domingo, 21 de janeiro de 2024

21.1.2024 - One Day plus 171 - Da (In)saninade! ou..."All that we perceive"

 




Meu adorado Filho,


Há quanto, quanto tempo, e, ao mesmo tempo, que rápido que passa o tempo, este ora fluir, ora arrastar dos dias, do amanhecer ao ocaso, em dias que acontecem por acaso, sem qualquer nexo, numa causalidade que não cessa de me espantar, porque neste tempo que se arrasta a uma velocidade furiosa, muita coisa acontece. E nesse acontecer, mudamos. 

Hoje, aliás ontem, porque já passa da meia noite, tive uma notícia maravilhosa. Bem, nem é bem uma notícia, é uma transformação. Uma das minhas Mães mais queridas, aliás, a mais querida, mais uma Guerreira, que ofereceu o seu único Filho ao Céu, está transformada. Que maravilha que foi ouvir a sua voz solta, célere, viva e ágil, a brotar informação, enquanto antigamente se arrastava, num lamento envolto na tristeza da lamúria, num compasso desfasado e desafinado de uma melodia fúnebre.

Nutrimo-nos uma à outra. Choramos juntas, rimos juntas, e uma à outra vamos contando sobre os sinais que recebemos. Vamos partilhando memórias, falando deles, que são tão parecidos, dos nossos Filhos do Céu, e nessa partilha, conseguimos viver um luto sem nos deixarmos envolver pelo luto. Viver o luto é tratar por tu a SAUDADE, que não diminui, antes pelo contrário. Ela aumenta, à medida que cresce a soma dos dias, em que finalmente aceitamos que eles já não estão neste plano. Que partiram. Mas a aceitação, aquela muda resignação que não queremos deixar entrar, contém em si um segredo: ela SUAVIZA a dor. Ela não diminui a sua intensidade, ela apenas - e, conquanto faz TANTO - ela lima-lhe as arestas afiadas, de forma a que não nos rasgue tanto as entranhas. Ela teve um lindo presente de Natal do seu Filho adorado. Uma dádiva que não tem preço, porque vem do Universo, daquele lugar omnipresente, onde os nossos miúdos se encontra(ra)m. Um enorme coração se desenhou no Céu, feito por nuvens. Quando ela me enviou a fotografia, fiquei tão feliz por ela, porque se há alguém que merece, é esta Mãe. Esta Mãe que não conheço pessoalmente, cujo corpo nunca abracei, cujo peito nunca estreitei contra o meu, é talvez uma das pessoas mais importantes da minha nova vida. precisamente porque ela é a prova provada de que o Amor não necessita de um corpo físico, porque é força universal. Não ponho qualquer dúvida, e muito menos em dúvida, (d)a profundidade da amizade que nos une, do calor da ternura da voz com que nos consolamos, na generosidade de uns braços escancarados, porque entendem a dor decalcada, de Mães roubadas, de Mães que questionam muita coisa, mas que em vez de chorarem a partida, agradecem a presença, por muito fugaz que ela tenha sido.

Meu Filho, há dias em que duvido das minhas memórias, e nesses dias sinto-o longe, muito, muito longe, o que me custa, mas que me sossega, porque o sei muito perto do Divino. Nesses momentos de esquizofrenia, chego a duvidar que fui sua Mãe, porque me parece que vivido noutra vida. São momentos que nos fazem questionar muita coisa. De todos os meus Guias, você é o que está mais perto do Sol. Mais perto da Luz. Mais perto - repito - do Divino. E nessa proximidade, está longe, muito longe de mim, e nesse afastamento, vive em mim, e a sua força divina entra em mim e dá-me uma resiliência de que jamais sonhei que seria capaz. 

Essa resiliência raia a (in)sanidade, porque é de tal forma forte, que não sei onde a vou buscar, mas vou, numa rebeldia que ninguém me tira, porque encerra em si a sua também. 

Meu adorado Filho, obrigada pelas melhoras da Oma. Sou agora "multitasker", malabarista de tarefas, desde há duas semanas também género "meals on wheels", separados em minúsculos tupperwares de dose única, para que seja mais fácil. E tanto amor que ferve e depois congela em cada um!

Martim, obrigada pelo seu sinal. Obrigada por me ter apontado o coração do Anjo e pelo canto da coruja de há dois dias. Quanta saudade tinha dela. Obrigada meu Filho por estas visitas. Este Anjo, que comprei para por no meu presente de Natal, que você e o Mano me ofereceram, mas que não tinha etiqueta, e a Oma, na sua perfeição natalícia, vos obrigou a pedir-me para eu comprar. E de você não querer escrever no Anjo, porque me disse: 

- "Oh Mami, que estupidez, já lhe demos o presente, o Natal já foi ontem, para que é que vou escrever?" 

E eu fiz uma birra tal, que você e o Mano desistiram, e lá rabiscaram qualquer coisa. Foi esse o nosso último Natal juntos. Foi Felicidade pura, foi loucura, foi acampamento naquela casa minúscula, onde fomos tão felizes, e que você dizia que ficava por detrás do sol posto. Pois é precisamente nesse crepúsculo desse horizonte, onde vivemos agora, e onde o celebro, meu Filho, sempre que passeio pelo campo, depois de finalmente ter podido lavar e estender roupa ao fresco, porque esteve um dia de Sol. 

A noite está gelada, estrelada e escura, o meu coração quente, porque aconchegado por um braseiro incandescente, que jamais se apagará, porque quem é recordado nunca morre.

Boa noite meu Anjo querido, mil beijos da sua Mãe que o adora,

Mami

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

2.1.2024 (para mim ainda 1.1.2024) - One Day plus 151 - BAGA

 



Meu adorado Martim,

Há tantos dias que lhe queria escrever, mas não conseguia encontrar as palavras no tumulto do meu coração. Agora, mais apaziguado. Ou menos dorido, sei lá eu. 

Meu Filho...mataram-me a Poppie no dia 24.12. ao final da tarde. Foi atropelada e fugiram. Era um dia "normal" de véspera de Natal, tal como o dia dois de Agosto de dois mil e vinte dois. Até que um telefonema me virou a vida ao contrário novamente. Sei que para uns, é "apenas" um cão. E sim, era. Mas para mim era a fonte dos meus afectos, onde depositei esperança, amor e vida, uma cadela fantástica, que eduquei a tanto custo, numa réstia de um sopro de vida que ainda existia em mim. Achei que enlouquecia, enquanto ouvia a voz aos soluços do Miguel. Uivei de dor. De desespero, de frustração, de desgosto. Revivi o dia da sua morte, quando o Miguel a trouxe, ensanguentada e inerte, envolta num casaco, e a sepultámos ao lado da Foxie. Chorei de mágoa, gritei ao Universo, porque - caramba - quanto mais pode um ser humano aguentar sem se ir abaixo, que mal fiz eu para me acontecer mais este infortúnio, quanto pensa o Universo que eu aguento sem desistir? 

Mas não desisti. E fui buscar a Baga. A Baga que é uma alegria. Mas sinto-me vazia Filho. Vazia e cansada, cansada de dar. Dou com Amor. Sempre, mas também gostaria de ter um pouco de Amor de volta. A Baga dá-me o amor inocente de uma cachorra de dois meses. Só faz asneiras, e eu sinto-me velha e pesada, conquanto esteja cada vez mais magra, porque o sofrimento pesa. Pesa toneladas. Pesa uma vida (in)acabada, cosida em retalhos de pano cru, remendada e esfarelada, exprimida até ao tutano, num túnel de escuridão de onde tento todos os dias sair, mas cuja porta me está sempre a ser mudada de sítio. 

Começo a desenvolver uma fobia, a de que todos os seres que amo, me são roubados. Tenho a perfeita noção de que não vai ficar por aqui, e é essa suspeição que me rouba o sono e a força.

Passei o Natal em modo automático, e ainda bem que o Mano e os Amigos cá estiveram, porque me obrigaram a manter o foco. Mas por dentro, toda eu era lágrimas. Fui rio salgado, chorado, tumultuoso e revolto, remoinho da espiral, na cascata de que sou feita. 

Martim, sei que estou certa, conquanto viva algo semelhante a "Voar sobre um Ninho de Cucos"! Querem-me fazer louca, aqueles que, precisamente, advogam a vida livre e o livre arbítrio, os que defendem a liberdade (de expressão individual), mas que rapidamente se contradizem, quando a mesma pede alguma compaixão, ou compreensão ou o que quer que seja. 

"Walk your Talk" é tão fácil de verbalizar, mas tão difícil de viver, porque as pessoas são um poço de egoísmo, e a sua pseudo-empatia, só serve os seus propósitos, porque quando se trata de "ESTAR", foge tudo. Bom, tudo não. Há pelo menos, uma pessoa que ESTÁ. O meu Mano. O meu Mano entende-me. Não tendo filhos, é empático, e ama-me, na inocência de um amor que nada pede, e tudo (me) dá. Entende que existe um buraco na minha Alma, um buraco negro, que só se apazigua com Amor. É a única pessoa neste Mundo que nada me pede, que lê (n)os meus silêncios a mágoa que me assola, que está presente, de corpo e de alma, num Algarve que vai surgir, trazendo-me o mar à palma da mão, com o sal que me purifica. A única pessoa que defende o meu ponto de vista, e que me assegura que loucos estão os outros. Todos eles, no seu egoísmo, de que há prazos para curar um sofrimento que é incurável. 

Todos exigem. TODOS. Ninguém pára para pensar, que é precisamente essa exigência que dá cabo de mim. Porque não sou, não fui, não apareci, não visitei, não fiz, não aconteci, não comprei, não calei no meu âmago as minhas necessidades emocionais. Ninguém pára para pensar que, quem precisa sou eu. Não os outros, porque as suas vidas continuam de uma forma ou de outra. Foi a minha que ficou suspensa. E um dia, quando eu fechar os olhos e for ao seu encontro, nessa altura vão dizer: 

- "Caramba, que poço de energia esta mulher. Que garra, que stamina, que força da Natureza!"

Irei deixar algumas saudades, disso não tenho dúvida. Pelo menos, aos que me amam de verdade. Os outros, consolar-se-ão depressa, mas também me estou a borrifar para isso, porque quando for, vou para ao pé de si. Vão chorar muito, como quando você morreu, mas depressa a vida os vai engolir, na sua sofreguidão gulosa, derretendo no seu estômago qualquer resquício de saudade que teime em existir, e seguem. No "fast lane" do "live and let live", os afectos de hoje em dia são rápidos, intensos e deixados para trás. É o preço do modernismo numa sociedade cada vez mais superficial (e supérflua)! Tudo é momento. Tudo é consumível. Defendo que o Amor não o é. Mas também, hoje em dia, sou mais advogada, não do Diabo, mas dos Anjos. Defendo o significado de muita coisa.

Meu Filho, deixei as passas no bolso, não pus o pé direito à frente, não fiz nada. Simplesmente vivi, um dia de calendário como outro qualquer. 

Estou. E sei. Sei, naquela sabedoria ancestral, milenar, pedra basilar da minha existência, premonição em tempo real, sobre um futuro que irá acontecer. 

E enquanto a vida se desenrola, a Baga está. Comigo.

Obrigada meu Filho do Céu, meu Martim, meu Amor querido, meu Anjo!

Presumo que no Céu não haja tempo...

...

Mil beijos da sua Mãe que o traz para sempre no seu coração,

Mami!

domingo, 24 de dezembro de 2023

24.12.2024 - One Day plus 143 - Dia 24.12. de tantos e tantos anos, tão bons!

 



Meu adorado Filho,

hoje, porque já passa da meia-noite, escrevo-lhe para lhe desejar um Santo Natal aí no Céu. Senti-o hoje, meu Filho, e obrigada por este presente. A sua Miúda continua sua, e minha, e foiu tão bom estarmos juntas! Hoje, véspera de Natal, vamos jantar à Oma, mas vamos cedo, para lhe fazer companhia. O meu Natal será dia vinte e cinco, quando o Mano vem, com a namorada e o nosso outro filho adoptivo, tão querido, que inicia mais uma tradição, repetindo o ano passado e deixando o meu coração mais quente.

Temos presentes debaixo do Presépio, e a Alegria da antecipação de - espero - mais alguns sorrisos. Criamos novas memórias, para que estas nos ajudem na sobrevivência a uma Saudade sem fim.

Mas também temos Gratidão: pelo seu querido Irmão, pela Oma, que continua aqui, minha Rocha cheia de força, por tudo o que tenho, e não me refiro ao material.

Neste Natal, a Saudade sente-se muito mais, mas é um bom sinal: é sinal de que estou viva, porque no ano passado, nem sei bem descrever o que sentia, porque não me lembro bem. A Saudade estranha-se, depois entranha-se, Faz parte de nós. Custa mais, numa altura do ano em que todos estão com os seus queridos, e nós somos ponte entre dois planos, entre os nossos, mas estamos. E SOMOS. 

Feliz Natal meu Filho do Céu! 

Com todo o meu Amor,

Mami



quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

20.12.2023 - One Day plus 139 - Da Gratidão, do Natal e de tantas outras coisas...

 


Tim, (falta-me o fôlego para o "meu adorado Filho"),

Tim...quantas mensagens, fotografias, vídeos e mais telefonemas costumávamos trocar por estes dias? Quantas discussões sobre os presentes para o Duda, a Oma e a sua miúda, passando por algumas outras dicas, como as do Pai, dos Tios, de tantos outros? Quantas vezes tocava o meu telefone, agora mudo, no silêncio da comunicação, nesta época tão significativa para mim, tão cheia, tão grávida de recordações doces e suaves, tão plena de Amor, tão dádiva, com a qual que nós dávamos Alegria aos outros? Lembro-me de tanto Martim! De tanto, do sorriso da sua miúda, quando você fez magia com a carteira, da gargalhada da Oma com o porta-moedas que ainda hoje usa, e da minha, por ter finalmente uma "Coach" de uma cor que ninguém tem, a minha "Coach" da sorte, aquela que hoje quase nem ouso usar para não estragar! Erro meu, mas apenas por querer preservar intacta a memória de um Natal tão especial, dos últimos, que passámos na Alegra Casinha, quando tudo era ainda normal! 

Ontem o Mano ligou, andava nas compras de Natal. Foi um telefonema que soube pela Vida, ainda com maiúscula nessa altura, e, conquanto, constato que estou a viver, ao antever o sorriso da Cate e da Oma, do Mano e mais alguns sorrisos, espalhados e espelhados pelo Natal. Um Natal em que agradeço, porque nada me resta, e, mesmo assim, tenho tanto! 

"As Dianas nasceram por causa deste miúdo! Ainda hoje falei tanto dele, no stress que era, todos os anos, a época pré-natalícia. Stress? Não, na emoção, no “frisson” da antecipação de sorrisos. Os meus dois Filhos queridos são tão parecidos nisso, e acertam sempre, mesmo que à ultima da hora, nos presentes com que mais sonhámos. Sempre foi assim o nosso Natal, menos embrulhos, mas todos os Natais havia um com muito significado. Havia sempre um sonho realizado, nem que fosse o único embrulho debaixo da árvore. Porque o Natal não é quantidade, é qualidade. Qualidade no Amor que sentimos pelos outros. Neste Natal o meu coração enche-se de gratidão: pelos meus Terrenos que tanto amo, sobretudo pelo meu Duarte, de quem tanto me orgulho, pelo meu Anjo do Céu , aquele que zela por mim todos os dias, pela minha querida Mãe, que por cá anda comigo em aventuras natalícias, e cujos olhos brilham quando fala do cabrito, nova tradição cá em casa! Pelos meus Amigos, aqueles que me acompanharam ao longo deste ano, neste hiato tão difícil e tão doloroso, entre estes dois últimos Natais. Pelo Miguel, que me acompanha, diariamente de pedra e cal, apesar das suas idiossincrasias. Pelas Mães, e alguns Pais, órfão de filhos, com quem partilho esta nossa tão dura e espinhosa caminhada! Pelos que leem o meu blogue, e com isso, mantêm viva a memória do meu querido Filho Martim, que tanta falta me faz nesta quadra natalícia! Pelas famílias que acolheram as minhas netas Dianas, e que com isso, me deram uma prova imensurável de amor e de confiança. E acima de tudo, tudo, tudo, pela dádiva que me foi dada, de conseguir transformar uma dor universal em Amor! De não sentir nem mágoa, nem rancor, nem raiva, mas apenas gratidão por tudo o que me tem sido dado. Feliz Natal meus queridos!"

E é isto Filho. É isto, tão perto do Natal. 

Saudades suas Martim, tantas, que não consigo quantificar. Tantas, que não existem lágrimas suficientes. E ao mesmo tempo, tantos sorrisos perante as minhas doces memórias. A vida continua meu Filho, nas velas que acendo no meu atelier, na Paz que procuro diariamente sentir no meu coração, no apaziguamento de tanta imagem gravada na memória, nos soluços que agora teimam em se libertar do  meu peito.

Se o Mundo soubesse...

...mas também se soubesse de tudo, deixaríamos de ter aqueles nossos segredos cúmplices, de jantares épicos, de memórias indeléveis, de Vida pulsante e plena, transbordante de energia. Dava a vida para ouvir a Coruja cantar...

...há sempre um presente especial à nossa espera debaixo da árvore!

Com  AMOR infinito, 

Mami




quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

13.12.2022 - One Day plus 132 - sobre (como) roubar fotografias suas, ou de olhos postos no Céu!

 



Tim do meu coração,

Hoje de Lisboa, sentada a um metro da cadeira onde conversei consigo pela última vez. Estou a vê-lo, a ouvir a sua voz, a sorrir para o seu sorriso, aí sentado, numa incansável argumentação com a Oma sobre as vantagens de fumar tabaco aquecido, para,  num rompante, saltar da cadeira de palhinha e sair, para uma hora depois voltar, munido dos artefactos que iriam suster a sua tese. Desde esse dia, ou melhor, desse dia mais cinco, aquele dia sinistro de dois de Agosto de dois mil e vinte e dois, que a Oma cumpriu a sua palavra. Ou melhor, as suas - suas - dela. A velhota tem-se aguentado. E bem. E bem, porque é ainda muito precisa. Precisa e preciosa, fonte de Vida onde ainda hoje vou beber. Não é fácil às vezes, e é desafiante, mas é a OMA. 

E aqui estes dois dias, ou melhor, estas duas noites, aproveitei para "canibalizar" algumas fotografias de casa dela. E ao recordar esses tempos ancestrais, voei no tempo, e recordei tempis (in)temporais,  tão alegres, tão divertidos e foi então que, de reoente, reparei que...

...desde o seu ano e meio de Vida, que os seus olhos estavam postos no Céu. 

Como se num prenúncio, numa expressão de um reconhecimento feliz de quem está, ou esteve, "aqui" apenas emprestado, porque os Anjos têm de retornar ao Céu.

Meu Filho querido, o meu coração transborda de gratidão e de Amor por si. Por me ter ajudado a reerguer da morte, para poder acompanhar os Vivos que adoro, os meus Seres Terrenos, todos eles, tantos e todos eles que precisam (e chamam) por mim!

Parte de mim será para sempre Céu. Estou aí, consigo, num Abraço universal, num (re)encontro constante de Mãe e Filho, um reencontro que jamais será interrompido, porque enquanto vocè "aí" e eu "aqui", a ponte do Amor universal une as nossas margens, transbordantes de Alegria e Gratidão por cada uma destas nossas tertúlias!  

Nunca sonhei que o Amor me faria, neste Dezembro, planear presentes, fazer Dianas, trabalhar, aprender a (sobre)viver à morte da dor do Luto por um Filho. Nunca pensei que seria possível. 

Hoje, no metro atulhado de gente, com a mochila às costas, um saco de compras num ombro, no outro a carteira e o casaco, morta de cansaço, uma catraia começou aos gritos comigo porque eu queria passar para sair na estação seguinte. Parei, olhei para ela e sorri longamente enquanto lhe disse:

- "Oh, desculpe, mas como vê, sou quase uma avó e estou carregada de tralha". 

Uma onda de Amor invadiu-me de imediato, perante os primeiros sinais instintivos que saltaram, e que me fizeram pensar por nanossegundos:

- Oh minha miúda malcriada e estúpida, que estás a tapar a porta, então tu não vês que eu, que mais pareço uma morta de cansaço físico, carrego um fardo visível tão pesado, e mal sabes tu do outro, e tu pões-te com esses disparates agressivos?"

O Amor sobrepôs-se de tal forma, que perdi o Marquês de Pombal, e quando acordei do transe em que me encontrava, estava na Avenida. Percebi o que você me quis dizer, ainda hesitei, mas doíam-me tanto os braços, e os fios ainda estão bons, que ficam para a próxima vez que vier a Lisboa!

De olhos postos no Céu, estamos quase no Natal meu Filho.

E você está comigo. Sempre!

Um beijo enorme da sua Mãe que o adora, 

Mami

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

4.12.2023 - One Day plus 123 - Nómadas na Era digital, Nómadas no Espaço Astral!

 




Meu adorado Martim,

Estes últimos dias têm sido duros. Muito duros. O primeiro Advento trouxe-me muitas recordações. Inúmeras. Doces, suaves, e conquanto melancólicas, verdadeiras carícias traduzidas em reminiscências de uma Alma velha. Quantas vidas se vive numa Vida? Quantas vezes temos de nos reinventar? Bom, alguns, nenhuma, outros, não há números suficientes para contabilizar. Os meus pensamentos vagueiam, nesta nova, mais uma de infinitas, conversa que estou a ter consigo. 

E hoje não me apetece ir por partes. Quero deixar o lado germânico dormir em paz com a sua querida necessidade de organizar tudo, e dar asas à minha costela Tuga, onde simplesmente deixo as palavras fluír.

Está um frio de rachar. E isto não é um início de nenhum episódio - por acaso vou-me perder aqui num pequeno Delta da conversa  mais adiante - é um ""under"-"statement"". Isto é a verdade pura e crua. Está frio, e a melhor hora do dia, é quando desligo do trabalho e acendemos o lume passado algum tempo. Onde conversamos, e onde, mergulhada na energia púrpura das chamas à medida que crescem e se alongam, num bailado sempre diferente, revejo imagens, recordo conversas, e revivo abraços. E a propósito de frio de rachar, e de nómadas digitais, 

- "(que moderna Mãe, que é que se passa?)"

descobri um site fantástico onde se compra roupa em segunda mão. Nas minhas noites de insónia, entretive-me a deslindar os meandros desta nova forma digital de viver a sua e minha paixão por vasculhar lojas à procura de achados, e descobri que é possível comprar umas botas Timberland - novas - por uma pechincha. Ao mesmo tempo, ajudo a reduzir a minha peugada de carbono (e sim, meus queridos jovens, pode escrever-se "peugada", daí a velha "peúga"), e sinto-me ultra moderna, o que ajuda bastante a contrabalançar os milhares de anos que tenho em cima.

Mas que enorme introdução que fiz para lhe dizer "apenas" isto: os últimos dias têm sido duros. Muito duros. E, em vez de estar na cozinha a preparar o jantar, estou a escrever-lhe. Ou melhor, vim para o Atelier para acabar as Dianas. Mas faltava-me a música. Como estou completamente "ginja", andei meia hora à procura do carregador da coluna. E quando o encontrei, já a nossa conversa ia de tal forma longa, que abri o Spotify e vamos a isto. E, quase sem olhar bem para o som, deparei-me com isto. E é basicamente "isto".

É uma "playlist" sua, que, quando escolhi, nem reparei que o era, decidi-me por ela, porque adoro Thievery Corporation, porque a Saudade é a minha nova grande Amiga, ou sombra, ou seja lá o que for que me assola, que se colou à minha Alma, ao meu coração e ao meu corpo numa simbiose perfeita, gémea siamesa com a qual tenho que aprender a viver. Não há medicina que separe as duas, mas há um remédio para isso: AMOR. 

Não cura, mas mitiga.

E mitigar é partilhar, é não ter vergonha de esconder a dor, é não poupar os outros ao nem nosso sofrimento, nem à nossa tristeza, porque quem nos ama, aguenta tudo isso. Porque pegam nos cacos estilhaçados e tentam colá-los. E conseguem, nem que seja por instantes. E esses instantes, inconstantes como as chamas que dos cães da lareira lambem as paredes de tijolo de burro, numa dança rodopiada de calor, são instantes de Amor, porque de Paz. De apaziguamento. De deixar a mente vaguear, qual nómada no Espaço Astral!

Mil beijos meu filho, da sua Mãe que vagueia perpetuamente entre o aqui da Terra, e o aí da Saudade,

Mami!

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

24.11.2023 - One Day plus 113 - M A R T I M

 




Martim...

...Filho meu,

daqui a poucos minutos bate a hora em que nasceu. Sete e vinte e uma da tarde, meu adorado Filho, meu primeiro sonho de Mãe concretizado, meu Menino, minha Criança, meu Adolescente, meu Jovem Adulto, promessa de um Ser Humano Maior, meu futuro roubado, minha tristeza, minha revolta, minha Esperança, meu Amor universal depositado em cada um e em todos, num uníssono de eterna Gratidão pela bênção que me foi dada, em poder dar ao Mundo, e à Eternidade um Filho de...

...LUZ!...

Meu Filho...faltam-me as palavras, afogadas nas lágrimas, conquanto iluminadas pelo sorriso.

Meu Filho, hoje, mais do que ontem, e sempre menos que amanhã...

Com todo o meu Amor,

Mami

05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...