Querido António,
Querido António,
Martim, meu adorado Filho,
Nem sei por onde começar. Em primeiro lugar quero pedir-lhe desculpa, por ainda não ter transcrito as nossas últimas conversas. Mas também foram tantas, mas tantas, que não teria humanamente tempo para relatar o que se passa no plano divino. Ou semi-divino, porque se me envolve, não pode ser apenas Céu.
Filho, nem sei como o descrever, porque o(s) plano(s) que movimentamos, e nos planos em nos nos movimentamos, são uma espiral que nos leva ao âmago, a um lugar em que somos forçados, e acabamos por aceitar, a compreender que nada depende de nós. Vou-lhe contar um segredo, que lhe peço guare só para si: este último ano e mais uns meses espremidos à saudade do tempo, ensinou-me mais, do que a muitas pessoas reincarnadas em muitas vidas. Eu sou milenar: na minha saudade, na minha tristeza, na minha agonia. Sou a Mãe das Mães, porque esta dor que nos dilacera as entranhas, é a mãe de todas as dores. Não existe dor maior. Mas, é precisamente nesta dor Maior que nos temos que reinventar, numa herança que se perde na bruma dos tempos. E o estranho, é que quando estou "comigo" e me visualizo, o meu rosto traduz as linhas de tempos felizes. Mas quando me olho ao espelho, vejo uma anciã, onde as lágrimas lavraram sulcos tão profundos, quanto indeléveis, tatuados a ferro e fogo na minha Alma. E, contudo, esta Alma sobrevive.
Quem sabe, porque fui capaz de dar à Luz um Anjo. Tanto quando o trouxe para o plano terreno, como quando o entreguei ao divino. Fui dor duas vezes, uma no corpo, outra na Alma.
E cá estou. E o trabalho, e as idas a Lisboa, e os quilómetros que faço aos encontrões, no meio de um ruído, burburinho gritante e incomodante, que a maioria dos Lisboetas, os verdadeiros e os da periferia, já nem sentem, porque pertence ao seu quotidiano, mas que a nós, gente do campo, causa comichão na cabeça. E o tempo corre, corre, corre, na espiral que nos suga, e eu não me consigo virar entre falar quatro línguas ao mesmo tempo, conviver com dezenas - senão mais - pessoas, e o silêncio do meu campo, e as Dianas, e os animais, e tudo o que aqui me prende.
E tudo o resto que você sabe tão bem, porque me acompanha, e sabe as lutas que tenho travado, na procura incessante de tudo o que considero justo e correcto, debaixo de uma saudade, ainda nem aflorada, do seu avô, da Foxie, e de uma vida que nem parece que foi minha. Entendo agora o que sentem os velhos, um olhar para uma sucessão de dias que é tão longa, tão única, tão cheia de recordações, que mais parece um livro, do que um aglomerado de vivências reais, puzzle delicadamente montado numa pessoa, que ora se desfaz, ora se completa, numa paciência infinita!
E nestas paciências, sobrevivemos. Trazemos connosco, num bolso debruado e mal alinhavado no nosso coração, os que estão no Céu. E no outro lado, noutro bolso, cosido com as linhas do Amor, levamos os outros. Os Terrenos. Os que nos obrigam a criar raízes.
E neste pairar, nesta vida (terrenamente divina? ou divinamente terrena?), existimos. E lutamos. E somos.
E ouvimos...
...a Coruja. Que voltou. De uma forma diferente, mas voltou, a um Outono mais sábio, mais, muito mais dorido, muito mais dilacerado, mas também muito mais empoderado. A sua bisavó Loures costumava dizer:
- "Si jeunesse savait, si veillesse pouvait" e é tão, mas tão verdade.
Mas eu posso, porque me basta semicerrar os olhos, erguer a cabeça para o Céu e acreditar. E nessa crença inabalável que sempre tive, nascem-me as Asas. E sou Céu. E sei voar.
E voamos, Pássaros Alados nas asas do Amor!
Mil beijos meu Filho, da sua Mãe que o adora,
Mami!
Meu adorado Filho,
Como prometido, aqui estou, de novo, num Domingo não chuvoso, mas torrencial, literalmente "The Day After" à mudança da hora, aquela irracionalidade, cuja lógica a minha simples cabeça nunca conseguiu entender. O argumento das crianças de manhã no caminho para a escola já deveria estar em desuso, porque só um maluco deixaria os seus filhos à solta no trânsito caótico de cidades como Lisboa! Portanto, se queremos economizar, então porque não prolongar a luminosidade ao (e escrevo "ao" e não "do" propositadamente) dia, para que as luzes se tenham que acender mais tarde? Juro que não abarco a ideia por detrás, muito embora acredite - piamente - que quando aflorar esse tópico com o seu Irmão, ele me vá dar uma teoria tão complexa, provavelmente ainda oriunda no "Bing Bang", de tal forma intrincada na dificuldade de compreensão da Física Quântica, que o que fará "big-bang" é a minha cabeça, completamente em uníssono com essa bela Onomatopeia da língua inglesa!
Agora começam os meses do ano em que o campo não é para fracos. Costumo dizer, desde que para aqui vim viver, que nesta parte de Portugal, temos nove meses de paraíso, e três de Inferno. Novembro e Dezembro são facto consumado, depois os corações oscilam entre Janeiro e Agosto. Ora como "Janeiro fora, cresce uma hora", e Agosto seja, por si só, um mês infernal na minha vida, eu defendo a teoria de que são Novembro, Dezembro e Agosto. Em Janeiro ainda está muito frio, mas os dias começam a ficar de novo maiores, primeiro lentamente, depois acelera, e em Fevereiro começa a sentir-se no ar a promessa da Primavera. Mas sentir o frio é algo de delicioso, porque damos vinte vezes mais valor ao quentinho da lareira, às camadas de camisolas que temos que vestir, verdadeiras cebolas saloias e ao ar que exalamos, num nevoeiro que se mistura na paisagem das conversas enquanto caminhamos.
E é neste dia vinte nove de Outubro, que ouço Parcels, enquanto navego entre a costura e a escrita. As duas são cada vez mais indissociáveis, porque uma é tão relaxante, que num chapinhar calmo e introspectivo leva à outra, e dou por mim a falar consigo, enquanto coso uma baleia de tecido de corações e de bolinhas. É então que decido saltar para o computador, e escrever aquilo que o meu coração verbaliza. São tão bons estes nossos momentos, estamos tão juntos nestas conversas, que me sinto consolada, como que abraçada pelo Universo, num colo carinhoso e tranquilizador. Nestes momentos sou Cosmos, e neste Cosmos, somos Unos. É mesmo, mesmo, mesmo como se você estivesse aqui, apenas não fisicamente. Está de uma forma muito mais completa, porque me envolve, e é este seu Espírito que me traz a força e a vontade de continuar. Porque eu SEI que você está aqui, em cada átomo de mim, seja nas recordações de ínfimos pormenores, celebrados noutra Vida, seja no presente do meu aqui e agora, em que ouço a sua voz em mim, como se estivesse, de novo, fisicamente presente. Tenho aprendido tanto Martim, taaanto! É como se o saber universal me inundasse, por breves segundos, é algo de muito difícil de (d)escrever.
A realidade brutal da morte de um filho, só ao fim de muitos meses é que começa a querer entrar, quando o nosso cérebro já se conseguiu refazer minimamente do choque inicial. Para mim isto é inegável! Inegável! É absolutamente necessário conseguir abarcar e "abraçar" essa ideia. E porque é que escrevo "abraçar"? Porque acima de tudo, é aceitar essa ideia sem revolta. E, obviamente, sem a "Dança dos SES", que não nos leva a absolutamente lado nenhum, e nos mantém presos, num limbo infernal, que nos consome as entranhas, acabando por nos matar.
Aceitar é saber o que significa literalmente a palavra "Saudade". É decorar que continuamos a viver nas recordações revisitadas, é somar as lembranças dos momentos felizes, e multiplicá-las por enquanto formos vivos. E assim, passo a passo, hora a hora, e às vezes, minuto a minuto, vamos aprendendo a caminhar. Os pés já doem menos, porque felizmente já ligeiramente calejados, e quando olhamos para trás, e vemos o que conseguimos até agora, ficamos espantados com a força que temos. Bom, eu tenho ainda mais sorte, porque quando olho para trás, e também para a frente, e claro que o mesmo acontece para os lados, eu vejo-o a si. E portanto, sei que não caminho só. Caminho consigo, e consigo, nesse consentimento da sua presença espiritual, dar mais umas grandes passadas. E assim sigo.
E no seguimento deste (pros)seguir, amanhã lá vou eu no "Comboio dos Operários" para Lisboa. E desta vez vou mesmo à campónia, de saco reciclável de supermercado cheio de pimentos, ovos, tangerinas e azeitonas, mais um frasco de Chutney de figo que está de gritos, porque o "temperei" com rodelas do nosso limoeiro, daqueles limões que cheiram a farinha Maizena de tão bons que são, e que apetece trincar, porque o perfume a bolacha Maria é de levar uma pessoa às lágrimas. Ficou um Chutney estranhamente ácido, porque o doce do figo, na fusão com o ácido do limão, e a surpresa do picante aromático das especiarias brilha duplamente, e esta fusão deliciosa está de tal modo desconcertante, que baralha completamente as papilas gustativas, deixando-as às cambalhotas no palato. Então se o juntarmos em cima de uma tosta tapada com uma fatia de queijo queimoso...bom, então Filho, então é o céu. Com minúscula, claro, mas não o deixa de o ser.
E amanhã começa uma nova semana, de um fim de semana semelhante ao dilúvio, como já lhe disse, mas também de mais um passo para a normalidade. E foi um fim-de-semana divertido, em que fizemos uma "soirée" não dançante, mas "jogante", onde nos reunimos de novo, os duros do costume, para um serão de póquer. Finalmente tenho uma mulher parceira de jogo, o que me encanta, pois deixei de ser a única representante das copas e dos outros femininos, e ganhei uma companheira destemida para enfrentar os paus e as espadas dos adversários. Jogar póquer no campo, enquanto mulher, não é algo muito comum. Por isso estou contente por agora sermos duas! São sempre noites divertidas, de tertúlia e de amena cavaqueira, sentados à lareira na época do frio.
É a simplicidade da vida revisitada.
Um beijo gigante aqui do campo,
da sua Mãe que o adora,
Mami!
Meu adorado Martim,
Ahhhhhhh...! O meu suspiro fez eco nos seus ouvidos, desculpe, veio mesmo do âmago. É um suspiro polvilhado de um sorriso cúmplice, daquele que desenho em algumas Dianas, mas só em algumas. As mais "especiais", porque irreverentes!
Os dias têm sido bons, porque a Força reside no Amor, e no Amor, naquele sentimento que barreira a frieza gelada da cabeça, tudo de bom acontece.
E nesta curtíssima missiva, que daria pano para mangas, eu prometo-lhe uma longa carta, onde você vai (sor)rir, com os cantos da boca a fazer "pendant" com as bochechas, naquela minúscula conchinha que elas fazem quando você se ri com a Alma!
A Força reside no centro de nós, e é como uma fonte inesgotável. Por vezes perdemos o copo, e queremos sucumbir à sede, mas na maior parte delas, algum artesão nos faz um púcaro de barro, vindo do Céu, com o qual nos podemos refrescar, ávidos, sôfregos, e com isso, insuflar aquele sopro de vida que nos fazia falta. Ficamos fortíssimos, imbatíveis, e nessa coragem, revivemos o que fomos, e que continuamos a ser!
Apanhei azeitonas, que temperei com alho, orégãos, sal e água da Fonte dos Amores. As oliveiras rebentam de frutos, gratidão do campo, por um Verão tórrido seguido de um outono abençoado de chuva.
Estamos bem meu Filho querido. Estamos fortes. Estamos "empoderados"!
Estamos...
Um beijo enorme da sua Mãe que o adora,
Mami
Meu adorado Filho,
Pelas razões que ambos conhecemos, não me vou alongar. As nossas conversas dos últimos três ou quatro dias, dizem tudo, nesse nosso silêncio mudo, ensurdecido pela Saudade, mas no qual falamos até nos faltar a voz! E nesse TUDO, encontro-me perante o NADA.
Nada? Estou a ser injusta. O NADA foram vários (a)braços abertos, escancarados, todos para mim, numa Alegria de quem me (re)encontra, e também me (re)lê - hoje e sempre - Sobrevivente. Força que só você me poderia dar, numa generosidade imensurável, tal como o desgosto que me assola, a todo o instante destes meus infindáveis dias, num lento escorrer de um ontem que jamais será amanhã, presente tão doloroso, conquanto (sobre)vivido, num futuro de um verbo em cujo indicativo se adivinha a (in)certeza, mas cuja resposta não tem importância, face ao presente - dádiva - de uma presença constante, num tempo verbal que se pretende que seja escrito num gerúndio mal parido!
MEU FILHO...
...Filho Meu...
...Não é para todos, e você e eu sempre encerrámos no nosso âmago essa chama de crença, essa Fé em nós, esse acordar para um Amanhã que sempre foi promessa, arrancada a ferro e fogo ao nosso centro, dilacerando os nossos corações, o seu e o o meu, incessantemente! E nessa incansável luta, nós VIVEMOS! FOMOS! Fomos o TUDO, e no Tudo mergulhámos, numa combustão que só nós dois conseguimos entender, nesse fogo (fátuo) que nos queima as entranhas!
Lembro-me de uma das nossas últimas conversas..."Tiny Dancer in my Hand"...
Ler dá trabalho - imenso - requer um esforço que poucos estão dispostos a despender, vulgo "dispenser", como se de um sabonete líquido se tratasse, "à venda num qualquer "Walmart" perto de si"! E nessa Leitura de sinais que me acompanham, numa Luz de Esperança (Esperança? Ou será Fé, Crença, Gratidão?) eu tento; tento o Tanto, o Tudo, o Nada, porque quem foi o Todo, numa Tríade perfeita, é hoje, a dualidade decalcada na individualidade da solidão, palavra tatuada a ferro e fogo na minha Alma.
Filho...fica aqui um segredo, daqueles só nossos.
Fui no "Comboio dos Operários" (como se diz aqui, no campo), o das sete e vinte e um, o que implica ser arrancada aos braços do sono, e do sonho, às cinco e meia da manhã, numa madrugada gélida, de chuva incessante e sem misericórdia, típica das "molha-parvas". Mea Culpa!
Fui, pela segunda vez. E vim. E cá estou. E estou "aqui" e "aí". Estou sempre a pairar, e é uma sensação única. Pairar é ser capaz de voar nas asas da tristeza, na supremacia dos Intocáveis, porque (já nada mais) têm a perder, "and I guess that's why they call it the Blues", num cinzento plúmbeo, diria eu, naquela (minha) solidão recôndita, escondida e resguardada, num centro de uma Alma que transpira SAUDADE, escudada por fronteira emoldurada a ferro, força fundida no vórtice do dois corações que um dia foram um só!
"It's Overnight"...quantas vezes dançámos ao som deste som? Ritmo suado, arrancado a uma quarentena, as melhores semanas da minha Vida, num decorrer de um tempo incessantemente desfrutado, que foi vivido há mil anos?
Ah Martim! É isso mesmo:
"Go back, I want so bad to hold you back. It's all I've said and done. Fall in, be gone. I will stand, as I've won again. The reason for no more. Overnight. (...) The moment I was wishing, it's Overnight"
Mil beijos meus Filho, da sua Mãe que o adora,
Mami!
Meu adorado Martim,
Acabei de regressar de Lisboa. Foram dois dias muito intensos, mas de uma intensidade boa. Uma intensidade que me fez sentir viva, numa comunhão imensa consigo, mas vamos por partes. Finalmente realizei dois sonhos, e sinto que a minha vida está no caminho do Caminho, num troço muito muito íngreme, mas tenho conseguido tratar das bolhas que se vão formando e doendo, sem as deixar infectar. E assim, passo a passo, uns dias com mais dores, outros com menos, vou trilhando esta nova jornada.
Prometi-nos, quando afaguei o seu cabelo lindo e suave pela última vez, que a sua morte não seria sem significado. E dar significado à morte não é querermos morrer. É querermos ficar vivos para todos os dias recordarmos, e nessa recordação daqueles que mais amamos, mantê-los vivos no nosso coração, ((Escrevo propositadamente "mantê-los" e não "manter-vos") :-) e Você, meu querido Filho, sabe o que quero dizer!)) e só existe uma forma de o fazer, como advogo todos os dias, desde o dia dois de Agosto de dois mil e vinte e dois, que é através do AMOR. Abrir o coração ao Universo é a única forma de mitigar a dor - porque um luto de Mãe nunca sara - e assim honrar a Vida de quem cumpriu o seu papel aqui neste plano, tendo sido chamado para o outro.
A minha ligação com o Universo é cada vez maior, e o meu desprendimento das coisas terrenas diminui consideravelmente, à medida que essa ligação se fortifica. Não é fácil conviver com esta espiritualidade, pois o plano terreno, tal qual magneto invisível, prende-nos, como que querendo impedir que subamos um simples degrau neste desenvolvimento espiritual, mas consegue-se. Com trabalho, com muito trabalho interior, consegue-se. Implica também muita coragem, pois obriga-nos a confrontar os nossos maiores receios, fantasmas empoeirados que teimam em se esconder no armário. Tenho sacudido tanto, mas tanto pó, que mete impressão. Mas ando a limpar a casa e com isso, perdi o medo das aranhas. Enfrentar os medos e os terrores amedronta como o raio. Sobretudo o medo da perda. Mas se fazemos parte do Cosmos, significa que o Cosmos não nos pertence, logo, "perder" não me parece a palavra correcta, porque se nós fazemos parte de algo, então não podemos perder nada! Porque SOMOS! Mas já lhe volto a explicar isto.
Voltando à minha narrativa dos últimos dias, consegui realizar dois "sonhos" de longa data. Inscrevi-me num curso de costura como deve de ser, e fiz umas calças boca de sino, padrão floral em tons pastel, à "la sixties", mesmo "vintage", de "lycra". Suei as estopinhas, parecia que estava a coser uma cobra, mas elas lá nasceram. Senti uma satisfação imensa, e é algo que sei que irei continuar a explorar. Um dia inteiro assim de novos desafios na costura é como uma semana de terapia e de meditação: ficamos estoirados, mas felizes. Porque a "lycra" é um tecido escorregadio, que requer precisão, e não perdoa erros facilmente. A nossa concentração é só nela: basta um simples pensamento fora, e estamos tramados. E isso "limpa" a cabeça, sossega a "monkey Mind", provocando uma sensação de tranquilidade e de Paz. Claro que Você me guiou as mãos, não posso ter sido eu, pois mais uma vez tratei a máquina de costura por tu: nunca tinha mexido numa máquina de corte-e-cose, mas é de facto, um sonho tornado realidade, é como se mudássemos de uma trotineta para um Ferrari.
Ao fim de dez minutos conseguia manuseá-la??? Não fui eu...ou não foi o meu eu físico, foi o meu eu cósmico, fundido com os antepassados das suas avós, consigo, com o Universo.
O segundo acontecimento foi um Encontro de Alma Sistémica, facilitado pela Paula Ponce Alvares. Você sabe que há décadas que eu queria constelar, sem nunca ter dado esse passo. Pois bem, a tia Paula, que tem tido um papel fortíssimo na minha vida no último ano, trouxe-me a Paula Ponce Alvares; parecendo um propósito por acaso, decidi que era muito mais que isso, quando a Paula "me entra", quase em simultâneo na vida, através da Herdade do Pouchão, que veio através da tia Nicole, e com isso surge três vezes, no espaço de um mês, vinda de ângulos totalmente diferentes. Não poderia ignorar esta mensagem do Universo, ainda para mais em tríade. E lá fui. E foi espetacular. E devo dizer que senti o poder que emana das suas entranhas, quando a mão dela, suavemente pousada nas minhas costas, me pôs o coração a ferver, num calor incrível e imensamente confortável, num "Reiki" perfeito, porque totalmente dádiva de Amor. Foi como se alguém pegasse literalmente no meu coração e o consolasse de uma forma divina, fortíssima, envolvendo-me num bem-estar imenso. Eu queria uma consulta sozinha com ela, queria aquele colo cósmico que ela possui, e que se sente à distância, só para mim, mas aprendi, a muito custo, que tenho de ser grata pelo que o Universo me dá. Foi também um desafio poder observar a forma como obtém as mensagens do Universo, tal qual as poucas oportunidades que eu tive, quando me apaixonei pela Astrologia, algo que você gozava tanto, mas depois me perguntava sobre as suas namoradas!
Constelar foi muito bom, e ajudou-me a perceber que eu, sendo uma (quase) leiga, estou mesmo ligada ao Universo. Percebi também que a sua morte, ou a sua passagem para o novo plano, me veio possibilitar um aprofundar incrível de toda essa ligação. O meu "eu" passou a ser muito mais coração e muito menos cabeça. Claro que a cabeça, quando se revolta, faz motins cada vez mais tumultuosos, pois tem sido relegada para segundo plano, mas o meu coração, através desse Amor, tem crescido muito. E nesse crescimento, eu percebo que sou espírito, e que sou Amor, e que SOU.
A minha viagem tem sido dura. Muito muito dura. Chorei mais neste último ano do que em todos os outros da minha vida, todos juntos, multiplicados por vinte, o que já indica uma vetusta idade! Imensuravelmente mais. Mas também aprendi muito sobre mim. Hoje posso dizer que gosto da pessoa em que me tornei. Tenho o coração dilacerado pela dor da saudade, mas estou muito mais sábia. A sua bisavó - ainda no exercício de continuar a constelar - e também ela sofreu imensuravelmente na vida, dizia que o sofrimento enobrece. Entendo hoje a plenitude dessa afirmação. Temos duas escolhas: a morte em vida, ou o abraço de uma vida (com)sentida. Com "M", mas também consentida. E esse consentimento veio através de si. Do milagre do privilégio de ter podido ser sua Mãe. E o sentimento que veio com a sua morte, é passível de paz. A paz alcança-se através do Amor. E se hoje não tenho medo nenhum da morte, é porque você, meu Filho, minha Luz, foi à minha frente, para me iluminar o Caminho, quando chegar a minha hora. E irei com a maior das Alegrias, porque o vou reencontrar. Mas tenho ainda muito para fazer aqui neste plano, muito trabalho, muito Amor para dar ao seu irmão, e um dia aos filhos dele, muitas Mães para estreitar contra o meu peito, e um livro para escrever.
E volto à nossa última conversa, lembra-se do que lhe disse?
- "A morte perde o seu significado perante o Amor. Porque o Amor, ao ser Vida, vence a morte. E estamos, e continuamos, e acima de tudo, SOMOS. Somos UNOS, você e eu e o Universo que nos envolve."
Um beijo repleto de gratidão meu adorado Filho, e um sorriso rasgado, deste plano para esse!
Com gratidão imensa, e todo o meu Amor Universal,
Mami
P.S. Dia 23 regresso ao Trabalho, por minha iniciativa. (Estou borrada de medo)!
Meu adorado Filho, Há muito que aqui não lhe escrevo, porque lhe escrevo todos os dias dentro do meu coração, mas tá,be, porque tenho escr...