fiz para lhe dizer "apenas" isto: os últimos dias têm sido duros. Muito duros. E, em vez de estar na cozinha a preparar o jantar, estou a escrever-lhe. Ou melhor, vim para o Atelier para acabar as Dianas. Mas faltava-me a música. Como estou completamente "ginja", andei meia hora à procura do carregador da coluna. E quando o encontrei, já a nossa conversa ia de tal forma longa, que abri o Spotify e vamos a isto. E, quase sem olhar bem para o som, deparei-me com isto. E é basicamente "isto".

É uma "playlist" sua, que, quando escolhi, nem reparei que o era, decidi-me por ela, porque adoro Thievery Corporation, porque a Saudade é a minha nova grande Amiga, ou sombra, ou seja lá o que for que me assola, que se colou à minha Alma, ao meu coração e ao meu corpo numa simbiose perfeita, gémea siamesa com a qual tenho que aprender a viver. Não há medicina que separe as duas, mas há um remédio para isso: AMOR. 

Não cura, mas mitiga.

E mitigar é partilhar, é não ter vergonha de esconder a dor, é não poupar os outros ao nem nosso sofrimento, nem à nossa tristeza, porque quem nos ama, aguenta tudo isso. Porque pegam nos cacos estilhaçados e tentam colá-los. E conseguem, nem que seja por instantes. E esses instantes, inconstantes como as chamas que dos cães da lareira lambem as paredes de tijolo de burro, numa dança rodopiada de calor, são instantes de Amor, porque de Paz. De apaziguamento. De deixar a mente vaguear, qual nómada no Espaço Astral!

Mil beijos meu filho, da sua Mãe que vagueia perpetuamente entre o aqui da Terra, e o aí da Saudade,

Mami!

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

24.11.2023 - One Day plus 113 - M A R T I M

 




Martim...

...Filho meu,

daqui a poucos minutos bate a hora em que nasceu. Sete e vinte e uma da tarde, meu adorado Filho, meu primeiro sonho de Mãe concretizado, meu Menino, minha Criança, meu Adolescente, meu Jovem Adulto, promessa de um Ser Humano Maior, meu futuro roubado, minha tristeza, minha revolta, minha Esperança, meu Amor universal depositado em cada um e em todos, num uníssono de eterna Gratidão pela bênção que me foi dada, em poder dar ao Mundo, e à Eternidade um Filho de...

...LUZ!...

Meu Filho...faltam-me as palavras, afogadas nas lágrimas, conquanto iluminadas pelo sorriso.

Meu Filho, hoje, mais do que ontem, e sempre menos que amanhã...

Com todo o meu Amor,

Mami

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

23.11.2023 - One Day plus 112 - Sobre momentos gratificantes e mágicos, amanhã "longe demais"!

 



Querido António,

e meu querido Filho,

aqui segue uma fotografia da vossa (e tão minha Diana).

Gostava, que quando desses esta Diana à tua filha, e não digo nomes para não estragar surpresas e por causa da proteção de dados!, que lhe contasses esta minha e sua (da Diana) história.

Em Dezembro, quatro meses depois do Martim morrer, decidi, uma vez que não tinha ainda conseguido concretizar um dos desejos da minha “bucket list",  tirar um curso de corte e cose, comprar uma máquina de costura. Assim do nada. O Banco ofereceu-nos uns vales de presente de Natal e pensei, que depois do que me tinha acontecido, era mais do que tempo de realizar um sonho, embora o tenha começado ao contrário. A grande vantagem, é que com o meu "German footprint", depois de despender tamanha quantia numa máquina, nem que seja à chicotada, vamos aprender a usar a dita. E assim foi, apenas com a diametral diferença de que em vez do chicote, eu tive uma mão que me guiou.
Num inverno gelado, mais ou menos há um ano, em que não sabia se estava viva ou se tinha morrido, toda eu Saudade e lágrimas, dilacerada por dentro mas funcionando por fora, tal qual boneca robótica século vinte e dois, comprei a minha máquina. E de livro de instruções em punho, página a página, pu-la a funcionar. E daí foram passos e saltinhos, corridas e caídas, mas a minha neta do Universo, tinha de nascer, pois é do meu Filho do Céu. E a Diana trouxe…

…AMOR!

E por estranho que pareça, cada Diana que nasce das minhas mãos, é especial, e está cada vez mais gira. Parece que elas sabem para quem vão. São parecidas com a pessoa para quem foram destinadas. Há como que uma mão do divino.

Cheguei a ter uma encomenda de três Dianas para três netas, onde a avó me disse para ser eu a escolher para qual delas seria cada uma. Fiz os embrulhos como o Universo o ditou. Uns dias mais tarde recebo uma mensagem de what’s up. Comovi-me com o que li, mas chorei ao ver as fotografias. Umas netas eram loiras, outras morenas. Umas mais extrovertidas, outras mais tímidas. Cada uma delas tinha a sua Diana nas mãos. E era como se elas tivessem sido os meus modelos. A cor dos cabelos, a expressão do olhar, os tons dos vestidos e forma do corpo correspondiam na mouche. Eram IGUAIS!
Umas semanas mais tarde, numa noite terrível de frio, de saudade, de morte e de desespero, não dormi. Trabalhei a noite toda, sentindo a sua presença atrás do meu ombro direito, a sua mão levemente pousada, a sua voz a falar-me baixinho ao ouvido (e não, não era apenas um sussurro) e, quando os primeiros raios gelados de um sol que nascia do lado esquerdo dos meus olhos irromperam o azul escuro do céu, nasceu a Diana Anjo da Guarda.

Reparo agora, António, que escrevi o parágrafo acima como se fosse para o Martim, peço desculpa pelo lapso, perco-me sempre nas lembranças deste meu Filho. Mas adiante.
Da mesma forma (sobre)natural - embora eu prefira escrever universal - que o meu caminho me levou até ao Anjo, há poucos dias fiz esta vossa Diana. Nunca tinha feito uma Diana assim, mas pensei que nem sempre as miúdas têm que andar de tótós, as miúdas não são menos miúdas quando decidem andar despenteadas. Depois de reflectir um bocado, achei que nem todas as pessoas iriam preferir uma Diana assim. Mas disse ao Martim:

- “ Filho, você vai encontrar uma pessoa família muito especial para esta sua Miúda, e o Universo vai ajudar!

E assim foi. E é com uma Gratidão IMENSA, porque recebi mais um sinal do meu Filho do Céu, que amanhã faria 26 + 2 anos, que olho para este céu de hoje, dia vinte e três de Novembro, véspera de um dos dois dias mais felizes da minha Vida, e digo:

Obrigada meu Filho, não só por mostrar ao Mundo que nem todos somos iguais, como por me encontrar “A” pessoa certa, na forma de uma Miúda com “M” de maiúscula, para mais uma Diana, boneca de trapos, cosida com floridos e coloridos farrapos de Amor!

Obrigada António e depois conta-me o que é que ela sentiu quando a recebeu nos braços!

E como esta carta é uma missiva entrelaçada de destinatários, assino “apenas” como,

Mãe

domingo, 19 de novembro de 2023

19.11.2023 - One Day plus 108 - Nas Asas do Infinito! ("Aujourd'hui plus qu'hier et bien moins que demain")

 



Martim, meu adorado Filho,

Nem sei por onde começar. Em primeiro lugar quero pedir-lhe desculpa, por ainda não ter transcrito as nossas últimas conversas. Mas também foram tantas, mas tantas, que não teria humanamente tempo para relatar o que se passa no plano divino. Ou semi-divino, porque se me envolve, não pode ser apenas Céu. 

Filho, nem sei como o descrever, porque o(s) plano(s) que movimentamos, e nos planos em nos nos movimentamos, são uma espiral que nos leva ao âmago, a um lugar em que somos forçados, e acabamos por aceitar, a compreender que nada depende de nós. Vou-lhe contar um segredo, que lhe peço guare só para si: este último ano e mais uns meses espremidos à saudade do tempo, ensinou-me mais, do que a muitas pessoas reincarnadas em muitas vidas. Eu sou milenar: na minha saudade, na minha tristeza, na minha agonia. Sou a Mãe das Mães, porque esta dor que nos dilacera as entranhas, é a mãe de todas as dores. Não existe dor maior. Mas, é precisamente nesta dor Maior que nos temos que reinventar, numa herança que se perde na bruma dos tempos. E o estranho, é que quando estou "comigo" e me visualizo, o meu rosto traduz as linhas de tempos felizes. Mas quando me olho ao espelho, vejo uma anciã, onde as lágrimas lavraram sulcos tão profundos, quanto indeléveis, tatuados a ferro e fogo na minha Alma. E, contudo, esta Alma sobrevive.

Quem sabe, porque fui capaz de dar à Luz um Anjo. Tanto quando o trouxe para o plano terreno, como quando o entreguei ao divino. Fui dor duas vezes, uma no corpo, outra na Alma. 

E cá estou. E o trabalho, e as idas a Lisboa, e os quilómetros que faço aos encontrões, no meio de um ruído, burburinho gritante e incomodante, que a maioria dos Lisboetas,  os verdadeiros e os da periferia, já nem sentem, porque pertence ao seu quotidiano, mas que a nós, gente do campo, causa comichão na cabeça. E o tempo corre, corre, corre, na espiral que nos suga, e eu não me consigo virar entre falar quatro línguas ao mesmo tempo, conviver com dezenas - senão mais - pessoas, e o silêncio do meu campo, e as Dianas, e os animais, e tudo o que aqui me prende.

E tudo o resto que você sabe tão bem, porque me acompanha, e sabe as lutas que tenho travado, na procura incessante de tudo o que considero justo e correcto, debaixo de uma saudade, ainda nem aflorada, do seu avô, da Foxie, e de uma vida que nem parece que foi minha. Entendo agora o que sentem os velhos, um olhar para uma sucessão de dias que é tão longa, tão única, tão cheia de recordações, que mais parece um livro, do que um aglomerado de vivências reais, puzzle delicadamente montado numa pessoa, que ora se desfaz, ora se completa, numa paciência infinita! 

E nestas paciências, sobrevivemos. Trazemos connosco, num bolso debruado e mal alinhavado no nosso coração, os que estão no Céu. E no outro lado, noutro bolso, cosido com as linhas do Amor, levamos os outros. Os Terrenos. Os que nos obrigam a criar raízes.

E neste pairar, nesta vida (terrenamente divina? ou divinamente terrena?), existimos. E lutamos. E somos. 

E ouvimos...

...a Coruja. Que voltou. De uma forma diferente, mas voltou, a um Outono mais sábio, mais, muito mais dorido, muito mais dilacerado, mas também muito mais empoderado. A sua bisavó Loures costumava dizer: 

- "Si jeunesse savait, si veillesse pouvait" e é tão, mas tão verdade. 

Mas eu posso, porque me basta semicerrar os olhos, erguer a cabeça para o Céu e acreditar. E nessa crença inabalável que sempre tive, nascem-me as Asas. E sou Céu. E sei voar. 

E voamos, Pássaros Alados nas asas do Amor!

Mil beijos meu Filho, da sua Mãe que o adora,

Mami!




05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...