sábado, 10 de setembro de 2022

10.9.2022 - One Day minus... 38 ("como é Bezerro?")




Tim...meu adorado Tim,

Caramba Filho!

Isto dói tanto, mas tanto, tanto e tanto, que não há palavras. Não existem. É sobretudo quando se instala o silêncio da noite, que o sinto mais. Neste (desas)sossego, nesta calmaria, neste vazio. Lembro-me de si a falar com os seus amigos:

- "Como é Bezerro?"- ou então o célebre:

- "Como é Brother?"

"Have Mercy on me", mas não existe misericórdia. Apenas dor. A que tento transformar em Amor. 

"I'm scared to be lonely, the pain of darkness surrounds me, I see the Light in you."

Ah caramba Tim. Não dá, não é negociável. Não é mesmo. Como é possível que o meu, o MEU Filho mais velho já cá não esteja? Como é possível que essa Alegria, essa ânsia de Vida, essa magnitude de Ser Humano, estejam calados para sempre? 

Como vou continuar sem si? Não sei.

Tim, caramba, isto é demais. É apenas e simplesmente DEMAIS!

Quando estou embrenhada nos dias das tintas, do pó, da lixa e da terra, parece que só está longe. "Só" está longe. Mas depois eu acordo para a cruel realidade de que a sua voz (meramente) ecoa nas minhas memórias, nas minhas entranhas, nas nossas conversas imaginárias, no nosso Universo transcendental, naquele espaço sideral, de onde não quero sair nunca mais, para não "perder" nem mais um bocadinho de si. 

Tim, tenho tantas, mas tantas, tantas saudades! Como é possível Tim?

Eu sei que o Cosmos nos liga, mas o Cosmos está longe para caraças, e nem sempre o conseguimos sentir. Fui à Capela do Espírito Santo hoje e acendi mais uma vela. (E juro que paguei os cinquenta cêntimos!) Sentei-me no degrau do altar e conversámos. Eu gosto sempre de conversar ali consigo. E já percebi, e estou a repetir-me - como diz o Miguel, estou a ficar ginja - que você gosta desse sítio para conversar comigo.

Mas Tim, agora que os dias ficam mais pequeninos, que o sol se põe cada vez mais cedo, eu pergunto-me: como vou sobreviver? Como será possível encontrar a paz no vazio? 

A maior crueldade, é que o Mundo continua a girar. 

E, contudo, eu sinto GRATIDÃO. 

Por tanta coisa. Sobretudo, por ter tido o privilégio de ter sido sua Mãe. E é essa Gratidão, todo esse sentimento transcendente, transbordante e universal, que me liga ao Cosmos. Que me liga a si. Que me envolve, me transporta e acarreta para um momento de Esperança. Quero dar um novo sentido à minha vida, às nossas vidas, gostaria que a minha passagem trouxesse algum sentido, consentido, com sentido, com um propósito, para toda esta tragédia. Ainda não sei qual é, nem qual vai ser. Ainda não sei.

O que sei, é que a sua morte, a sua ausência física, a sua não-tangibilidade, me é uma mágoa de tal modo dolorosa, de tal forma brutal, de tal forma bestialmente dura, que não sei, uma vez mais, por onde entrar no labirinto. 

Filho, não sei. Não sei mesmo. Continuo sem encontrar a porta de entrada!

Ela está lá. 

A Porta. 

Sinto-a, pressinto-a, e com isso, quase que se torna tangível. Mas (ainda) está longe! A Vida continua, no seu continuum temporal. Um perpetuum mobile, sem dó nem piedade, que nos obriga a andar para a frente, sempre em movimento, sem qualquer compaixão para este novo estado!

...Tim...

Sangue do meu sangue, carne da minha carne, crisálida, borboleta, aurélia da minha existência, meu Filho adorado, minha Saudade, meu...

...TIM!...

(Saudades Tim!)

Mami



sexta-feira, 9 de setembro de 2022

9.9.2022 - One Day minus 37 (Descalça)

 



Meu Filho adorado,

Mais um dia que chega quase ao fim. Mais um dia sem si. Mais muitas horas, aliás, "as horas", aquelas Meninas sem quartos, da adivinha que o Mano nos colocou, há tanto tempo que parece uma Eternidade.

"Vinte e quatro Meninas fechadas num quarto, todas têm meias, nenhuma tem sapatos." E, contudo, lá andam elas, Carmelitas descalças com calos nos pés, de se moverem a um ritmo constante, entoando, baixinho, uma prece.

Eu sei o que peço todos os dias, lá isso sei eu. Às vezes é baixinho, outras mais alto, até aos berros, mas deparo-me sempre com a mudez, ou a surdez do Universo. Ou talvez não. Ele (o Universo), tem-me murmurado algumas coisas. Ok, confesso, posso estar - e o mais provável é isso mesmo - em negação; mas o que é facto é que, a cada dia que pego na tinta, no pincel e na lixa, ou decido revolver a terra, projecto uma semente. De quê? Não sei. Provavelmente de Amor. O nosso, tão nosso, que me mantém viva. 

Não há carta que lhe escreva (excepto a sétima :-)!) que não me faça chorar. Mas as lágrimas ajudam. Lavam a mágoa, o sentimento de vida roubada, de injustiça. 

Às vezes tenho medo, pavor, pânico, que o tempo me leve os contornos nítidos das memórias, as partilhas dos momentos plenos de magia, numa erosão injusta, ditada pelo egoísmo da defesa. Quando sinto isso, ponho de lado e entrego para cima. Para o Universo. É também quando lhe escrevo, que o sinto tão próximo. 

Ainda me lembro de quando o senti mexer pela primeira vez na minha barriga. Estava na S&L, depois do almoço, e parecia que uma borboleta tinha nascido dentro de mim. Sentia as asas, tímidas, pequeninas ainda, a esvoaçar por dentro, muito ao de leve. Foi aí que interiorizei que iria ser mãe, em toda a plenitude da palavra. E a Alegria que isso acarreta! Hoje sinto a sua partida bem no centro do meu coração. É um punhal cravado nas minhas entranhas, que mexe e que rasga, que dilacera, arranca, tal qual tenaz invisível, uma das razões de ser da minha existência. 

Como escrevia hoje ao João, que me apresentou o adjectivo pela primeira vez, pertenço a uma nova condição. A da mãe que perdeu um Filho. Mais uma "Desfilhada". 

Só espero, e acredito, Valha-me Deus, que vocês todos foram chamados para fazerem parte de um Universo maior, melhor, e muito, muito mais completo. 

Que a Eternidade, quando me chamar, me leve até lá! 

(Ou até si, porque onde você estiver, eu vou querer estar!)

Adoro-te Filho Lindo!

Mami



quinta-feira, 8 de setembro de 2022

8.9.2022 - One Day minus 36 ( "spicy" Wood)

 


Meu querido Tim,

Hoje vim ao seu encontro um pouco mais cedo: está um pôr-do-sol de cortar a respiração, e fui à garagem buscar mais um "cacalheiro", como diz o senhor Ramiro, para aproveitar para a nova quinta. Acabei dois, um que encontrei por lá, na Quinta do Miguel, e outro que o senhor Ramiro me ofereceu, que era feio como a noite. Daquela madeira horrível, anos setenta, escura como breu, mas que pintada e desgastada, depois com cera, fica linda numa cozinha. Com os frascos das especiarias, claro.

Ainda me lembro de você me ensinar a fazer um Guacamole como deve de ser. 

- "Batedeira?! Mãe, tá doida!? O Guacamole esmigalha-se com um garfo, para ficar um puré, não uma sopa!" 

- "Onde é que pôs a pimenta? E o sal? Não é essa Mãe, pelo amor de Deus, é a de Caiena, mas não a encarnada, é o frasco que tem a mistura das três cores."

Rendi-me à minha ignorância de Pantagruel, ou será de Gargântua? de trazer por casa, e deixei-o ensinar-me.

Mas já me estou a perder de novo, nas memórias, aquelas benditas recordações por onde navego nos últimos trinta e oito dias da minha nova condição. Estamos sempre a aprender - com quem tem a boa-vontade de nos ensinar - e hoje aprendi que existe um novo termo para a nossa condição. Somos "DESFILHADOS", (segundo o José Eduardo Rebelo), e eu gosto da expressão. Aliás, deveria fazer imediatamente parte do Priberam. 

Porque desfilhados é precisamente o que nos sentimos. Como as flores que são desfolhadas, ou seja, despojadas das suas pétalas, também nós somos evictos, mendigos, e de certa forma, procrastinados, porque causamos desconforto, perplexidade e compaixão. O que está profundamente errado, deveria ser: "com paixão". Mas pronto, a César o que é de César, e mais cartas para lhe escrever!

Mas como eu dizia, antes das especiarias me levarem para a meditação que é transformar a madeira, com a Foxie sempre como figurante de terceira classe clandestina, porque mais canídeo de primeira não há, fui pintar. Pus os iPods e deixei-me levar ao som de Bee Gees, "Staying Alive", afinal estou a transformar uma peça "vintage" e tenho que (sobre)viver. Enquanto o pincel afagava de branco o castanho, e das trevas fazia Luz, eu murmurei-lhe uma prece. Uma bênção (de Mãe), um sussurro (de cumplicidade), um murmúrio (de dor), um suspiro (de Paz). Momentânea, efémera, longínqua quimera do meu coração, omnipresente no meu quotidiano esmifrado, sofrido, dilacerado, e ao mesmo tempo grato por ter tido o privilégio de ter sido a sua...

"Mami!"


7.9.2022 - One Day minus...(In)Sanity




 Tim, ("Toi, tu auras des étoiles comme personne n'en a"!)

Mais um dia, mais uma alvorada, mais um ocaso. Mais vinte e quatro horas sem si. Umas suportáveis, outras menos, mas vamos em frente. Era isso que queria, certo? 

Pergunto-me muitas vezes, onde encontrar significado, onde lançar uma âncora de esperança, e não é fácil. Encontro-a nestas nossas cartas, nas perguntas que lhe escrevo, e nas respostas que ouço no âmago do meu coração. Estas nossas cartas...

...ÉPICAS!

Durante o dia estou distraída a lutar contra o bicho, aliás, os "dragões" da madeira: nunca vi buracos tão grandes como aqui; a controlar as obras, a afinar cores, a discutir roços. Mas quando a noite cai, cada vez mais cedo, e o silêncio se instala, é tramado. É nestas horas que ouço a sua voz e me tenho de deparar com o facto de que você é espírito. Ainda não me confrontei (totalmente), (ou se é que alguma vez o farei!) com essa realidade, porque para mim você vive: em mim, por mim, por todos. Sinto que está a dar uma mãozinha desse lado para este, mas é precisamente essa mão (física) que me falta. Não consigo pensar no futuro, porque não vai ser fácil. Sinto uma saudade IMENSA, indescritível e avassaladora, como se de um buraco negro se tratasse, que me engole e me devora. A vida dos outros continua, a nossa é um hiato suspenso na Eternidade.

Tento preparar-me psicologicamente para o que aí vem: os anos do Mano, os meus, os seus, o Natal, e não sei como irei encontrar forças para celebrar (?), ok, adective você, que eu não consigo, para sobreviver a isso tudo. O que sinto é que vivo entre dois planos, aquele em que a Vida continua, e aquele em que o NADA e o TUDO, o pleno e o vazio, coexistem, e eu não pertenço a nenhum deles. Sou uma ponte, apenas e "tão" isso... 

Tim...

Caramba Tim, isto não parece real. Eu acho que me defronto de caras com a sua morte, mas todas as minhas fibras sentem que está vivo, apenas vivendo noutro plano. 

Quão injusta pode ser a Vida? Leio, li e continuarei a ler muito sobre isso, a tentar manter um resquício de sanidade, mas não é fácil. Nada mesmo. Nós criamos defesas, barreiras, cinismos alimentados por uma racionalidade que nos move, mas sabemos que tudo isso são alicerces fracos perante a monstruosidade desta realidade surreal, que nos tira o chão e nos obriga a manter um equilíbrio frágil entre o "aqui" e o "aí".  

"Home" - Dotan, 7 layers... e você sabe do que estou a falar. 

Nunca precisámos de muitas palavras: sempre nos entendemos nos silêncios das nossas reticências, sem hífens e sem interrogações. Como nos compreendemos sempre nas nossas conversas únicas, profundas: as célebres exclamações, que nos obrigavam a trabalhos de casa, a perdões, a entendimento, a tudo o que sempre partilhámos. 

...Tim...

..."WE ARE COMING HOME"

...(e, para citar um eterno cliché: "Home is where your Heart is!")"

Mil beijos,

Mami




segunda-feira, 5 de setembro de 2022

5.9.2022 - One Day minus...Hope?

 



Meu querido Timzota,

Tenho novidades. E são boas. E você vai gostar de as ouvir. 

Muito poucos dias depois da sua morte, quando pela primeira vez consegui acordar do transe em que me encontrava, senti que deveria "reach out". Para onde ou para quem, não era importante, nem o continua a ser: eu sempre soube que a(s) pessoa(s) certas iriam aparecer no meu Caminho, obviamente que aqui colocadas por si. Você conhece-me melhor do que ninguém, e sabe bem que sempre acreditei no Universo. Nós somos os pedreiros que fazem a estrada, e os bailarinos ou as múmias que a trilham - por opção ou a dançar, ou arrastando os passos - mas quem desenha as curvas desse mesmo Caminho é o Universo. E sempre que estamos atentos, ele fala-nos.

Seja através de uma Libelinha que esvoaça sobre nós ao crepúsculo, seja através do som do correr da água, é só aprender a estar atento. Como você também estava. E eu senti que tinha forçosamente que largar, enviar para cima, para se reflectir em baixo. Porquês, Talvez, Ses, enfim, tudo aquilo que por vezes queremos preservar na nossa racionalidade, impedem-nos de sentir a nossa essência, aquele instinto que vive escondido por detrás do umbigo e que nos fala através das entranhas (agora vieram-me à cabeça os livros de Asterix :-)!). E eu senti que a melhor terapia para mim seria falar com outras Mães nas mesmas circunstâncias. Mas não pense que foi fácil, tantas tardes, noites e madrugadas a pesquisar na net, tantas pessoas a quem perguntei. 

Deram-me alguns nomes, umas conheço, outras não, mas eu sentia que não era a Mãe certa! Não me pergunte porquê - até porque continuo à procura de mais mães ou mesmo de um grupo de Mães e Pais - mas eu anotei os nomes que me iam dando e esperei, quieta e sossegada. Comecei por outras pontas, mas nenhuma delas me indicava o princípio, a entrada para este labirinto de emoções por onde vou ter de caminhar, mas que acredito irá ter uma saída, que trará um novo propósito à minha Vida. E como qualquer Minotauro com sorte, e graças a Deus, ao Universo, a Si, e ao Padre João, "essa" Mãe cruzou hoje o meu Caminho. E nessa encruzilhada, nesse cruzar de Vidas, nesse encontro pelo "Amor da Dor", eu dei um passo gigantesco. Eu hoje sinto algo de totalmente diferente depois de falar com essa Mãe. Se essa Mãe soubesse o BEM que me fez, pelo tempo que conversou comigo, e pelo que me disse, e pela gratidão que eu sinto, encontraria um propósito nesse seu Calvário. Porque SALVOU outra Mãe. E só isso é um consolo imenso, quem me dera um dia poder fazer por outra Mãe, o que esta fez por mim!

Eu consegui - até me faltam as palavras - nesta minha dor, encontrar de novo a Paz, o fio condutor que nos unirá para a Eternidade: a Paz do Amor. 

Aquele tormento que nos corrói a Alma e nos impede de tudo, foi-se embora. Não sei se por minutos, se por horas ou por dias, mas também não é importante.  O que sinto neste momento em mim, é leveza. É uma tristeza sem limites: sem fim, sem fronteiras, sem horizontes, mas é uma tristeza pacífica. É o apaziguar do coração. Senti pela primeira vez, desde dia dois de Agosto, que os músculos da face se distenderam. Os ossos relaxaram, as cartilagens soltaram-se, os nervos afrouxaram e a minha expressão suavizou. Tal como o meu coração. 

E por isso foi um dia BOM! 

Quando um Filho nosso sai do Mundo físico, aprendemos a encontrar átomos de Alegria em nanossegundos, mas que chegam para que, nem que seja uma vez, a Paz que se sente cá em baixo, seja espelhada (aí) em cima, e não o contrário!

Certo? 

Boa noite, meu adorado Filho! 

Mami


"Cold wind beneath our wings

Bracing out till we let it in

Don't we all fall

Don't we all fall

Chasing lights of the dying winds

Change will come if we don't begin"


5.9.2022 - One Day minus...Eternity!



Boa noite, meu adorado Tim,

Bom isto hoje promete uma carta sem fim, porque tenho mil coisas para lhe contar. Vamos lá a ver se organizo a minha cabeça, coitadinha, que anda um caos: esqueço-me de tudo, logo eu, com aquela memória de Elefante que tinha, e demoro longos minutos a raciocinar. 

A semana foi intensa: fomos ao cemitério no dia dos anos da Oma: o Pai, o Mano, a Oma e eu, colocar as suas cinzas. Não foi fácil, mas penso que foi importante. Não me apetecia nada, mas deixei lá a sua fotografia e o quadrinho com a sagrada Família, que a Concha e o António fizeram, quando o convidaram para padrinho. Tinha trazido esse quadro para por no seu altar aqui, mas algo me dizia que não estava certo. Levei-o de novo para Lisboa e agora sei que encontrou o lugar onde pertence.

Tudo ainda me parece irreal. Ou seja: a minha parte racional percebe isso, a minha parte emocional, a minha Alma e o meu coração não conseguem conceber (ainda?) esta não-presença física. Sabe, aquele abraço enorme, quente e aconchegante, o seu polegar na minha testa, o seu: "adoro-te Mami", tudo isso me faz falta. O seu cabelo lindo, com o remoinho à frente, onde, desde a sua infância, eu adorava passar os dedos, o seu cheirinho, o som da sua voz, tudo!

Mas voltemos ao relato. 

A missa foi uma beleza, o Padre João não pôde celebrar, mas o Padre João, amigo dele, veio e fez uma homilia linda, que me consolou por momentos. A Aninhas e o João leram a Oração dos Fiéis, que eu escrevi. Também foi a Aninhas quem organizou o coro, outra maravilha. Depois da missa, a sua segunda Família, aquela Trupe ÉPICA de miúdos de coração enorme, convidaram-nos para jantar. 

Tim, foi...nem tenho palavras para descrever como foi. Foi um bálsamo para a Alma e uma alegria para a Oma: quando chegámos, cantaram os parabéns e ofereceram-lhe um ramo lindo de flores. Ela coitadinha, estava sem palavras, entre a tristeza profunda, e a felicidade por sentir que, em cada um daqueles corações, bate um bocadinho do seu. O Pedro e o Filipe ficaram ao lado dela, e foi uma tática genial. Foi um jantar de recordações únicas, de passado, de presente, mas também de promessa de futuro, num hiato de tempo cristalizado no tempo, com memórias de tempos tão felizes! São Miúdos especiais! O Bernardo contou-me a história da pulseira e eu, bom, e eu tive de me esforçar para não desatar num pranto. Recordámos tanta coisa, de Barça, de jantares, de aventuras, foi...ÉPICO! 

Você teve a felicidade de inspirar duas famílias: aquela onde nasceu, e a que escolheu!

A Oma e eu conversámos até às cinco da manhã. Chorámos muito, mas foi como que uma catarse. Estava a precisar disso. No dia seguinte fomos ver o mar com o Dany e a Sofia, e soube-me tão bem aquela imensidão!

Depois regressei. 

Penso que entrei num novo estágio desde o dia dois de Setembro. Não sei bem explicar o que sinto, aliás, nem me consigo articular, tal é a imensidão desta dor, mas é um patamar diferente deste Luto. Muitas coisas me assolam o pensamento, coisas estranhas. Deparo-me com um monte de dúvidas, de incertezas, e, sobretudo, com a constatação impronunciável da sua morte física. Tenho de aceitar esse facto e questiono-me constantemente, nestes últimos dias, como é possível uma pessoa, aliás, "A" pessoa que conheci com a maior Alegria de Vida e ânsia de viver, já não estar neste Mundo que conhecemos. Como é possível? E como é que eu vou aprender a viver com isso? 

Tim...não tenho resposta!

O Zé fez um apanhado com vídeos e fotografias suas. Um filme que retrata a sua Vida de uma forma tão perfeita, mas tão perfeita, que me fez suster a respiração. Já o devo ter visto pelo menos, duzentas e vinte vezes. Com a música dos Dotan, que você me mostrou há um tempo, e que gosto tanto de ouvir. Já a tenho no Spotify. Ah, esquecia-me de lhe dizer, graças ao Pai, recuperámos as suas playlists todinhas. Tão bom! Até o Alexa Mood está cá!!! Não posso deixar de sorrir quando a ouço, sete minutos a recordar uma das nossas últimas conversas, e a imaginar outras tantas ;-)!

Tim...

...depois há o Legado, aquele espólio tramado, ensinamento herdado de si, que tem um peso tremendo, conquanto de uma leveza indescritível, aquela que se chama: AMOR! Acho que não existe um substantivo tão abrangente como o "AMOR". Ok, talvez haja um: VIDA. Mas o AMOR é maior, porque não se pode viver sem amor. É o Amor que cria e que sustenta a Vida, mesmo depois da morte. A morte é mortal perante a Vida, porque enquanto houver Amor, a Vida é IMORTAL!

Entretanto tentemos voltar ao racional: já marquei a psicóloga. Mal não faz, e talvez ajude a aprender como aceitar, com humildade e sobretudo com resignação, este desígnio. Como mulher de letras, não posso deixar de me surpreender perante uma característica comum aos idiomas que conheço. Já reparou que há um adjectivo para:

- Uma pessoa que tem de fazer o luto do seu marido ou da sua mulher? 

- "Viúvo".

- Uma pessoa que faz o luto dos pais?

- "Órfão".

- Então e quem é obrigado a sofrer o luto de um Filho ou de um Irmão? Nós somos o quê? Definimo-nos como? 

Como Sobreviventes de uma dor sem fim, que nos leva ao limiar da sanidade mental, obrigando-nos a um esforço sobre-humano para nos aguentarmos e nos redefinirmos perante o nihil? É isso? E como é que nos recriamos a partir do vazio? 

Só vejo uma forma: através do AMOR!

"MAIS AMOR POR FAVOR?"

Sempre! 

Adoro-te Filho LINDO!

Mami

P.S. Já tinha carregado no "publicar" (ou enviar para o Céu) esta carta, quando percebi que era a...

7! 

(em número, de propósito) :-)



quinta-feira, 1 de setembro de 2022

01.9.2022 - One Day minus 30..."AIN'T NOBODY!"

 




Meu adorado Filho,

Após a agonia que foi o dia de ontem, hoje foi um dia "feliz!".

Ontem o Pai e eu fomos desfazer o seu quarto, e arrumar as suas coisas. Aquele espaço tão querido e tão aprumado, que cheirava a si em cada centímetro quadrado. Tudo tão arranjado, onde cada peça de roupa, cada objecto, possui uma história, um antes, um durante e um depois. 

Foi um martírio. Foi como se você continuasse fisicamente cá. Foi uma dor incontrolável, incontornável e inultrapassável.

Mas conseguimos! 

Trouxe três casacos seus, alguns livros, e pouco mais. (Os ténis cinzentos ficam para outra conversa nossa)! Lavei a sua roupa de cama, mas o cheirinho que sai dos seus casacos, que pendurei no cabide cá de casa, o do primeiro andar, perdura, e é como se você cá continuasse, apenas se ausentando numa viagem. 

Foi com espanto e felicidade, que constatei a sua espiritualidade. Trouxe aquele seu livrinho do Evangelho, cujas passagens você me leu no Natal de dois mil e vinte um, quando a tristeza assolava esse seu coração imenso. Lembro-me dessa nossa conversa, como se a tivesse tido há poucos minutos. E o meu peito aperta-se e falta-me a respiração, nesta saudade imensa, neste vazio que você deixou e penso que poderia ter dito mais coisas, e ajudado esse seu enorme coração de uma forma muito mais eficaz. Mas não o fiz, porque tomamos a felicidade como garantida, até ela nos faltar.

Ainda me custa a acreditar, ou, por outro lado, começo a realizar que a sua não presença é, enquanto corpos físicos, algo que veio para durar. E o meu corpo físico chora-o com todas as fibras, com todos os átomos de que sou feita, com uma saudade que não tem dimensão, porque é eterna, ilimitada. e profundamente cruel.

E, contudo, o meu espírito sente-o. É um paradoxo incompreensível, indescritível e inexplicável. Não está fisicamente e tenho de (sobre)viver com e a isso, mas está. Eu sinto-o em mim, ao meu lado, à minha volta, num TODO e num TUDO, num turbilhão de emoções. Não é fácil largarmos, mas temos de o fazer, para que você tenha Paz. E nós também! Somos corpos Astrais e eu sinto o seu. Tenho lido sobre isso e há muita coisa que, cada vez mais, faz sentido. A minha maior preocupação é que você tenha subido, e esteja bem, e - sobretudo - em Paz. Eu penso que sim, e por isso mesmo, tento que a minha saudade seja o mais normal possível, se é que se pode falar de normalidade nesta dimensão de desgosto.

Hoje dancei a olhar para o céu. Senti-o tão próximo, caramba, como se fosse uma noite normal, como todas as noites dos últimos vinte e seis anos, oito meses e uns dias. Algumas melhores, outras menos boas, mas normais. 

Como se esta tragédia não tivesse acontecido. 

Mas ela é real. 

E eu tenho de encontrar uma forma de a entender. 

É complicado, e muito difícil de verbalizar. A miríade de sentimentos que me assola não tem descrição. Mas dediquei-lhe esta noite, a primeira em que consegui umas horas de verdadeira "normalidade". É muito estranho, e uma vez mais me repito, dificílimo de explicar: a ausência física é de uma atrocidade indescritível, mas ao mesmo tempo, percebemos que a Vida continua, num dia-a-dia que se vai construindo, de uma forma inexplicável, e você está "cá" a acompanhar essa construção.

A Vida terrena, sem as nossas partilhas, é estranha, bizarra e inaceitável. A Vida espiritual, com as nossas partilhas, começa a tornar-se uma realidade (ir?)real, (su?)real e (a?)normal. É uma questão de mudança de plano, primeiro estranha-se, depois entranha-se, literalmente falando, e nas minhas entranhas, você continua vivo, apenas de uma forma menos tangível. Mas não menos omnipresente.

Filho meu, meu Filho...não tenho palavras.

O Céu (não) pode esperar, e na sua impaciência, chama os Eleitos. E deixa-nos sem chão.

"The Space In-Between", mais uma música de uma playlist sua, que o Pai conseguiu salvar, e que ouço agora, enquanto lhe escrevo. É isso mesmo, um lugar espacial, sideral, astral, uma porta (entre)aberta, que separa os nossos dois Mundos. Dois? Hmmmm...não sei se chega. 

Eu diria que são muitos e, contudo, nenhum, porque não há Mundo que nos separe.

"If you leave me now (...)"...

Mami


05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...