domingo, 2 de outubro de 2022

2.10.2022 - One Day minus 61! (Mais Amor por Favor :-)!)

 




Boa noite, Bicho do meu coração, meu Tim, meu Filho adorado,

Cheguei agora a casa, depois de um dia...

...ÉPICO! 

(E leia-se Épico mais do que em maiúsculas: aos berros, de sorriso gigantesco, rasgado, honesto, temperado com maresia e polvilhado de sol e de sal)!

Um dia pleno de emoção, de carinho e de amor! Um dia de TUDO e de TODOS! Com TUDO e com TODOS, como só você conseguiria juntar!

Você iria adorar. Iria, não, adorou, pois esteve connosco. Foi um dia de...

...AMOR!

Meu adorado Filho, não tenho palavras. A emoção invade cada um e todos os triliões dos meus poros, e enche-me o coração, a gratidão inunda-me a Alma e, uma vez mais, sinto-me abençoada. Por tudo e por mais alguma coisa. Mas acima de tudo, por ter o privilégio de ser sua Mãe, no presente do indicativo, e juntamente com o Pai, de o ter educado nos princípios que marcaram a sua (breve) e, contudo, tão marcante Vida terrena.

A semente do Amor que você plantou, nos poucos anos em que viveu entre nós, dá frutos, e estes colhem-se todos os dias. E hoje foi um dia de colheita. O António e a Concha organizaram uma missa no Baleal, e um almoço em casa deles. Quando transpus a ombreira da porta, percebi de imediato, porque é que você gostava tanto daquela casa, precisamente porque se respira Amor. Percebo também porque a enorme, gigantesca, grande família dos "Martims" existe. Somos muitos Tim, todos consigo, por si e em si. Porque somos Mosqueteiros, defensores do Amor; a única razão de ser da existência humana, num desiderato breve, mas primordial.

Sorri ao ouvir o Padre dizer na missa, que o Tempo não tem Tempo, aí, onde você está e pensei: 

- "Será que ele leu as nossas cartas?"

Claro que o Tempo não tem tempo, muito menos Espaço, nesta Eternidade, neste nicho (res)guardado, segredo escondido onde nos (re)encontramos, sempre que lhe escrevo! Finalmente alguém entende, ou verbaliza aquilo que sinto, um Espaço (in)temporal, cristalizado num aqui e num agora eternos, ponte entre margens onde nos tocamos, você e eu, hoje e sempre, num quotidiano só nosso, onde o corpo físico se funde no etéreo das Almas, porque nós dois seremos sempre Mãe e Filho, naquela união só nossa, única, umbilical e atávica!

Tim...foi preciso você partir para eu retornar ao mar, mergulhar naquele sal cristalino, nas ondas de água gelada, e com isso, lavar as minhas mágoas, os meus anseios e os meus terrores. Foi preciso você ir-se embora, para que o Amor unisse o (nosso) Mundo, com as "suas" pessoas, como que esses encontros fossem desenhados a tinta-da-china, num traço impreciso, mas gravado na memória de cada um e de todos nós, tatuados na Alma colectiva de todos os que o amam. Dizia-me o Fred hoje, que achava que a Vida tinha melhorado. Não acho, tenho a certeza. Há o seu toque de Anjo em tudo, em todos nós, há um "make it happen" que não vem daqui. Vem daí. É o seu toque mágico, o toque do Amor.

Tim...

...tenho tantas, mas tantas, tantas saudades suas, neste vazio enorme, e conquanto, num pleno infinito tão cheio de Alma, num coração repleto de sementes de Amor, as que você deixou, que não sei bem qual a melhor forma de me articular. Estou inundada de tristeza, de saudade, de mágoa, mas acima de tudo, plena, transbordante de AMOR! Aquele que você partilha, polvilha e semeia entre nós, todos os dias, em cada memória, em cada segundo, em cada gesto, em cada:

- "Credo Mãe, a Mãe não existe!"

Esse Amor inunda-me, transborda, transvasa, e com isso, consola!

Tim...

Dois meses "sem" si no plano físico, e, contudo, cheios de si no plano sideral, etéreo e (e)terno, memórias nossas, suas, minhas, de todos. Você esteve hoje connosco naquela varanda sobre o mar, no casco de sapateira, nos queijos, nos enchidos, na feijoada, no ananás, no melão e nos doces. Era a sua Alma ali, debaixo do Sol, ao sabor da maresia, temperada com o sal do Amor e o açúcar da Existência!

...TIM...

Dois meses...

...dois meses de "Mais Amor por Favor?"

Dois meses de Todos, com Tudo, com Saudade, mas acima de tudo com...

AMOR!

Tim, dois meses que parecem uma vida, de tão dolorosos que têm sido, e ao mesmo tempo, tão plenos de memórias, tão cheios de si, em todos os nanossegundos que os marcaram! Dois meses de agonia, de saudade, e, conquanto, de significado, porque a sua Vida foi plena, transbordante de ânsia, de Amor! Uma Vida cheia, uma herança, um legado, uma ode a tudo o que o Ser Humano pode almejar. Há uma essência de Anjo em si...

Mande uns "pozinhos" disso cá para baixo se faz favor! 

Beijo cheio disso tudo da sua Mãe que o adora!

Mami

P.S. E por favor não diga ao Espírito Santo que:

- "Credo, isto aqui é uma pobreza! Não há talheres de peixe?!"

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

29.9.20229 - One Day minus 57 (Ceviche, Burrata e outras iguarias)

 


Meu adorado Filho,

São quatro e meia da manhã e não consigo dormir. 

As imagens da nossa Vida sucedem-se numa cadência interminável. Tentei rezar, mas não me concentro nas palavras do terço, a minha mente voa para um passado (ainda) tão perto e, contudo, tão distante, para um tempo em que eu era feliz. Hoje senti e sinto de tal forma a sua falta, que nem escrever consigo, parece que tudo se afoga neste mar de dor, de tal forma, que nem as palavras me saem. Há dias assim, dias péssimos, dias em que nos sentimos como que presos num bloco de gelo. Estou a ver a imagem à frente dos olhos: é como se estivesse viva, mas presa num icebergue, rodeada de gelo, a ver o Mundo a passar e a mover-se perante os meus olhos, mas sem me conseguir libertar. Solidão e gelo. E lá fora estão os "Outros". Todos eles.

As pessoas que não passam por uma desgraça destas não conseguem entender a sua magnitude, o que é absolutamente normal, afinal requer uma coragem quase sobre-humana (sobre)vivermos a "isto". E "isto" é um deserto ártico. Não sei como e onde vou buscar forças, mas continuo a minha jornada, tal como lhe prometi. Aos poucos, neste Mundo paralelo que agora faz parte da minha vida, você e eu começamos a viver cada vez mais. Falo constantemente consigo, no meu coração, e sei que cá dentro, bem escondido do Mundo "normal", daquilo que os Humanos percepcionam, existe uma nova dimensão. E é nessa dimensão que gosto de estar. É aí que nos encontramos, que conversamos, que lhe conto o que me vai na Alma, que confesso os meus terrores e as minhas vivências. É também aí que partilho as nossas memórias.

O Miguel está com Covid, e eu presumo que também, muito embora continue a testar negativo, mas sinto um cansaço grande e dores de garganta. Aproveitei estes dias para me dedicar às madeiras. Começa a estar frio, pelo que trabalhar muitas horas a lixar no exterior, não é viável, ainda mais com o corpo dorido. Assim sendo, comecei a pintar e a decorar caixas de madeira. Aprendi uma nova técnica: a "découpage". Dá-me imenso gozo fazer isso, e o resultado fica engraçado. Vou fazer algumas lembranças para oferecer. A vantagem, é que posso trabalhar na mesa da cozinha, e não fazer o estardalhaço de pó e de porcaria que acontece quando lixo peças grandes. Também comecei a pintar letras de madeira. O resultado fica muito giro e decorativo. Passo horas do dia a fazer tudo isto, o que me descontrai, porque se assemelha a uma meditação. 

Amanhã, ou hoje, porque é noite alta, o Miguel vai buscar as galinhas para as por na Quinta nova. Finalmente antevê-se um fim para as obras, faltando agora para mim o pior: a mudança. Quando olho para o que está na garagem e tem de ser organizado, limpo e arrumado, só me apetece vomitar, tal são os nervos que sinto, mas depois penso que, enquanto tiver tarefas destas, estou ocupada e dou uma espécie de sentido prático à minha vida. A minha cabeça continua um caos, esqueço-me de tudo, pareço que tenho Alzheimer. O mais difícil é o tempo que demoro a processar a informação, sobretudo quando me fazem perguntas. Vejo que as pessoas ficam à espera das minhas respostas, mas elas demoram. Para os que me conhecem, deve ser muito assustador. Deve não, é, porque reparo na surpresa do seu olhar quando me questionam sobre isto e aquilo, e eu não me consigo articular com a rapidez que seria "normal". Ainda não falei com outros pais em detalhe sobre esta situação, mas pelo que me apercebi, ela é comum. 

Passaram quase dois meses desde o dia dois de Agosto. Parece uma Eternidade, tal a dimensão da saudade que sinto. Cinquenta e sete dias de agonia. O Verão deu lugar ao Outono, e eu mal me apercebi. Em breve, estaremos no Natal. E antes, serão os seus anos. Nem quero pensar no que vai ser. Prometi que irei fazer o Natal, a Oma também, coitadinha, lá vem ela de arrasto, mas vamos fazê-lo. É bom ser já na nova casa, será certamente menos doloroso, se é que se pode falar em mais ou menos, porque é tudo "pior que péssimo", mas pelo menos, numa casa nova não existem memórias. Talvez eu consiga criar recordações novas, depende. Não serão bem memórias novas, porque a minha vida perdeu um dos seus pilares, mas espero conseguir estabelecer uma vivência quotidiana que me permita seguir, tirando alguma gratidão dos dias. Aquela magia que sempre viveu dentro de mim, aquela gratidão por cada manhã em que abria os olhos, essa morreu com a sua partida deste Mundo físico. Tento não dar lugar ao cansaço, mas há dias em que faço um esforço hercúleo para me levantar da cama e seguir em frente. Entendo perfeitamente porque há pessoas que procuram o sobrenatural, e outras que se fecham num quarto escuro e preferem definhar, porque isto não é fácil. 

Hoje quando fomos aos cães apanhei dúzias de Dióspiros. Estão maduros, tão maduros, que muitos caem da árvore. Aproveitei para pendurar um saco deles na porta da Dona Fernanda e outros tantos no portão do Manel. Quando me sentir com forças para voltar à cozinha, tenho de ver se descubro receitas para fazer com este fruto. Mas isso ainda vai demorar, porque a cozinha sempre foi um ponto de grande interação nossa. Lembro-me de quando me ensinou a fazer Ceviche. Do pormenor da cebola roxa, e dos temperos. Você picava cebolas como ninguém. Estou a vê-lo na nossa cozinha minúscula em Campo de Ourique, a cortar legumes e a mexer nos tachos e panelas enquanto bebia um copo de vinho tinto e conversávamos os dois sobre o ponto dos refogados, ou de como cortar o peixe ou os legumes. Lembro-me de me rir quando via como arrumava o frigorífico, tão parecido comigo na sua organização. Lembro-me de si todos os minutos do dia, nesse tal Mundo de que lhe falava há pouco, que agora é um Mundo num patamar diferente.

Eu sei que você me ouve e me entende, me aconchega e me acarinha, mas há momentos em que a falta física do seu abraço me dói como o raio. O tempo vai passar e eu não o vou ver a envelhecer, não vou assistir ao aparecimento dos seus primeiros cabelos brancos, nem das suas rugas. Não vou poder embalar os meus netos nascidos de si, vê-los a dar os primeiros passos rodeados de animais e natureza, nem lhes ensinar os princípios importantes da vida, neste futuro que me foi - literalmente -roubado. E isso DÓI Tim. É uma dor tão forte e tão violenta, de uma magnitude tão grande, que é como se me arrancassem o coração. Ou melhor, é pior, porque se me arrancassem o coração eu morreria, e agora tenho de viver com isto todos os dias até morrer.

É uma morte em vida. Quando morre um filho, perde-se uma parte de nós. É irrecuperável. Não existe consolo, nem fim, ou seja, o Luto por um filho é permanente. E essa permanência é algo inultrapassável, porque é um sofrimento que jamais acaba. É uma tortura. Espero que o Universo me dê forças para aceitar, não "talvez um dia", mas todos os dias. Agora, quando abro os olhos, já não digo: 

- "Que bom, mais um dia que nasce!"

Mas sim:

- "O Universo me dê a força necessária para aceitar mais um dia!"

Ponho Amor em tudo o que faço. Tento que esse Amor que sinto por si, esse Amor universal, passe nos meus gestos, nas minhas atitudes, pois só o Amor tem poder para aliviar este sofrimento. E considero que o Amor tem vindo ao meu encontro. Estou mais próxima de algumas Tias suas, de quem tive muitas saudades, também dalguns primos, e de amigos e outras pessoas, e isso é muito bom. Isso é Amor. 

Se houvesse mais Amor no Mundo, o Mundo seria melhor. Mas nós, os Humanos, só nos apercebemos disso, quando um dos Nossos é chamado. Existe um pouco de Nossa Senhora em cada Mãe De(s)filhada. 

Que Ela me acolha debaixo seu manto de Luz nestas noites escuras de profundo desgosto. 

Beijo enorme Filho lindo!

Mami


domingo, 25 de setembro de 2022

25.9.2022 - One day minus...53? (loosing track of time!)

 




Meu querido, querido Tim, meu adorado Filho,

Estou sentada, pela primeira vez desde o dia dois de Agosto, à minha secretária. Todo esse malfadado dia me vem à memória: seriam umas dez e tal da manhã, quase onze, quando o meu telefone tocou e a minha vida mudou para sempre. Irreversivelmente, numa brutalidade sem limites, sem fronteiras e sem tréguas. Uma mudança pela qual nenhum Ser Humano deveria passar, tal a dimensão ilimitada da dor. 

Sei que você e eu temos o nosso Mundo, e gosto tanto de aqui estar, a conversar consigo, mesmo sentindo o sal das lágrimas sem fim a escorrer até aos cantos da boca. São lágrimas de uma saudade imensa, de uma dor de uma força tal, que me arrasta e me traspõe para um plano tão doloroso, mas tão, tão doloroso, que as palavras não chegam para o descrever. Não há adjectivos suficientes. Em frente aos meus olhos existe uma fotografia nossa, você em pequenino, em Fôja, como sempre abraçados um ao outro, numa moldura que me traz tantas, mas tantas recordações. A moldura, porque a fotografia não é feita de recordações, é um reflexo do nosso Amor, o de ontem, o de hoje e o de amanhã. Amor INFINITO! Sempre me questionei porque é que a tinha colocado aqui, e sempre senti uma certa injustiça perante o facto de ter só esta fotografia na minha secretária e não ter posto também uma com o seu irmão. Já não digo nada, poderá ter sido uma premonição. Ao lado repousa o despertador verde da Oma, que me indica(va) sempre as horas durante o dia de trabalho. Neste momento não consigo trabalhar, o meu cérebro não acompanha. 

O meu trabalho agora são as madeiras, a transformação do velho em algo diferente, irreverente, único. Enquanto trabalho a madeira, para depois a pintar e a encerar com cera de abelha, o meu cérebro, o meu coração e a minha Alma voam até si. São nesses momentos indescritíveis da paz do reencontro do Amor, que me transporto para o Mundo paralelo onde você e eu continuamos. Esse Mundo longínquo, tão nosso, numa "bolha" onde só nós dois cabemos, nessa imensidão que foi, é, e será, para sempre, o nosso Amor! Cada peça que transformo tem uma história, porque encerra mais uma conversa nossa. Vou começar a oferecer algumas àqueles que nos amam. 

Já descobri o estilo de que mais gosto, é o da tinta misturada com água, em pinceladas quase etéreas, suaves, como se de veludo se tratasse, e após colocar a cera de abelha em movimentos doces, parece seda, de tão macia ao toque.

Tim... uma vez mais perdi tudo o que escrevi. Começo a achar que você me prega partidas...certo? :-)

Bom, não vou tentar reconstruir o que lhe disse, não faz sentido. 

Lembro-me de quando lhe ofereci esta toalha de praia e você dizer:

- "Eh pá Mãe, adoro, top Mãe, Épico Mãe," (seguindo-se mais um palavrão, que uma vez mais vou omitir para preservar a sua memória), e de eu lhe responder:

- "Assim ninguém a confunde, é só sua!"

Tim, meu Tim, meu Filho adorado, não consegui ainda lavar esta toalha. Encerra em si a plenitude do cheiro a maresia e - espero - a felicidade tão efémera que você viveu. 

Você sabe que eu escrevo da Alma, e do coração e não consigo reproduzir o que me saiu há pouco e que se foi. 

Sei que nos encontramos num patamar, num hiato de tempo sem tempo, naquela ombreira intransponível de Luz, onde somos unos, e nos conseguimos alcançar.  E é nessa ombreira que quero permanecer, porque é fronteira entre dois Mundos. Os nossos. Esta madrugada sonhei consigo, pela primeira vez, sem o pavor de o perder. Foi...

...épico...!

Tim, eu envelheci cem anos. Tenho uma Vida antes e uma vida depois, tenho muitas décadas a mais, após isto tudo. Tenho um Mundo só nosso, onde nos encontramos para falarmos, partilharmos e vivenciarmos tudo o que foi o nosso Amor. É nessa ombreira, nesse hiato de tempo sem tempo, porque não existe tempo entre nós, que paro, que penso e que nos VIVO! Sinto-me só, tão abandonada e incompreendida nesta minha dor, nesta imensidão intransponível de sofrimento, que não sei como vou continuar. Mas sei que só há uma forma:

A do AMOR!

"Mais Amor por Favor!"

Tim, você e eu partilhamos neste espaço sideral, esta imensidão do Amor, esta sensação indescritível de pertença, de chegar a casa. Não sei como vou continuar a minha jornada, ela é penosa, repleta de espinhos que me ferem a carne e dilaceram a Alma a todo o instante, e sobretudo, é uma caminhada solitária. Mas é minha. É um abismo intransponível, mas acredito que aos poucos, iremos conseguir construir a ponte entre as margens, mesmo que seja numa dimensão que mais ninguém consegue entender.

E esta dor constante, permanente e perpétua, pungente e avassaladora, esta sensação de abandono, de perda sinistra, que só se colmata quando afago a madeira e depois lhe decido escrever mais uma carta, desaparecem por momentos. Ou melhor, suavizam-se.

Tim, meu Filho adorado,

meu adorado Filho,

não sei como vou conseguir. Mas prometo que estou aqui, de corpo às balas. 

Tenho TANTAS, TANTAS, TANTAS saudades suas meu Filho querido!

Tim...

Envie Amor por favor!

Mais AMOR!

Da sua Mãe que o adora,

Mami



sexta-feira, 23 de setembro de 2022

22.9.2022 - One Day minus 50...(aos poucos...)

 


Bicho do meu coração,

Têm sido dias intensos, e por isso, não tenho vindo aqui para as nossas conversas. Mas fui à Capelinha do Espírito Santo. 

Ontem e hoje foram dias bons. E quando digo "bons", é porque você vive em mim, e faz parte constante do meu pensamento, foram dias em que pensei em si com saudade imensa, mas com menos "mágoa". É como se o desespero da saudade tivesse dado lugar a uma saudade mais "doce". Não é fácil de explicar, contudo, sei que você entende o que o meu coração quer dizer. Foram dias de uma saudade como que pacificada.

E isto é um avanço. Continuo e não ter vontade de estar muito tempo no meio de pessoas. Cansa-me, e, além disso, os meus pensamentos voam muitas vezes para ao pé de si, o que significa que estou como que ausente, as pessoas apercebem-se, e é chato.

Ontem fomos ao Baleal. O Jorge e a Teresa prepararam-nos um almoço de peixinho no forno, uma delícia, e foi muito bom estar com pessoas que me acarinham muito e me fazem sentir "em casa". E finalmente estive com os pés no mar. Não deu para entrar nas ondas, porque me esqueci do fato-de-banho, mas andei descalça na areia da praia, e salpiquei-me de água salgada. Estava quente! Fim de tarde de sonho. Ouvir o bater das ondas, sentir a maresia, e perder-me naquela imensidão, trouxe-me tranquilidade. Falei consigo, claro, muitas vezes e por muito tempo. Cheguei cansada, mas, como já lhe disse acima, com um sentimento de saudade apaziguada que me serenou o coração e me secou as lágrimas. Ora sempre que estas secam, nem que seja por um dia, é porque esse dia foi um dia que mereceu ser vivido. Óbvio que não posso dizer "vivido na sua plenitude", porque os dias passaram a ser incompletos, mas se a minha vida de agora em diante for assim, é menos doloroso.

Hoje andámos na obra. Tudo começa a ganhar forma, antevê-se um final, e isso é gratificante. Amanhã vou para lá logo pela fresca, com o canalizador, o pedreiro e o pintor.  Há muitas coisas para fazer e para coordenar, mas eu adoro, e você sabe disso. Tenho posto muito amor naquela casa, muita dedicação. E ela merece. A Buganvília que o Miguel plantou no calor tórrido do Verão, já pegou. Começou por dar uma tímida flor, desde segunda-feira até hoje, já tem cinco. Cinco flores branquinhas, lindas, Vida a desabrochar.  A roseira deu à luz o primeiro botão. Também já pegou. O Miguel tem muito jeito para plantas e tudo o que tem a ver com a terra. Tudo medra nas mãos dele, o verdadeiro toque de Midas. Ao contrário de mim, como sabe, que de jardineira tenho pouco. Só faço asneiras e as plantas secam como se estivessem no Sahara.

A dedicação e a energia que a casa me tem pedido, têm sido uma tábua de salvação. Fui eu quem lixou as portadas e as janelas. Enquanto as mãos trabalham e criam, a Alma pacifica. É a melhor terapia que se pode encontrar.

Tim, se você cá estivesse agora, iria gostar. São as Festas do Concelho e a Vila está muito bonita. Toda enfeitada de verde e branco, com tasquinhas, mostras de sabores e artefactos, quermesse - sim, também contribuí com alguns cangalhos e outras quinquilharias, como não poderia deixar de ser - e música ao vivo. É bonito de se ver e de se sentir o frenesim nas ruas. Temos um arraial literalmente à porta de casa. É barulhento, claro e dá uma trabalheira controlar a Foxie, que mal se abre a porta da rua, se esgueira pela calada para ir surripiar ossos e outros restos de iguarias típicas, aproveitando o facto de a Dona Fernanda estar a descascar batatas na cozinha. A Dona Fernanda está no céu. Todos os dias põe um avental novo, e veste-se de acordo com os quadradinhos ou as flores de cada um. Do alto dos seus oitenta e um anos, esteve na festa até às três da manhã a ajudar na cozinha e a meter a rapaziada na ordem. 

O Mundo gira. Muito mais devagar, mas gira.

Começo, portanto, a habituar-me à minha nova vida, a uma vida sem si. Penso que tive muita sorte - se é que se poderá dizer isto assim - porque o seu Amor e o seu exemplo de Vida passaram para mim com a sua morte. Nunca deixei a mágoa ou a raiva entrarem no meu coração, porque sempre soube que se o fizesse, a minha vida iria ser um inferno muito pior. Teria ficado presa a esses sentimentos tão negativos, e nunca conseguiria andar para a frente. E eu não poderia querer isso, tendo o privilégio de ser sua Mãe. 

Esta nova fase, que aos poucos começa a fazer parte do meu luto, tem-me ensinado muita coisa. Ah Tim, tenho ou não razão? Sinto a cada dia que passa, que você toma cada vez mais conta de mim. Que me abraça, me senta no seu regaço de Luz para me acalmar as lágrimas, me consola e me dá coragem. Ao mesmo tempo sinto-o mais longe, conquanto cada vez mais perto. Esta sensação paradoxal não é fácil de trocar por miúdos, mas eu vou tentar, muito embora pense que você percebe lindamente o que lhe quero transmitir: à medida que a minha dor se apazigua um pouco mais, eu deixo de o chamar, naquele desespero devorador, que muitas vezes ainda me atormenta e me suga para o seu vórtice negro. E de cada vez que eu consigo escapar por mais tempo a esse buraco de escuridão, eu vou para mais perto de si, embora num plano e numa dimensão diferentes. Entende? Eu sabia Filho querido, é claro como a água: à medida que você se solta um pouco mais e sobe, porque eu não o estou a querer ou a tentar prender, eu estou mais perto de si.

Talvez os Psicólogos tenham um termo para esta fase, para este sentimento. Eu não o prendo, você sobe, e, contudo, sinto-nos cada vez mais perto, nos braços um do outro, conquanto num patamar mais "puro", e por isso, muito, mas muito mais intenso.

Você aproxima-se cada vez mais do centro do Céu, e eu sinto-o cada vez mais perto, porque estou apaziguada! Simples!

Que Epifania Tim! Obrigada, meu Filho lindo! Adoro-te meu Amor querido!

Meu Tim :-)

Um beijo imenso neste Outono que começa,

Mami





terça-feira, 20 de setembro de 2022

19.9.2022 - One Day minus 47...(Pormenores ou Por maiores?)

 




Meu adorado Filho,

Começou a semana e o meu cérebro voltou a assemelhar-se um pouco mais ao que costuma ser. Não com ao que costumava ser, porque parece que tive um AVC dia dois de Agosto: articular os pensamentos, palavras e ideias, requer um esforço hercúleo. E vou-lhe dar um exemplo anedótico.

Fizemos oitenta quilómetros para ir ao Leroy comprar o exaustor e os interruptores, porque o eletricista, aquele ser surreal sobre quem lhe contei, resolveu misturar os interruptores da Quinta, tal qual uma salada de massa tricolor. Ir a Torres é um "happening": um edifício de betão com vinte lojas, e achamos que estamos no Colombo. Somos teletransportados para uma memória de civilização consumista - Nirvana do gasto desnecessário, Shangri-La dos impulsos desenfreados, que não servem para nada depois de comprados - mas da qual, de vez em quando, também precisamos. Ou seja, deixámos o dever para trás, e fomos ao Leroy por último. O resultado foi lindo: mal chegados à obra, reparámos que os interruptores estavam comprados, mas que nos tínhamos esquecido do principal: o exaustor!!!! 

Mas não faz mal, tenho um pretexto para mais uma tarefa que me vai ocupar, e manter semi-vivos, o Tico e o Teco, que agora serram, alternadamente, os meus miolos. Com meia hora de descanso entre eles, subentenda-se!

Sabe Tim, hoje enquanto regressávamos, o Miguel e eu estivemos a conversar sobre o passado (recente). E eu cheguei à conclusão de um facto? muito curioso. Algo que me faz imensa confusão. Até ao dia da sua morte, eu sentia o passado da minha vida como meu. Algumas memórias estavam mais longínquas, obviamente, mas era uma Vida cujas recordações eu ainda conseguia traçar até à Casa Partida. Nunca me senti com a minha idade e você brincava imenso com isso, e eu dizia que tinha parado aos quarenta, e agora, se eu lhe dissesse com que idade me sinto, acho que você iria começar a rir e diria:

- "A Mãe tá doida. Ó Mãe, a Mãe não existe! A sério!" (seguido de mais um palavrão que opto de novo por não escrever, com o intuito de preservar, uma vez mais, a sua memória imaculada!).

Eu tenho neste momento, quarenta e nove dias depois da sua morte, mais de cem anos. Eu tenho, ou eu tive?, duas vidas. Tive uma Vida e tenho agora outra vida. Eu fui um Ser Humano. Com Angústias, Alegrias, Tristezas e Esperanças, mas sempre com uma garra e uma crença inabaláveis na Vida. Um motor de energia, que levava a minha família para a frente, de corpo às balas e de coração submerso na emoção da crença na felicidade do presente e na do amanhã. Eu hoje sou um resquício dessa pessoa, uma sombra, uma memória estranha, uma aberração, porque me parece que de outro alguém que não eu: quando olho para "ela", para essa pessoa, ou seja, para o meu âmago, eu não reconheço o que observo. Mas o mais pungente, o mais estranho, o mais terrível, é que essa pessoa viveu sete meses e dois dias de uma Vida normal no ano de dois mil e vinte e dois. Mas quando foi esse ano? Há séculos perdidos no pó do tempo e nas teias de aranha da memória? 

Tim, aqui entre nós que ninguém nos ouve, eu devo ter enlouquecido. Eu escrevo e articulo os meus pensamentos de uma forma totalmente lógica, mas a essência dos mesmos é totalmente insana. Será que a minha cabeça se distancia propositadamente dessa Vida passada, normal e tão feliz, para me defender? É disso que tenho medo. De me esquecer de algum dos pormenores de uma Vida por maioritariamente como Mãe de dois Seres únicos. Pormenores? Errado. Por maiores, porque se trata de todos os segundos dessa Vida! Isso é que apavora. 

Mais um tema para falar com a psicóloga. Estarei à beira da loucura, e será o distanciamento temporal uma defesa, uma derradeira barreira consciente para evitar a queda nesse precipício? Ou será que para uma Mãe que perde um Filho, o Mundo sofre uma paragem, num retrocesso no futuro de um salto quântico, que a transporta para uma eterna e precoce velhice moribunda?

Sinceramente não tenho resposta, meu querido Filho. 

Sei que a Vida, como a conheci desde que me lembro que nasci, não é a mesma, nem o será nunca mais. Tento manter-me à tona. Nadar contra a corrente que me quer engolir. Também sei que você me lança, todos os momentos em que me sinto assim, a boia. Amarela ;-), mas isso é tema para outro dia, as pulseiras. 

Tim...continuo a não conseguir abarcar a dimensão desta saudade. 

O José Eduardo Rebelo escreveu no livro: "O Luto: Vivências, Superação e Apoio", que para uma Mãe, pela própria natureza da gestação e do elo que se estabelece desde o minuto zero, a morte de um Filho é semelhante a uma amputação de uma parte vital de si. Como que uma morte em vida. Talvez seja isso que explica a minha esquizofrenia temporal, esta dissociação no espaço e no tempo, esta coexistência antagónica, paradoxal e incrivelmente dura, do que fui e do que sou:

"I was a stranger, in my own skin. Seven Layers, I've been hiding in"... (Dotan, claro!)

Está decidido, vou criar uma playlist com o nome de...

..."ÉPICO"!

Saudades suas, Filho do meu coração!

Da sua Mãe que o adora,

Mami

P.S. Lembra-se desta porta em Barça e de como achei a ideia genial? Mal sabia eu!


domingo, 18 de setembro de 2022

18.9.2022 - One Day minus 46 - Dúvidas

 



Meu adorado Filho,

Cheguei a casa! Foram dois dias intensos em Lisboa e quero contar-lhe sobre isso. 

Fui à Psicóloga. Uma pessoa querida, simpática e calma. Foi bom porque falei sem (quase) parar, chorei, zanguei-me (segundo ela, e provavelmente tem razão!), e confessei-lhe as minhas dúvidas sobre a minha sanidade mental. Saí de lá com a ideia de que afinal estou mais sã do que pensava. O que já não se pode dizer que seja mau.

Depois fui almoçar à Oma. Foi óptimo. Achei-a triste, muito triste, e sem a força de continuar este caminho, mas lá lhe li o Responso, e disse que é para seguir, porque é muito precisa cá. Por todas as razões e mais uma. Portanto, nada de desistir!

À Tarde, fui ter com "as Mães", o meu grande propósito de ir a Lisboa. E foi tão bom Tim, tão bom, que não há palavras. Fomos ao "Lost In" e naquela esplanada aconteceu Magia. A Magia do Amor, da Saudade, da Paz e da Partilha. Sobretudo da Partilha. Éramos três, e você conhecia o filho de uma Delas, e tinha estado em Barcelona com um dos filhos da Outra; como não poderia deixar de ser. Aliás, muito me admiraria se assim não fosse. Acredito que enquanto nós, cá em baixo, partilhávamos água com gás e limão, memórias, vivências, desgostos e anseios, vocês, aí em cima, bebiam uns daqueles seus cafés únicos de Barista, cheios de espuma de leite, e em cada um deles desenhava-se o "M" de Mãe, polvilhado com canela, como eu tanto gosto.

Foi bom Tim. Foi bom estar com outras "Defilhadas", embora eu goste mais do termo escrito com "S", ou seja, "Desfilhadas", porque, como já lhe contei, me faz lembrar as flores sem pétalas - ergo - sem vida, sem objectivo, sem "beleza". Enfim, como se escreve não interessa. Importante é o que se sente. E sabe Tim, na pior coisa que pode acontecer a um Ser Humano em Vida, encontrar outras Mães e outros Pais na mesma situação, dá-nos uma sensação de partilha. A sua Omi costumava dizer: "Geteilte Sorge ist halbe Sorge", e é verdade. Quando partilhamos os desgostos ou preocupações com outros, eles dividem-se. E com isso, cada pessoa tem de acarretar com menos peso.

Saber que há outros como nós, ajuda. Porque uma coisa tem de ser dita. Ou melhor, escrita: Quando morre um Filho, existe uma Vida antes e uma vida depois, embora essa vida, mesmo que com minúscula, seja um eufemismo para este calvário. 

Há momentos, como agora, em que chego a casa e olho para o seu Altar, ou para as suas fotografias e ainda me custa a crer que nunca mais o vou ver ou abraçar. 

Existe uma questão que não deixa de me inquietar o espírito: Há Mães que perderam os seus filhos há mais de vinte anos. Não lhes quis perguntar isto, com receio de as colocar perante uma questão difícil e dolorosa, mas a minha pergunta seria: 

- "Como é que vocês vêem agora os vossos Filhos quando pensam neles: como as crianças/adolescentes/jovens que eram, ou como seriam (ou são?) agora?" 

Acho que é uma pergunta pertinente, e se faz favor lembre-me de perguntar isso à Psicóloga, porque é de primordial importância. É semelhante à questão: "Eu tive dois Filhos" ou "eu tenho dois Filhos"? Todos os Pais com quem falei, partilham do mesmo tempo verbal: TENHO. Porque um Filho nunca morre para nós. Mas isso pode denotar muita coisa no que diz respeito ao estado de espírito, e consequentemente, à nossa sanidade mental. Eu falo de si no presente quando me refiro ao MEU FILHO MAIS VELHO, e no passado, quando relato episódios seus. Mas a diferença é abissal, porque os episódios aconteceram, e assim sendo, estão no passado, mas você ser o meu Filho mais velho, é um facto, traduzido no Presente do Indicativo. Eu não "fui" sua Mãe, eu SOU sua Mãe, e, embora você me tenha sido roubado, continua a ser meu. Nunca deixarei de ser a sua Mãe. Sou a Mãe de um Filho que morreu. Mas a sua morte não acarreta a inexistência de um facto que foi, é, e será, até eu morrer, metade da minha razão de viver...

...Bom, acho melhor parar de filosofar, senão é que me internam mesmo num colete de forças. 

Segui para a Oma, e jantámos com o seu irmão. Gostei tanto de o ver! Está com uma pele fantástica, um cabelo curto, de um loiro muito escuro, e os olhos muito azuis, tão expressivos na sua emoção! Eu fiquei no seu lugar, propositadamente, e empanturrámo-nos de Sushi. E falámos, falámos, falámos.

Depois o Mano foi "angariado" pela Oma para a pôr up-tp-date acerca das tecnologias: levou-lhe o computador dele, instalou as tretas todas, e sincronizou mais mil e um gadgets, não sem antes explicar duzentas e trinta e cinco vezes, a metodologia e os procedimentos a respeitar, para se desfrutar de uma sessão televisiva.

Ontem, porque são três e meia da manhã de dia 18, acordei tarde e estive à conversa com a Oma até depois do meio-dia. Almocei com o meu "Manito" num sítio do qual não me lembro o nome, porque também não é importante, mas foi à beira-rio, e pouco depois segui para a Estação do Oriente.

No comboio, vim a ler o livro sobre o Luto, consigo ao meu lado. Ou terá sido em mim? À minha volta? Não consigo precisar, sei que deixei as lágrimas correr, perante o olhar incrédulo dos outros passageiros, mas para isso estou-me a borrifar desde o dia dois de Agosto deste maldito ano!

Há um Antes e há um Depois. Há uma Vida e há uma (sobre)vivência. Há a Plenitude, e há a limitação. Há Vida e há a morte, a Esperança e o desespero, a Paz e a inquietude...mas também há:

O Amor e há...

... O AMOR!

(Amo-te Filho Lindo!)

Beijo da sua Mãe que o adora,

Mami!

P.S. Como diz outro Defilhado de quem gosto muito, muito, muito: "Ajuda a pousar os cristais da dor!"

(Café tirado por si no Arts a 25/08/2018)


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

14.9.2022- One Day minus 42 (Rainbow)

 


Meu querido, querido Filho,

Hoje envio-lhe um arco-íris, aqui ainda muito suave, que captei com o telefone, encharcada até aos ossos. Choveu como se não houvesse amanhã (e não há!), e foi um dia para esquecer. Às vezes pergunto-me porque é que as pessoas querem fazer aquilo que não sabem, ou que ninguém lhes pediu. Passei-me com o pedreiro. Ainda bem que não assistiu, já o estou a ouvir:

- "Mãe, calma, calma Mãe, não faça uma cena, eles coitados não sabem!"

Concordo, eu também não sei a maior parte das coisas, por isso não me atrevo no mundo dos números. Só sai borrada. Acredito até que já me enganei no número dos dias. Mas isso também não tem qualquer importância, o dia ZERO da minha existência é o que conta, porque a partir daí, toda a minha vida mudou. Tudo mudou. 

Confesso que é bom estar irritada com outras coisas, imprime um toque de "normalidade" ao aberrante. E, aqui (me) exponho, parece-me que afinal ainda há alguma parte viva em mim. Enquanto conseguir ficar irritada com os disparates do pedreiro, é sinal de que andamos para a frente. 

Mas depois chega a noite, e o silêncio, e começam as nossas conversas e eu olho para o meu centro, e pergunto-me como é possível irritar-me com o trabalho do pedreiro. Provavelmente o meu cérebro aproveitou a deixa, o acontecimento, o "set-back", para iniciar um motim. O motim das emoções. A revolta na província. A anarquia (organizada) dos procrastinados do destino. 

Tim, quando olho para as fotografias, para o nosso passado tão presente e (para sempre!) futuro, porque quem é recordado nunca morre para nós, não entendo, não aceito e não interiorizo. Não consigo. É demasiadamente brutal. Que falta que sinto sua, querido Filho, sempre tão positivo, sempre tão amigo, sempre tão generoso.

Você tem que entender uma coisa: a "obra" é uma homenagem, um trabalho, uma recordação dos sonhos que nasceram dos nossos sonhos, visualizados criativamente, no nosso "make it happen!". Lembro-me da sua alegria, e da sua satisfação, perante o facto de irmos ter máquina de lavar loiça e de espaço exterior onde grelhar peixe, jogar Cavalos, King e Póker, Canasta ou Sueca, ou simplesmente relaxar. Lembro-me dessas conversas. Lembro-me de tudo, desde que você saiu da minha barriga. 

Filho, recordo-me de cada segundo partilhado, como se de uma oração se tratasse, e rezo, de olhos postos no infinito, mas o milagre não chega. Não há como.

Ou talvez haja...é transformar isto no Milagre do Amor. 

Vou tentar Tim, prometo.

Até lá, fica o Arco-Íris. A ponte entre o "aqui" e o "aí".

Tim...fazes-me tanta, tanta, mas tanta falta!

Beijos da Mãe que o adora!

Mami


05.03.2026 - O ano do Cavalo (de Fogo) - parámos a contagem!

Meu Filho tão querido, Muitas Luas passaram desde que lhe escrevi pelo última vez. Contudo, menos, muito menos do que as noites de insónia. ...